Um terno para dois: Otto Lara Resende e Millôr Fernandes

Literatura

13.09.12

São Jerônimo não é só pro­te­tor dos tra­du­to­res e das bibli­o­te­cá­ri­as. De vez em quan­do dá uma mão­zi­nha tam­bém aos pes­qui­sa­do­res. Quando menos se espe­ra, ele envia uma infor­ma­ção que dá todo o sen­ti­do a uma foto, um dese­nho, uma dedi­ca­tó­ria ou um tex­to.

Não fos­se uma con­ver­sa infor­mal com Helena Pinheiro Lara Resende, viú­va de Otto Lara Resende, que gos­ta de vir tomar um café comi­go aqui no Instituto Moreira Salles, tal­vez nun­ca se sou­bes­se que as três cari­ca­tu­ras de auto­ria de Millôr Fernandes, encon­tra­das no arqui­vo de Otto, dizem res­pei­to ao casa­men­to do pró­prio Otto.

Tudo come­çou quan­do comen­tei com d. Helena que tinha vis­to uma boa foto de seu casa­men­to.

“O Otto casou com o ter­no do Millôr”, dis­se ela, cuja memó­ria pro­di­gi­o­sa mui­to tem con­tri­buí­do para escla­re­cer dúvi­das que sur­gem no arqui­vo do mari­do.

Em 1950, ano do casa­men­to, Otto tra­ba­lha­va fre­ne­ti­ca­men­te em alguns perió­di­cos do Rio, cida­de onde che­ga­ra em janei­ro de 1946. Em qua­tro anos teve de alu­gar apar­ta­men­to, fir­mar-se pro­fis­si­o­nal­men­te, encan­tar-se com o Rio de Janeiro, e, de que­bra, encon­trar a mulher com quem vive­ria por toda a vida.

Não espan­ta que, dian­te das res­pon­sa­bi­li­da­des que assu­mia, lhe tenha sido pro­vi­den­ci­al a eco­no­mia de uns bons cobres: em vez de com­prar ou alu­gar um ter­no para a cerimô­nia, enver­gou, de gra­ça, o de Millôr Fernandes. Devidamente para­men­ta­do, no dia 14 de abril de 1950 ele rece­beu a noi­va ao pé do altar do mos­tei­ro de São Bento, no Rio de Janeiro.

Nem tão de gra­ça como se pode pen­sar foi o emprés­ti­mo do ter­no. Otto sofreu tor­tu­ra do ami­go que, todo dia, duran­te uma sema­na, fazia des­li­zar por bai­xo da por­ta do  apar­ta­men­to 201 da rua Artur Araripe 63, Gávea, onde mora­va o noi­vo, um dese­nho  ame­a­ça­dor — con­ta Helena Lara Resende.  Três des­ses dese­nhos foram encon­tra­dos no arqui­vo de Otto, sob a guar­da do IMS des­de 1994. Neles, como se vê, o car­tu­nis­ta faz con­ta­gem regres­si­va para a data do casa­men­to:

 

 

O jor­nal cari­o­ca A Manhã, onde Otto tra­ba­lha­va, noti­ci­ou o casa­men­to na seção “Flagrantes nup­ci­ais”, em 23 de abril de 1950.

A jul­gar pela foto ofi­ci­al, o ter­no de Millôr caiu mui­to bem em Otto. Elegante e depois de devi­da­men­te aben­ço­a­do, ele des­fi­lou na nave do mos­tei­ro, levan­do pelo bra­ço a noi­va, com seu ves­ti­do de cin­co metros de cau­da. Diferentemente do noi­vo, o ves­ti­do de Helena Uchoa Pinheiro, como assi­na­va antes de se tor­nar a senho­ra Lara Resende, fora con­fec­ci­o­na­do espe­ci­al­men­te para ela, exe­cu­tan­do dese­nho fei­to por Alceu Pena. Sim, o Alceu Pena, autor das famo­sas garo­tas de O Cruzeiro.

Terno e cau­da far­fa­lha­ram pelos salões do apar­ta­men­to de cober­tu­ra de três anda­res, na rua Assis Brasil, em Copacabana, onde mora­vam os pais da noi­va, o enge­nhei­ro e polí­ti­co Israel Pinheiro, futu­ro gover­na­dor de Minas Gerais, e a mulher, Coracy Uchoa Pinheiro, com os nove filhos. Ali a famí­lia rece­beu os con­vi­da­dos para a fes­ta.

As ame­a­ças de Millôr foram em vão. Otto se encan­tou com o casa­men­to, viveu sem­pre jun­to da mulher e dos qua­tro filhos e, sobre o assun­to, não fez por menos:  “Como esta­do civil, sou casa­do, casa­dís­si­mo, com a famí­lia toda. Muito fami­li­ar. Familioso. Familial. Gosto do con­ví­vio dos meus filhos. (…) Como pai, me con­si­de­ro, modés­tia à par­te, uma mãe exem­plar”, diria ele, cer­ta­men­te sem exa­ge­ros.

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