A escritora inglesa Zadie Smith

A escritora inglesa Zadie Smith

A escritora inglesa Zadie Smith

Macroplanejadores e microgerentes

Literatura

09.01.18

Em pales­tra para o cur­so de escri­ta cri­a­ti­va da Colum­bia Uni­ver­sity, a escri­to­ra ingle­sa Zadie Smith divi­diu os escri­to­res em dois gru­pos – os macro­pla­ne­ja­do­res e os micro­ge­ren­tes. Macro­pla­ne­ja­do­res só ini­ci­am o pro­ces­so cri­a­ti­vo depois de exten­so pla­ne­ja­men­to. São dedi­ca­dos no pro­ces­so de pes­qui­sa, gene­ro­sos em notas e pre­ci­sos em seus cro­no­gra­mas e linhas do tem­po.

É pos­sí­vel reco­nhe­cer um macro­pla­ne­ja­dor pelos post-its e moles­ki­nes. Lem­bra aque­le cole­ga de esco­la que todos tive­mos, que tinha o cader­no mais orga­ni­za­do e usa­va cane­tas colo­ri­das para divi­dir assun­tos e maté­ri­as. A segu­ran­ça de estru­tu­ra pos­si­bi­li­ta aos macro­pla­ne­ja­do­res a liber­da­de de movi­men­to – não é inco­mum come­ça­rem um roman­ce pelo meio. Na medi­da em que pro­gri­dem, as esco­lhas aumen­tam – podem escre­ver múl­ti­plos finais, tirar e incluir per­so­na­gens, mudar o local de um livro de Lon­dres para Ber­lim ou alte­rar a ordem dos capí­tu­los.

Micro­ge­ren­tes são aque­les para quem o livro só acon­te­ce no momen­to pre­sen­te – uma sen­ten­ça leva a outra, e a outra. Por isso as pri­mei­ras 20 pági­nas são as mais impor­tan­tes e difí­ceis de escre­ver. Defi­nem pers­pec­ti­va e voz, e for­mam a base do pro­ces­so sub­je­ti­vo ado­ta­do por este tipo de escri­tor. Um micro­ge­ren­te pode pas­sar meses rees­cre­ven­do essas pági­nas até encon­trar o tom que dese­ja seguir. O resul­ta­do pode levar a um iní­cio de roman­ce enges­sa­do, com fra­ses por demais tra­ba­lha­das, em que o lei­tor con­se­gue per­ce­ber o esfor­ço exa­ge­ra­do do escri­tor. Mas ape­sar do sofri­men­to implí­ci­to e per­cep­tí­vel, supe­rar estas pri­mei­ras pági­nas con­duz a um livro que se escre­ve com faci­li­da­de. Pre­o­cu­par-se com as 20 pri­mei­ras pági­nas é uma for­ma de se pre­o­cu­par com o roman­ce intei­ro. Uma for­ma de encon­trar sua estru­tu­ra, enre­do e per­so­na­gens, ele­men­tos que para um micro­pla­ne­ja­dor estão con­ti­dos na sen­si­bi­li­da­de de uma sen­ten­ça.

O escri­tor James Pat­ter­son, que já ven­deu mais de 300 milhões de exem­pla­res, é um exem­plo de macro­pla­ne­ja­dor. Cons­trói seus livros a par­tir de uma estru­tu­ra ante­ri­or à ela­bo­ra­ção dos capí­tu­los, e duran­te meses ali­men­ta esta estru­tu­ra com apon­ta­men­tos para cenas e diá­lo­gos. Quan­do ter­mi­na o pro­ces­so, afir­ma, o livro está pra­ti­ca­men­te pron­to. Só é pre­ci­so seguir o rotei­ro esti­pu­la­do. Ken Fol­let é outro autor de best-sel­lers que segue pro­ces­so seme­lhan­te. Pri­mei­ro defi­ne a estru­tu­ra, para depois desen­vol­ver os capí­tu­los.

Pode-se dizer que o gêne­ro des­tes auto­res – fic­ção popu­lar – é com­pa­tí­vel com o exces­so de pla­ne­ja­men­to. Tan­to Pat­ter­son quan­to Fol­let escre­vem livros que pre­ci­sam man­ter a aten­ção do lei­tor a cada qua­tro ou cin­co pági­nas, e que por isso seguem um padrão. Seus livros lem­bram os capí­tu­los de uma nove­la bra­si­lei­ra – toda a noi­te a tra­ma ter­mi­na com um sus­pen­se que será solu­ci­o­na­do no dia seguin­te. Alguns dias depois o espec­ta­dor nem se lem­bra­rá do que tan­to o pre­o­cu­pa­va naque­la noi­te de quar­ta-fei­ra. Have­rá outras revi­ra­vol­tas, des­co­ber­tas, trai­ções.

 

Detalhe do escritório do escritor inglês Will Self, um nítido macroplanejador

Deta­lhe do escri­tó­rio do escri­tor inglês Will Self, um níti­do macro­pla­ne­ja­dor

 

Mas nem todos os auto­res de best-sel­lers tra­ba­lham assim. Stephen King não acre­di­ta em pla­ne­ja­men­to. Para ele, estru­tu­rar um roman­ce mata a espon­ta­nei­da­de do pro­ces­so cri­a­ti­vo. King defi­ne o pro­ces­so como um esta­do de tran­se que anu­la o tem­po – par­te de seu tra­ba­lho como escri­tor, ele diz, é sonhar acor­da­do. O escri­tor de livros poli­ci­ais Lee Child tra­ba­lha da mes­ma for­ma. Cer­ta vez um pes­qui­sa­dor da uni­ver­si­da­de de Cam­brid­ge pediu para acom­pa­nhá-lo duran­te o pro­ces­so de escri­ta de um livro. No pri­mei­ro pará­gra­fo do livro, Child des­cre­veu a mor­te de um per­so­na­gem cha­ma­do Kee­ver. O pes­qui­sa­dor per­gun­tou a Child quem era Kee­ver, e o que tinha acon­te­ci­do com ele. Child res­pon­deu que não tinha a menor ideia – só depois de escre­ver dois ter­ços do livro é que a tra­ma come­çou a fazer sen­ti­do, até mes­mo para ele.

Esse pro­ces­so de escri­ta que não pas­sa pelo raci­o­nal é men­ci­o­na­do por mui­tos outros escri­to­res. Hemingway dizia que depois de um dia de tra­ba­lho é pre­ci­so se esque­cer com­ple­ta­men­te do que foi fei­to, para o sub­cons­ci­en­te ali­men­tar o tra­ba­lho do dia seguin­te. Ele­na Fer­ran­te des­cre­ve sua fran­tu­ma­glia – peda­ços de sen­ti­men­tos e memó­ri­as que habi­tam a men­te de uma pes­soa. No caso de um escri­tor, par­te deles obe­de­cem a uma ordem, e come­ça ali o pro­ces­so nar­ra­ti­vo. Sue Graf­ton des­cre­ve seu rela­ci­o­na­men­to com o lado direi­to do cére­bro – quan­do está dian­te de um impas­se na nar­ra­ti­va escre­ve notas para ele, pedin­do aju­da. Zadie Smith fala do meio de um roman­ce, em que acon­te­ce um pro­ces­so de pen­sa­men­to mági­co: “O tem­po entra em colap­so, você sen­ta para escre­ver às nove da manhã, pis­ca e já é de noi­te. Na tela estão 4 mil pala­vras, mais do que você escre­veu em três meses de tra­ba­lho”.

Alcan­çar e man­ter este flu­xo cri­a­ti­vo não é um pro­ces­so fácil ou con­tí­nuo. Geor­ge Saun­ders demo­rou qua­tro anos para escre­ver o con­to “Dia das mães” (o que ele se per­mi­tiu fazer por ganhar a vida como pro­fes­sor, e por ter a paci­ên­cia e a sabes­do­ria exer­ci­ta­das em déca­das de medi­ta­ção). Mark Twain acre­di­ta­va que alguns roman­ces e his­tó­ri­as ina­ca­ba­dos pre­ci­sa­vam ser esque­ci­dos por alguns meses ou anos, para o autor vol­tar a eles com nova pers­pec­ti­va e ener­gia. “Rezar pode aju­dar”, afir­ma Mar­ga­ret Atwo­od, num con­se­lho sobre escri­ta que reco­nhe­ce o deses­pe­ro ine­vi­tá­vel do pro­ces­so.

Macro­pla­ne­ja­do­res dimi­nu­em ris­cos e sofri­men­to ao ten­tar con­tro­lar os cami­nhos sub­je­ti­vos da escri­ta, mas tam­bém per­dem no pro­ces­so par­te do pra­zer. “Exis­te algo de mara­vi­lho­so ao ver uma figu­ra emer­gir de uma pedra, ao sen­tir a pre­sen­ça de algo com você, e além de você. Algu­ma coi­sa con­sis­ten­te e boa, cujo obje­ti­vo pare­ce ser o de levá-lo a uma exis­tên­cia supe­ri­or”, diz Geor­ge Saun­ders, para quem o ver­da­dei­ro artis­ta sem­pre tra­ba­lha fora do domí­nio da lógi­ca.

Para os macro­pla­ne­ja­do­res a figu­ra tam­bém emer­ge da pedra, mas eles estão ali, já cer­tos do for­ma­to que dese­jam cons­truir. Ou, usan­do outra metá­fo­ra, ago­ra de Zadie Smith – enquan­to micro­ge­ren­tes cons­tro­em uma casa quar­to por quar­to, macro­pla­ne­ja­do­res cons­tro­em a casa para depois mudar a mobí­lia de lugar –, podem come­çar a escre­ver um roman­ce do meio para o iní­cio ou final, mudam o sexo dos per­so­na­gens, cri­am dife­ren­tes des­fe­chos.

Não exis­te res­pos­ta cer­ta, ape­nas a esco­lha de um cami­nho que tor­ne a escri­ta viá­vel. “O escri­tor é aque­le que, enquan­to tra­ba­lha, não sabe o que está fazen­do”, afir­ma Donald Barthel­me. Pen­so que a afir­ma­ti­va fun­ci­o­na tan­to para micro­ge­ren­tes quan­to para macro­pla­ne­ja­do­res. A dife­ren­ça é que os pri­mei­ros dão um pas­so no escu­ro, enquan­to os últi­mos acen­dem a luz, con­fe­rem o cami­nho, e depois fecham os olhos para melhor sen­tir os pas­sos.

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