Vinicius na espreita

Literatura

09.07.13

IMS  na Flip

Na Casa do IMS em Paraty tudo começa­va com a exposição do fotó­grafo amer­i­cano David Drew Zingg, cujo arqui­vo de aprox­i­mada­mente 150 mil fotos está sob a guar­da da insti­tu­ição. Retratos dos grandes da músi­ca pop­u­lar brasileira foram intro­duzi­dos por Pixin­guin­ha, que, à entra­da da Casa, ladea­va o tex­to de apre­sen­tação do curador, Paulo Rober­to Pires. “Zingg!” foi como Paulo bati­zou a mostra.

Mui­ta gente sus­pirou diante da foto que reu­nia um sex­te­to com­pos­to, entre out­ros, por Chico Buar­que e Cae­tano Veloso. Entre retratos de out­ros bam­bas, Vini­cius de Moraes assis­tiu a tudo o que acon­te­ceu na Casa da Rua do Comér­cio, 13. Adorou ouvir Paulão 7 Cor­das can­tar sam­bas da Portela no show que acon­te­ceu de quin­ta a sába­do.

Foi num dess­es shows que vivi uma exper­iên­cia esquisi­ta: eu me sen­tei num ban­quin­ho a uma dis­tân­cia de mais ou menos oito met­ros, em diag­o­nal, do retra­to de Vini­cius. O poet­inha está com um olhar curioso, como se, num movi­men­to brus­co, se virasse para procu­rar alguém. Zingg! Em segun­do plano, Tom Jobim, mas é Vini­cius quem bus­ca e quem parece se lançar da moldu­ra e se inte­grar à peque­na mul­ti­dão que toma con­ta da Casa. A foto fica­va num corre­dor por onde pas­savam pes­soas que vin­ham do café ou chá servi­do no bal­cão de uma coz­in­ha sim­páti­ca. Uns ape­nas pas­savam, out­ros se recostavam nas pare­des, sem­pre que achavam espaço entre uma foto e out­ra. Foi num momen­to dess­es que me virei e vi Vini­cius entre os vis­i­tantes, tão aten­to quan­to eles. No retra­to, seu ros­to tem o taman­ho nat­ur­al, o que o colo­ca­va à von­tade no meio de tan­ta gente e, por duas vezes, me con­fundiu. Zingg!, me espan­tei, Vini­cius está aqui. Não pude deixar de rir soz­in­ha quan­do a exper­iên­cia se repetiu em out­ro momen­to. E não fui só eu. Vini­cius mes­mo se diver­tiu tan­to com o sus­to que me deu que — acred­ite quem quis­er — se con­tentou com o café e chá, deli­ciosos, plane­ja­dos com a del­i­cadeza e o cuida­do de Marília Scal­zo, a pes­soa mais Zingg! que con­heço: não perde o bom humor e a cal­ma por nada nesse mun­do. E, com a super Zingg! Nathalia Pazi­ni, é imbat­ív­el na orga­ni­za­ção de tudo o que acon­te­ceu ali.

Hou­ve, na Casa, momen­tos daque­les que a gente tem o priv­ilé­gio de viv­er. Um deles foi teste­munhar a ale­gria ser­e­na de Nel­son Pereira dos San­tos assi­s­tir, ao lado de Eduar­do Coutin­ho, ao doc­u­men­tário sobre a história de Vidas secas, o filme, de 1963, que este ano se tor­na cinquentenário (veja aqui um vídeo dos dois cineas­tas na Casa nes­sa noite). Se, para nós, é emo­cio­nante con­hecer os basti­dores desse extra­ordinário tra­bal­ho de Nel­son, não é difí­cil imag­i­nar o quan­to toca ao vel­ho dire­tor relem­brar episó­dios que ocor­reram durante as fil­ma­gens, assim como a reper­cussão do filme den­tro e fora do Brasil.

Os olhos de Nel­son Pereira dos San­tos bril­haram, úmi­dos, quan­do Flávio Pin­heiro leu um tre­cho do que escreveu Otto Lara Resende a respeito do filme. Pesca­do por José Car­los Avel­lar, o tre­cho é este:

Saio de Vidas secas com a con­vicção de que esse filme, soz­in­ho, fun­da e jus­ti­fi­ca uma nação. O Brasil está enfim, descober­to. E o Nordeste pas­sa a ser um prob­le­ma na con­sciên­cia uni­ver­sal. É uma obra-pri­ma.

Out­ro momen­to espe­cial foi quan­do Chico Alvim e Zuca Sar­dan, o fab­u­loso Zuca Sar­dan, con­ver­saram no pal­co da Casa. Eu já tin­ha con­stata­do, na lon­ga con­ver­sa dos dois, na Ten­da do Telão, que eles não envel­he­ce­r­am. Não falam do pas­sa­do, ou mel­hor, falam, só falam, e per­manecem nele, no mel­hor sen­ti­do. Nada de nos­tal­gia. São irrev­er­entes do mes­mo jeito, diver­tidos, riem das mesas coisas, recitam os mes­mos ver­sos com o mes­mo espíri­to. Zingg!

Virou tradição eleger-se uma musa (ou um “muso”) da Flip. Parece que é con­sen­so: este ano foi a fran­co-ira­ni­ana Lila Azam Zan­ganeh, que con­ver­sou com Samuel Titan na Casa, lota­da de admi­radores que, não sat­is­feitos com o que tin­ham vis­to na Ten­da dos Autores, que­ri­am mais. E ela con­tin­u­ou, gen­erosa, con­ver­san­do com Samuel sobre a feli­ci­dade na obra de Nabokov. Ele­gante e char­mosís­si­ma, Lila, sen­ta­da, e de tan­to quer­er se aprox­i­mar da plateia, se pro­je­ta­va para a frente, como se quisesse tocar as pes­soas fisi­ca­mente. Zingg!

Tudo bem, ela foi a musa, mas Alice Sant’Anna não bril­hou menos nas mesas, nas entre­vis­tas, nos jantares, ou nas ruas enso­laradas de Paraty. Zingg! Zingg! E bril­hou ao lado de Mar­i­ano Marovat­to, que osten­ta­va, com orgul­ho amoroso, o crachá de “acom­pan­hante”. Casal mais Zingg!, impos­sív­el.

Fora da Casa e das ten­das, apelei para Nos­sa Sen­ho­ra das Dores na igre­jin­ha da rua Fres­ca, reluzente em verde e azul, de frente para a baía e para as ilhas: “Nos­sa Sen­ho­ra das Dores, revig­o­rai as min­has per­nas, elas não estão mais aguen­tan­do as cen­tenárias calçadas de Paraty. Out­ra coisa: a sen­ho­ra sabe que a Mar­i­ana New­lands podia ser min­ha fil­ha, mas dai uma forcin­ha a ela tam­bém. Com o sobe e desce das escadas da Casa, ela se man­teve firme, mas que está um boca­do estropi­a­da, isso está. Amém.”

Veja todos os posts com o que acon­te­ceu na Casa do IMS na Flip e os áudios inte­grais dos encon­tros “Batu­ta na Flip”

fotografias: Mar­i­ana New­lands

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