A noiva de Godard e o noivo de Baleia

Cinema

22.05.14

Cannes. Na com­pe­ti­ção, um qua­se noi­vo de Baleia, o cachor­ro Roxy, e a qua­se mariée de Marcel Duchamp mise à nu por Jean-Luc Godard, même. A ideia de Adieu au lan­ga­ge (Adeus à lin­gua­gem) é sim­ples, escla­re­ce o dire­tor num bre­ve tex­to à manei­ra de sinop­se no livre­to dis­tri­buí­do como mate­ri­al de divul­ga­ção: “Uma mulher casa­da e um homem sol­tei­ro se encon­tram, se amam, se desen­ten­dem, os cor­pos cho­ram. Um cachor­ro vaga entre a cida­de e o cam­po. As esta­ções pas­sam. O homem e a mulher se reen­con­tram, o cachor­ro se encon­tra entre eles. O outro está den­tro de um, o um está den­tro do outro, essas são as três pes­so­as”.

Cena de Adeus à linguagem

Na ver­da­de, nenhu­ma dire­ta rela­ção entre a per­so­na­gem de Vidas secas e seu qua­se noi­vo de Adeus à lin­gua­gem. Mas a pre­sen­ça do cachor­ro como um dos pro­ta­go­nis­tas do fil­me traz à memó­ria a inclu­são de Vidas secas na lis­ta dos melho­res do ano fei­ta para o Cahiers du Cinéma, em 1965. Roxy traz ain­da à memó­ria que, em 2004, aqui mes­mo, em Cannes, inda­ga­do sobre os novos cine­mas da déca­da de 1960, Godard apon­tou Vidas secas como um fil­me que per­ma­ne­cia novo — um dos raros, subli­nhou.

Nenhuma dire­ta rela­ção, nenhu­ma refe­rên­cia dire­ta, mas Roxy, como Baleia, é um cachor­ro que pen­sa. Tal como no livro de Graciliano, o nar­ra­dor do fil­me de Godard entra na cabe­ça do cachor­ro para tra­du­zir seus pen­sa­men­tos. Roxy pen­sa que não se pode pen­sar livre­men­te se os olhos não veem em liber­da­de. Que não se pode ver em liber­da­de se pen­sa­mos enquan­to vemos. Que as pes­so­as saem de si mes­mas e da rea­li­da­de em que se encon­tram enquan­to pen­sam e assim se divi­dem em duas: uma pes­soa que é e uma pes­soa que é só pen­sa­men­to.

Nenhuma rela­ção dire­ta com a noi­va de Roxy, mas uma estrei­ta rela­ção com a noi­va de Marcel Duchamp, a mariée des­pi­da por seus celi­ba­tá­ri­os, mes­mo ou O gran­de vidro. Quando apa­re­ce des­pi­da pela pri­mei­ra vez por Godard, a mariée de Adeus à lin­gua­gem des­ce aque­la mes­ma esca­da do nu de Duchamp.

Para com­por os diá­lo­gos de Adieu au lan­ga­ge, Godard se ser­ve uma outra vez de um pro­ce­di­men­to ao mes­mo tem­po pró­xi­mo da ideia do ready made de Duchamp e do natu­ral pro­ces­so de com­por e mon­tar ima­gens cine­ma­to­grá­fi­cas — - enqua­dra­men­to e mon­ta­gem. As falas são recor­ta­das de livros tal como as ima­gens são recor­ta­das de cená­ri­os reais ou dos cor­pos dos ato­res. Na mon­ta­gem, aqui como em tudo quan­to é fil­me, falas e ima­gens ganham novos sen­ti­dos sem dei­xar de se refe­rir à rea­li­da­de obje­ti­va ou sub­je­ti­va de onde foram extraí­das. Por isso mes­mo, em dois ou três momen­tos o nar­ra­dor se per­gun­ta onde come­ça a metá­fo­ra e ter­mi­na a rea­li­da­de.

Relação dire­ta com O gran­de vidro de Duchamp tam­bém pelas mui­tas trans­pa­rên­ci­as das ima­gens em 3D. Adeus à lin­gua­gem tem pou­co a ver com os habi­tu­ais efei­tos de pro­fun­di­da­de dos fil­mes em ter­cei­ra dimen­são. Não se ser­ve dos peque­nos tru­ques visu­ais em que algo ati­ra­do na dire­ção da câme­ra ten­ta pro­vo­car ilu­são seme­lhan­te à que, no nas­ci­men­to do cine­ma, desa­bou sobre a pla­teia que viu o trem de Lumière sal­tar da esta­ção para den­tro da sala de pro­je­ção. Na tela, de fato, um adeus à prá­ti­ca cor­ren­te do 3D e um estrei­to diá­lo­go com o qua­dro em três dimen­sões de Duchamp, vidro e não tela, ao mes­mo tem­po o que está nele e o que se pode ver atra­vés dele.

A câme­ra por trás do vidro do car­ro, o olhar é soli­ci­ta­do a um per­ma­nen­te des­lo­ca­men­to da pai­sa­gem no fun­do da ima­gem para a água no para-bri­sa, espé­cie de cor­ti­na ou biom­bo que enco­bre as árvo­res ao fun­do, ou da estra­da para o lim­pa­dor de para-bri­sa, um segun­do biom­bo cor­ren­do de um lado para outro do qua­dro. Nas fusões, uma idên­ti­ca sen­sa­ção de ver­ti­gem visu­al, pois a vis­ta se aco­mo­da pou­co à von­ta­de sobre as duas super­pos­tas e con­fli­tan­tes ilu­sões de pro­fun­di­da­de. Fusões de ima­gens e tam­bém nos letrei­ros, como os que rees­cre­vem o títu­lo ori­gi­nal colan­do em pri­mei­ro pla­no duas letras gran­des e ver­me­lhas. Adieu trans­for­ma-se então em AH Dieux (Ah! Deus), e au lan­ga­ge trans­for­ma-se então em OH lan­ga­ge (Oh! lin­gua­gem). Vidro, fusões, Duchamp e mais a lem­bran­ça de Claude Monet: “Em lugar de pin­tar o que se vê, pois de fato não vemos nada, pin­te­mos o que não se vê”.

Na ima­gem, fra­ses visu­ais. Nas falas, ima­gens ver­bais. Filmar o que não se vê: o azul no céu, mas não como o azul do céu, o ver­me­lho na flor mas não como o ver­me­lho da flor, o ama­re­lo das folhas de outo­no, mas com um bri­lho e calor dife­ren­te das folhas de outo­no. Enquadrar as pala­vras para inse­ri-las numa outra ordem, pela mon­ta­gem:

Deus não pode nos fazer humil­des, ou não sou­be nos fazer humil­des, por isso nos fez humi­lha­dos.
Ah! Deus, hoje todo mun­do tem medo.
Renuncie à liber­da­de e con­se­gui­rá tudo.
Essa manhã é um sonho e cada um pen­sa que o sonha­dor é o outro.
Não direi qua­se nada, pro­cu­ro a pobre­za da lin­gua­gem.

Assim como aqui e ali um rea­li­za­dor adap­ta um livro ou numa peça de tea­tro para cine­ma, qua­se é pos­sí­vel dizer que em Adeus à lin­gua­gem Godard faz uma adap­ta­ção da Mariée mise à nu par ses celi­ba­tai­res même para o cine­ma. Uma ideia sim­ples, uma mulher casa­da um homem sol­tei­ro, o reen­con­tro e o encon­tro com um cachor­ro, para com­por um fil­me em que o 3D pas­sa na tela como uma ima­gem no vidro dian­tei­ro de um car­ro em movi­men­to num dia de chu­va.

Alguns fil­mes do fes­ti­val esti­ve­ram espe­ci­al­men­te vol­ta­dos para os pro­ble­mas con­tem­po­râ­ne­os. A injus­ti­ça soci­al e a fal­ta de empre­go na Europa, como Deux jours, une nuit (Dois dias, uma noi­te), de Jean Pierre e Luc Dardenne, e Jimmys’ Hall (O salão de Jimmy), de Ken Loach, ou o extre­mis­mo reli­gi­o­so e a vio­lên­cia na África, Timbuktu, de Abderrahmane Sissako. A entra­da de jovens num mun­do adul­to divi­di­do entre a von­ta­de de viver em har­mo­nia com a natu­re­za e a pres­são de desen­vol­vi­men­to econô­mi­co, Le mera­vi­glie (As mara­vi­lhas), de Alice Rohrwacher, e Futatsume no mado (A segun­da jane­la), de Naomi Kawaze. As rela­ções entre o artis­ta e o inte­lec­tu­al e os tra­ba­lha­do­res comuns, Mr. Turner, de Mike Leigh, e Kis Uykusu (Sonho de inver­no), de Nuri Bilge Ceylan. Mas um ape­nas tomou como tema, trou­xe para o cen­tro da dis­cus­são, a luta comum a todos esses em bus­ca da ima­gem capaz de expres­sar o sen­ti­men­to de cada um, ape­nas um, o de Godard, que vis­to assim, à dis­tân­cia, antes de che­gar a uma de nos­sas salas de cine­ma, reve­la melhor o que é quan­do em lugar do títu­lo ori­gi­nal usa­mos as duas excla­ma­ções e tro­ca­di­lhos mon­ta­dos pelo dire­tor no meio da nar­ra­ti­va: Ah! Deus, oh! a lin­gua­gem.

 

, , , ,