Ame-o ou deixe-o

Colunistas

01.07.14

Ilustração do livro O árabe do futuro, do quadrinista Riad Sattouf

Participei recen­te­men­te de um fes­ti­val lite­rá­rio na França que, por con­ve­ni­ên­cia da pro­gra­ma­ção mul­ti­te­má­ti­ca, optou por divi­dir os deba­tes por assun­tos esta­pa­fúr­di­os. Fiquei com o Brasil e a Guerra. Nenhum assun­to é esta­pa­fúr­dio em si, enquan­to não for asso­ci­a­do a outro. E, como em geral nin­guém vai a fes­ti­vais lite­rá­ri­os para deba­ter, em prin­cí­pio não deve­ria haver nenhum pro­ble­ma.

Aos par­ti­ci­pan­tes bas­ta­va divi­dir a mes­ma mesa-redon­da em dois momen­tos dis­tin­tos. Mas a ver­da­de é que o pri­mei­ro, reser­va­do ao Brasil (e com a par­ti­ci­pa­ção de um escri­tor fran­cês mui­to sim­pá­ti­co, mas que insis­tia em iden­ti­fi­car o país do sam­ba e do fute­bol à “mulher ama­da”), já teria sido um desas­tre mes­mo sem a cons­tran­ge­do­ra com­pa­ra­ção com o que viria a seguir, quan­do o ex-cor­res­pon­den­te do jor­nal Libération no Oriente Médio, Sorj Chalandon, e o qua­dri­nis­ta fran­co-sírio Riad Sattouf, que em prin­cí­pio esta­vam ali para falar de guer­ra, ini­ci­a­ram um diá­lo­go engra­ça­dís­si­mo.

Pouco antes do encon­tro, um gor­di­nho com cara sim­pá­ti­ca e bar­ba por fazer se apro­xi­mou de mim e me cum­pri­men­tou como se fôs­se­mos ami­gos. Era Riad Sattouf. Nossos cole­gas de mesa esta­vam atra­sa­dos. Sem ter do que falar (àque­la altu­ra, eu ain­da não tinha lido L’arabe du futur – O ára­be do futu­ro, Uma juven­tu­de no Oriente Médio (1978–1984), pri­mei­ro volu­me de sua auto­bi­o­gra­fia em qua­dri­nhos), per­gun­tei des­de quan­do ele esta­va em St. Malo. Encostado na jane­la da sala de con­fe­rên­ci­as com vis­ta para o mar, o qua­dri­nis­ta e cine­as­ta apro­vei­tou a dei­xa para, como numa cari­ca­tu­ra, se quei­xar da vida em Paris e exal­tar as bele­zas da Bretanha. E eu, que já esta­va ali fazia dois dias, dan­do bis­coi­tos aman­tei­ga­dos a gai­vo­tas, não me con­ti­ve: “Você pode ima­gi­nar o que deve ser isto no inver­no? Sorte a sua, que mora em Paris”.

Você não gos­ta da Bretanha?”, o ára­be do futu­ro reba­teu, for­çan­do um tom de indig­na­ção que na mes­ma hora me fez enten­der que eu não esta­va dian­te de um idi­o­ta. Durante a mesa-redon­da, quan­do o escri­tor fran­cês se mos­trou real­men­te indig­na­do, como se eu o tives­se ofen­di­do pes­so­al­men­te ao cri­ti­car a pre­ca­ri­e­da­de do sane­a­men­to bási­co das cida­des bra­si­lei­ras (“Não sei se enten­di direi­to, mas, pelo que você está dizen­do, você não gos­ta do Brasil?”), Riad se adi­an­tou e tomou a pala­vra, antes que eu pudes­se me defen­der: “Isso não é nada. Ele tam­bém não gos­ta da Bretanha!”.

Ao con­trá­rio do fran­cês que insis­tia em asso­ci­ar o Brasil a uma namo­ra­da (o que jus­ti­fi­ca­va sua indig­na­ção quan­do men­ci­o­nei pro­ble­mas de sane­a­men­to bási­co), Riad pare­cia saber do que esta­va falan­do. Passou boa par­te da infân­cia na Bretanha, pri­mei­ro duran­te as féri­as (na casa lúgu­bre da avó mater­na) e depois quan­do a famí­lia vol­tou de vez para a França. Os pais de Riad se conhe­ce­ram no ban­de­jão da uni­ver­si­da­de, em Paris. O pai era um bol­sis­ta sírio, estu­dan­te de his­tó­ria que sonha­va em dar um gol­pe de Estado quan­do vol­tas­se a seu país, mas que aca­bou como pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio na Líbia de Kadafi, para onde arras­tou a mulher fran­ce­sa e o filho peque­no.

Entre as pas­sa­gens de O ára­be do futu­ro que Riad cita duran­te o encon­tro em St. Malo, está o epi­só­dio da mãe radi­a­lis­ta. Sem ter o que fazer enquan­to o mari­do dava aulas na uni­ver­si­da­de de Trípoli, a mãe do qua­dri­nis­ta foi tra­ba­lhar na rádio esta­tal, como locu­to­ra do noti­ciá­rio em fran­cês. O tra­ba­lho era sim­ples. Tinha ape­nas que ler o tex­to que lhe era for­ne­ci­do por um agen­te do regi­me. Até o dia em que, depois de anun­ci­ar, sem­pre no tom inal­te­ra­do dos locu­to­res de noti­ciá­ri­os, que o coro­nel Kadafi pre­ten­dia inva­dir a França, atra­ves­sar o oce­a­no e matar Reagan, filho de uma cade­la, não aguen­tou mais e explo­diu numa gar­ga­lha­da. Quando foi cha­ma­do a pres­tar expli­ca­ções sobre o moti­vo incom­pre­en­sí­vel do riso da mulher, o pai de Riad teve de dizer que tinha se casa­do com uma his­té­ri­ca, para sal­var a pele da famí­lia.

Lá pelas tan­tas, o ex-cor­res­pon­den­te do Libération se vira para Riad e diz bai­xi­nho: “Mas Riad, no seu livro você se autor­re­tra­ta como um meni­no de cachi­nhos de ouro”. Ao que o qua­dri­nis­ta, que tem bar­ba e cabe­lo pre­to, se apres­sa em mos­trar, por bai­xo da mesa, como pro­va, uma foto de infân­cia que ele guar­da no celu­lar para momen­tos como esse. Na foto, um meni­no de pro­fu­sa cabe­lei­ra lou­ra, cor­ta­da em for­ma de cuia, posa entre as per­nas de seus avós pater­nos, uma cari­ca­tu­ra do casal ára­be muçul­ma­no, a mulher cober­ta dos pés à cabe­ça e o mari­do com tur­ban­te e túni­ca beduí­na. “Mas Riad, você foi seques­tra­do na infân­cia!”, excla­ma o ex-cor­res­pon­den­te do “Libé”.

Por sua his­tó­ria, Riad Sattouf tem com as nações uma rela­ção mais obje­ti­va, mais inte­li­gen­te, mais humo­ra­da e bem mais sã do que seu pai, um ilu­di­do do pan-ara­bis­mo, e do que o nos­so ami­go escri­tor fran­cês, a ver no Brasil a mulher ama­da. Participei de mais um deba­te duran­te o fes­ti­val, des­ta vez dedi­ca­do ape­nas ao Brasil, e mais uma vez a ideia fixa do amor pátrio veio à bai­la (como se, para os fran­ce­ses, fos­se inad­mis­sí­vel um bra­si­lei­ro não amar o Brasil, o que não dei­xa de ser uma for­ma de pater­na­lis­mo).

Voltei para o Brasil na vés­pe­ra do pri­mei­ro jogo da Copa e me espan­tei com a publi­ci­da­de de um ban­co que, apro­vei­tan­do a oca­sião, exal­ta­va o espí­ri­to da nação, à manei­ra de um pro­gra­ma ide­o­ló­gi­co, o que me fez lem­brar aque­les plás­ti­cos que na infân­cia, duran­te a dita­du­ra mili­tar, a gen­te era enco­ra­ja­do a colar nos vidros dos car­ros e que dizi­am: “Brasil, ame-o ou dei­xe-o”. 

Há mais de dois meses, pedi um ates­ta­do de resi­dên­cia fis­cal à Receita Federal do país que eu não sei se amo, mas onde nas­ci, onde vivo, onde pago meus impos­tos e onde ten­to rea­li­zar as coi­sas nas quais acre­di­to. Até hoje não sei do docu­men­to, do qual depen­do para rece­ber os royal­ti­es dos livros que publi­co fora do país. Voltei à Receita na sema­na pas­sa­da para entrar com um novo pedi­do e ave­ri­guar o que tinha acon­te­ci­do com o ante­ri­or. Depois de três horas na fila, con­ti­nu­ei sem saber nada. Repetiam ape­nas que esse tipo de pro­ces­so cos­tu­ma levar dez dias. O meu con­ti­nu­a­va em anda­men­to depois de dois meses, sem pre­vi­são. Em com­pen­sa­ção, enquan­to exa­mi­na­va o novo pedi­do com uma lupa, o fun­ci­o­ná­rio me asse­gu­rou: “Isto aqui vai dar pro­ble­ma”. “Por quê?” “Por que o for­mu­lá­rio devia ter sido impres­so na fren­te e no ver­so da mes­ma folha e não em duas folhas.” “Mas você vai esca­ne­ar o pro­ces­so! O pro­ces­so é digi­tal. Tanto faz se o for­mu­lá­rio foi impres­so em fren­te e ver­so ou não, por­que vai apa­re­cer em folhas sepa­ra­das de qual­quer jei­to, no mes­mo arqui­vo ele­trô­ni­co.” “Então, vou escre­ver aqui que você impri­miu em duas folhas em vez de fren­te e ver­so”, o fun­ci­o­ná­rio insis­tiu. “Pra quê?” “Para eles sabe­rem que o pro­ces­so está irre­gu­lar e toma­rem as pro­vi­dên­ci­as que acha­rem neces­sá­ri­as.”

Afinal, se pode­mos difi­cul­tar a vida das pes­so­as, para que faci­li­tar? Depois de três horas de fila e dois meses de espe­ra por um docu­men­to que pode­ria ser dado auto­ma­ti­ca­men­te, con­tra a apre­sen­ta­ção do núme­ro do CPF, saio da Receita pron­to para dar um tapa na cara da namo­ra­di­nha do escri­tor fran­cês, se algum dia a encon­trar.

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