Camila von Holdefer

Contar uma boa história

Camila von Holdefer

29.05.17

Nada no clamor para que autores voltem a “contar uma boa história” faz sentido. Mesmo a literatura comercial, ainda que sem qualquer engenho e de forma torta e tênue, diz algo sobre si mesma. Quando autores dispostos a experimentar com a literatura de gênero deslocam o foco da resolução para a investigação, não raro o resultado é instigante.  Quase todas as experiências revelam a relação complexa, mas estreita, entre investigação e signos, linguagem, literatura.

Algo tão irrelevante quanto a realidade

Camila von Holdefer

15.02.17

As boas intenções, como prova o exemplo de Florence Foster Jenkins, não servem como fator atenuante no caso de um resultado desastroso. Entre a concepção e a realização, e não apenas na criação artística, há um longo caminho a ser percorrido. Com a valorização do discurso fácil que procura recompensar aqueles que, a despeito das dificuldades e das limitações, resolvem perseguir seus sonhos, como se a capacidade de idealização devesse se sobrepor à capacidade de realização, a guinada à brandura é previsível. A condescendência na crítica, porém, não vai nos levar muito longe.

Para compreender o riso

Camila von Holdefer

05.12.16

Se a função social do humor na intimidade responde às iniciativas e às necessidades de quem está inserido naquela relação, na esfera pública tudo é bem diferente. Excluir as mulheres do jogo, que não podem tomar para si a iniciativa de fazer graça e de discutir o cômico, é uma forma de tornar o humor um privilégio de alguns. Pior ainda é perturbar um coletivo de milhões com a tentativa de puxar o riso quando há emoção e há choro. O humor é humano e é social.

Quando tudo desmorona

Camila von Holdefer

10.10.16

"Se você entendeu Elena Ferrante facilmente, você não entendeu nada", afirma Camila von Holdefer em texto sobre Dias de abandono, romance de 2002 da celebrada autora italiana lançado no Brasil neste ano pela Biblioteca Azul, em tradução de Francesca Cricelli. "Vejo em Ferrante alguém brilhante que jogou habilmente o jogo".

A assim chamada realidade

Camila von Holdefer

01.04.16

Em Liquidação, um caso amoroso narrado por uma personagem parece ao protagonista “simples como um conto, e impossível como a vida”. Ler o Nobel de Literatura Imre Kertész (1929-2016) é resolver essa questão principal: afinal, escrever tem algum valor? E a vida? Para nossa surpresa, a resposta é positiva. Para Camus, “o erro de uma certa literatura é acreditar que a vida é trágica porque é miserável”, uma vez que “pode ser emocionante e magnífica, [e] esta é sua tragédia”. Em um certo sentido, a obra de Kertész reflete sua consciência disso.

Certa dose de fingimento

Camila von Holdefer

23.11.15

Independentemente da fachada escolhida, sugerem Grunberg e Polanski, atuamos constantemente. Alguns mais, outros menos. Sem certa dose de fingimento — de autoengano, de cegueira voluntária —, não teríamos, de fato, a menor esperança de atravessar os dias. E não há garantia alguma. Bazárov, o niilista de Pais e filhos, observa que os homens “domesticam seus sistemas nervosos até um estado de irritação”, o que, em algum ponto, romperia “o equilíbrio entre os pratos da balança”. É o que acontece em Tirza e Deus da carnificina.

Elogio de Sabbath

Camila von Holdefer

24.09.15

O teatro de Sabbath, de Philip Roth, está completando vinte anos neste setembro. Evocar Sabbath duas décadas mais tarde não é apenas celebrar a maturidade de um clássico contemporâneo. "Num momento em que o moralismo ameaça a literatura de forma severa", afirma, "em que os alertas dos que defendem a liberdade da ficção ganham urgência, resgatar sua provocação é uma necessidade".   

Coletores de informação

Camila von Holdefer

14.10.13

"O que Bernardo Carvalho propõe, em último caso: não é preciso assimilar para reproduzir ? de informações a comportamentos", afirma Camila von Holdefer a respeito de Reprodução, novo romance do escritor. "Sequer é preciso ter um propósito definido para reproduzir".