O valor do riso

Literatura

26.10.17

1.

No iní­cio da déca­da de 1990, fui for­ça­da a com­pa­re­cer a uma fes­ti­nha do colé­gio ves­ti­da de zebra. Eu tinha cin­co anos e minha mãe, que não é sádi­ca, ape­nas pecu­li­ar, ale­gou que não havia encon­tra­do uma fan­ta­sia mais ade­qua­da, ou menos ina­de­qua­da. O salão esta­va toma­do por fadas, prin­ce­sas e bai­la­ri­nas. A úni­ca que des­to­a­va das outras meni­nas era eu. Ima­gi­no minha figu­ra des­mo­ti­va­da, cos­tas cur­va­das, sapa­tos orto­pé­di­cos denun­ci­an­do quem esta­va por trás do foci­nho pre­to e bran­co, e a cena me faz rir. Naque­le dia, no entan­to, a cons­ci­ên­cia da ina­de­qua­ção me dei­xou arra­sa­da. Se eu hou­ves­se esco­lhi­do a fan­ta­sia, tal­vez a his­tó­ria fos­se outra. Mas optar por uma fan­ta­sia de zebra aos cin­co anos de ida­de exi­gi­ria uma com­pre­en­são dos este­reó­ti­pos, e das pos­si­bi­li­da­des de rejei­tá-los, que não esta­va ao meu alcan­ce. Como qua­se toda cri­an­ça, eu dese­ja­va per­ten­cer a um gru­po. Naque­le momen­to, a des­pei­to do meu sen­so de humor sin­gu­lar, dos meus ver­si­nhos sar­cás­ti­cos, das tira­das que fazi­am minha famí­lia rir, enten­di que não havia tra­gé­dia mai­or do que ficar ali para­da ves­ti­da de zebra.

2.

Em um peque­no tex­to cha­ma­do “O valor do riso”, Vir­gi­nia Woolf dá o nome de humor ao meio-ter­mo entre a tra­gé­dia, que “retra­ta­va os homens como mai­o­res do que eles são”, e a comé­dia, que “repre­sen­ta­va as fra­que­zas da natu­re­za huma­na”. Woolf pro­cu­ra dife­ren­ci­ar o humor da comé­dia, mas a expli­ca­ção é bre­ve e con­fu­sa. A dis­tin­ção foi melhor apre­sen­ta­da por Julio Cor­tá­zar duran­te as con­fe­rên­ci­as de Ber­ke­ley em 1980, pos­te­ri­or­men­te reu­ni­das em Aulas de lite­ra­tu­ra. A dife­ren­ça entre os dois regis­tros está, diz ele, no impac­to e na dura­ção. A comé­dia tem um alcan­ce limi­ta­do, e não pro­vo­ca nada além de um riso pon­tu­al. Já o humor “é cheio de um sen­ti­do que vai mui­tís­si­mo além da pia­da ou da situ­a­ção em si”. Acho a dis­tin­ção exa­ta. Tan­to a comé­dia quan­to o humor, enten­den­do que há gra­da­ções em um e em outro, me inte­res­sam aqui.

3.

O humor, como a nós foi dito, foi nega­do às mulhe­res. Trá­gi­cas ou cômi­cas elas podem ser, mas a mis­tu­ra espe­cí­fi­ca que cons­ti­tui um humo­ris­ta é para encon­trar-se somen­te em homens”, escre­ve Vir­gi­nia Woolf. “O valor do riso” foi escri­to e publi­ca­do em 1905. Com o ingres­so das mulhe­res nas uni­ver­si­da­des, é pos­sí­vel que a equa­ção tenha se inver­ti­do. Tenho a impres­são de que as mulhe­res são, hoje, menos enco­ra­ja­das a per­for­mar os tre­jei­tos, ges­tos, dis­cur­sos e ações que lem­bram remo­ta­men­te a comé­dia.

A escri­to­ra Vir­gi­nia Woolf, que publi­cou, em 1905, o tex­to “O valor do riso”

4.

Want to rai­se an empowe­red girl? Then let her be funny”, diz o títu­lo de um arti­go publi­ca­do no Washing­ton Post. Não sou a mai­or entu­si­as­ta do ter­mo empo­de­ra­da (empowe­red), que sem­pre me pare­ceu, e sobre­tu­do em lín­gua por­tu­gue­sa, exces­si­va­men­te vago. O que é ser empo­de­ra­da? Como pos­so me tor­nar empo­de­ra­da? Par­ti­mos do prin­cí­pio de que o empo­de­ra­men­to per­mi­te a uma mulher con­ce­der poder a si mes­ma, mas não vamos mais lon­ge do que isso. Não temos uma ideia cla­ra das for­mas que esse poder assu­me, nem de quais manei­ras e a par­tir de quais recur­sos é pos­sí­vel criá-lo, e não sabe­mos, é cla­ro, que desa­fi­os vamos ter de enfren­tar. O arti­go do Washing­ton Post, embo­ra o empre­gue no pró­prio títu­lo, dá uma boa pis­ta de como esca­par de um ter­mo está­ti­co e vazio. De acor­do com o tex­to, é impor­tan­te que os pais per­mi­tam que uma meni­na seja engra­ça­da se qui­se­rem que ela seja asser­ti­va, con­fi­an­teinte­li­gen­te — estes são alguns dos adje­ti­vos espre­mi­dos, como sar­di­nhas em lata, na pala­vra empo­de­ra­da.

5.

Assi­na­do por Ellen McCarthy, o tex­to diz que as meni­nas devem ter liber­da­de para fazer pia­das e para rir alto e aber­ta­men­te. Todo humor par­te, porém, de uma rup­tu­ra. Em cer­tas oca­siões, ele envol­ve algum ris­co. Para Robert Pro­vi­ne, neu­ro­ci­en­tis­ta liga­do à Uni­ver­si­da­de de Mary­land, as mulhe­res seri­am puni­das mais dura­men­te por vio­lar cer­tas nor­mas e con­du­tas soci­ais, algo que a natu­re­za do humor pres­su­põe. Fazer humor é, no entan­to, par­ti­ci­par ati­va­men­te da vida. Fazer humor envol­ve sair do lugar subal­ter­no que nos foi des­ti­na­do. Se antes nos con­ten­tá­va­mos em obser­var, fazer o outro rir ou corar gra­ças a um comen­tá­rio a par­tir do que obser­va­mos é tomar não ape­nas a pala­vra, mas uma posi­ção. Não exis­te humor neu­tro. Humor é per­ce­ber, des­car­tar, esco­lher, mirar, demo­lir. Negar a prá­ti­ca do humor às mulhe­res é negar sua huma­ni­da­de. “O riso é a expres­são do espí­ri­to cômi­co que exis­te den­tro de nós, e o espí­ri­to cômi­co se inte­res­sa pelas esqui­si­ti­ces e excen­tri­ci­da­des e des­vi­os do padrão reco­nhe­ci­do”, diz Woolf.

6.

O humor exi­ge liber­da­de para fazer esco­lhas e tomar posi­ções. Não há humor com pudor, ain­da que seja o pudor de des­to­ar soci­al­men­te, nem com neu­tra­li­da­de, nem com posi­ções fixas, sem pers­pec­ti­va de se alte­ra­rem. Para fazer humor é pre­ci­so esca­par de cer­tos papéis. Pen­se no mor­do­mo de Kazuo Ishi­gu­ro no iní­cio de Os ves­tí­gi­os do dia, que não con­se­guia com­pre­en­der ou cor­res­pon­der ao sen­so de humor do patrão. A dis­pa­ri­da­de se devia não ape­nas à dife­ren­ça entre o humor inglês (do mor­do­mo) e o nor­te-ame­ri­ca­no (do patrão), mas à posi­ção subal­ter­na que impe­dia o ple­no reco­nhe­ci­men­to do outro.

7.

As mulhe­res não têm obri­ga­ção de ser engra­ça­das, diz o sen­so comum, já que não pre­ci­sam se esfor­çar para con­quis­tar nin­guém. No caso dos homens, o humor seria um atra­ti­vo a mais, ou o úni­co, que aju­da­ria um sujei­to a se dar bem com um alvo em poten­ci­al. Redu­zir o humor e a comé­dia a um mero jogo de sedu­ção não dei­xa de ser, por si só, engra­ça­do.

8.

De acor­do com o sen­so comum, uma mulher com pen­dor para a comé­dia ou o humor quer cha­mar a aten­ção. Um homem com pen­dor para a comé­dia ou o humor é um sujei­to amis­to­so, char­mo­so, caris­má­ti­co ou sedu­tor que gos­ta de fazer os outros rirem. No melhor dos casos, a mulher é nar­ci­sis­ta, caren­te ou ambos. No pior, é uma safa­da exi­bi­ci­o­nis­ta. Ou uma lou­ca.

9.

Lem­bro de ter sido uma cri­an­ça engra­ça­da que oca­si­o­nal­men­te dei­xa­va os adul­tos um tan­to per­ple­xos. Ima­gi­no que o con­tras­te entre a timi­dez que eu exi­bia à pri­mei­ra vis­ta e meu com­por­ta­men­to real, que emer­gia aos pou­cos e incluía uma série de pia­das e tro­ca­di­lhos infa­mes, pudes­se cho­car. Meu gran­de defei­to, no entan­to, era ser uma meni­na. Pas­sei mui­to tem­po sem poder me apro­pri­ar do reper­tó­rio que me inte­res­sa­va — sem poder me apro­pri­ar por com­ple­to do insó­li­to, do pas­te­lão, do pala­vrão, do puro e sim­ples mau gos­to. Eu pega­va o que esta­va ao meu alcan­ce, algo que, para alguns, já era exces­si­vo. “Onde está aque­la sua ami­ga baga­cei­ra?”, per­gun­tou a avó de uma cole­ga cer­ta vez, sem per­ce­ber que eu, o obje­to da gen­ti­le­za, esta­va logo ali ao lado. Vin­te anos atrás, ser uma meni­na engra­ça­da era ser a baga­cei­ra da tur­ma. (Tenho um cari­nho espe­ci­al pelo adje­ti­vo “baga­cei­ra” até hoje.) Já um garo­to é só um garo­to. Um garo­to pode ser endi­a­bra­do, tra­ves­so ou des­bo­ca­do. É coi­sa de garo­to.

10.

Nem sem­pre, ou difi­cil­men­te, o humor e a comé­dia reve­lam nos­so melhor ângu­lo. Para o bem e para o mal, a expo­si­ção e o regis­tro exi­gi­dos podem dis­tor­cer uma ima­gem. Nes­se sen­ti­do, qual­quer mulher que faça rir, seja o qual for o for­ma­to e o con­teú­do, está que­bran­do bar­rei­ras. Pen­so em Clau­dia Tajes em Par­tes ínti­mas, um livro de crô­ni­cas. Pen­so em Tati Ber­nar­di em Depois a lou­ca sou eu. De ins­pi­ra­ção auto­bi­o­grá­fi­ca, cata­lo­ga­do como Crô­ni­casRela­tos pes­so­ais — ain­da que a escri­ta admi­ta, e até pres­su­po­nha, o exa­ge­ro e a ima­gi­na­ção — o livro de Tati Ber­nar­di con­tém des­cri­ções ao mes­mo tem­po engra­ça­das e cru­as de epi­só­di­os de ansi­e­da­de, depres­são e pâni­co. Em um dos rela­tos, uma moça tem uma cri­se em um avião. “Me apre­sen­tei: ‘sei exa­ta­men­te que mer­da é essa’. Apre­sen­tei o Rivo­tril: ‘você vai melho­rar em pou­cos minu­tos’. Ela dis­se que não toma­va nada ‘que os outros lhe des­sem’, e sem recei­ta. Ain­da era gros­sa, a malu­ca”, diz o tex­to. Em outro, a auto­ra retor­na à épo­ca em que ten­tou arran­jar uma ami­ga no colé­gio. “Des­de que entrei naque­la esco­la, aos sete anos, eu sonha­va em ter uma ami­ga que me enten­des­se. Alguém a quem pudes­se falar coi­sas como ‘você acor­da com medo, cho­ra no banho, pen­sa em vomi­tar, unha um pou­co a pal­ma das mãos e per­gun­ta como será a vida daqui a qua­ren­ta anos se você con­ti­nu­ar assim?’”, escre­ve. Uma mulher que des­pe as auto­de­fe­sas para fazer alguém rir pode ou não alcan­çar o obje­ti­vo ini­ci­al, mas difi­cil­men­te é ino­fen­si­va. No limi­te, o humor e a comé­dia me pare­cem um dos pou­cos recur­sos de empo­de­ra­men­to, no sen­ti­do de atri­bui­ção de poder, que estão ao nos­so alcan­ce indi­vi­du­al­men­te. É para­do­xal, por­tan­to, que par­tam de cer­ta vul­ne­ra­bi­li­da­de. Todo humor ou comé­dia admi­tem, no entan­to, uma série de res­pos­tas. Quan­do viram um livro, como no caso de Clau­dia Tajes e Tati Ber­nar­di, um fil­me, uma peça ou o que for, estão sujei­tos às rea­ções e aos comen­tá­ri­os do públi­co e da crí­ti­ca. É pos­sí­vel gos­tar ou não. Mas jamais se pode dizer que a ini­ci­a­ti­va não é impor­tan­te.

11.

Uma crí­ti­ca comum a esse tipo de humor é que ele seria pre­ju­di­ci­al à cau­sa das mulhe­res. Não se pode falar assim, onde já se viu, o que vão pen­sar de nós, não pode­mos ser retra­ta­das des­sa manei­ra, não somos lou­cas. É mui­to difí­cil fazer humor ou comé­dia sem escan­ca­rar limi­ta­ções e imper­fei­ções, fen­das ou racha­du­ras, e sem apon­tar o que está que­bra­do, des­lo­ca­do, tor­to. É isso, de novo, o que nos huma­ni­za. Não que­re­mos a devo­ção, que nos obri­ga a ado­tar uma más­ca­ra frá­gil e dócil, e não que­re­mos a humi­lha­ção da infe­ri­o­ri­da­de, que faz com que nos­sos cor­pos e nos­sas vidas não tenham valor algum.

12.

É pre­ci­so cau­te­la ao pen­sar o humor den­tro do dis­cur­so femi­nis­ta. Ele é um ali­a­do impor­tan­te quan­do se tra­ta de aba­lar a noção de supe­ri­o­ri­da­de mas­cu­li­na, ou de desin­flar egos ao mes­mo tem­po frá­geis e imen­sos. Tam­bém pode ren­der boas pia­das com cha­vões irri­tan­tes, como no caso da Cen­tral Femi­nis­ta. Ele pode ser, ain­da, o prin­ci­pal regis­tro de livros, peças, fil­mes ou mani­fes­tos de cunho femi­nis­ta. Mas nem sem­pre é fácil, pos­sí­vel ou dese­já­vel empre­gar o humor como fer­ra­men­ta da mili­tân­cia — ou por­que cer­tas pau­tas não dei­xam nenhum espa­ço para o riso, ou por­que o can­sa­ço tomou con­ta, e não há dis­po­si­ção para a comi­ci­da­de quan­do se tem de repe­tir a mes­ma coi­sa vezes e vezes e vezes sem con­ta. Mas todo humor em uma mulher, qual­quer que seja o tema e o viés, é sem­pre (e às vezes à reve­lia) uma for­ma de resis­tên­cia e uma fer­ra­men­ta ou ação de mudan­ça. É um reca­do e um con­vi­te.

13.

Com rotei­ro e dire­ção de Teren­ce Davi­es, A Qui­et Pas­si­on, de 2016, retra­ta a vida da poe­ta Emily Dic­kin­son. A jul­gar pelas car­tas con­sul­ta­das para a pro­du­ção do fil­me, e ao con­trá­rio do que se cos­tu­ma asso­ci­ar à figu­ra reclu­sa, Dic­kin­son era uma mulher que conhe­cia a impor­tân­cia do humor. Vry­ling Buf­fum, a ami­ga de Dic­kin­son cuja iro­nia não pou­pa­va os homens, a igre­ja e a fri­vo­li­da­de do cír­cu­lo soci­al fre­quen­ta­do por elas, tam­bém o tinha em alta con­ta. Segun­do Cor­tá­zar, o humor “está pas­san­do con­ti­nu­a­men­te a foi­ce por bai­xo de todos os pedes­tais, de todos os pedan­tis­mos, de todas as pala­vras com mui­tas maiús­cu­las”. É exa­ta­men­te o caso da afi­a­da Buf­fum. Não à toa, ela é retra­ta­da como uma mulher impe­tu­o­sa e inde­pen­den­te. Gra­ças ao fil­me, pen­so que a expo­si­ção exi­gi­da pelo humor — uma exi­bi­ção de idei­as, de posi­ções, de opi­niões, de leal­da­des —, qual­quer que seja a cir­cuns­tân­cia em que ele emer­ja, é equi­va­len­te à expo­si­ção exi­gi­da pela escri­ta.

14.

O humor pode ser um gran­de des­trui­dor, mas ao des­truir cons­trói”, diz Cor­tá­zar. Na lite­ra­tu­ra, segun­do ele, o humor aju­da a reve­lar a ver­da­dei­ra dimen­são daqui­lo que antes nos pare­cia gran­di­o­so ou impo­nen­te. Escre­ver com humor, por­tan­to, na medi­da em que pres­su­põe o ajus­te de pers­pec­ti­vas — na medi­da em que exi­ge o domí­nio da arte de dimi­nuir ou des­nu­dar ou ves­tir ou empre­gar uma len­te de aumen­to —, é mui­to difí­cil. E quan­to às mulhe­res que o uti­li­za­ram em seus livros? O humor tipi­ca­men­te inglês de Jane Aus­ten, sutil e oca­si­o­nal, nem sem­pre é cita­do ou valo­ri­za­do. Das auto­ras con­tem­po­râ­ne­as que não abrem mão do humor, gos­to sobre­tu­do de Ali Smith, Lydia Davis e Lucia Ber­lin. Coin­ci­den­te­men­te ou não, as três triun­fa­ram com nar­ra­ti­vas cur­tas — ain­da que Ali Smith tenha publi­ca­do pelo menos dois roman­ces de qua­li­da­de. Ali­ce Mun­ro, cuja car­rei­ra foi dedi­ca­da aos con­tos, aco­lheu o humor com o mes­mo entu­si­as­mo, ain­da que com uma frequên­cia menor.

15.

Se a deci­são de sepa­rar comé­dia e humor faz algum sen­ti­do, as qua­tro auto­ras cita­das aqui não ape­nas se afas­tam da pri­mei­ra como tra­ba­lham o segun­do com habi­li­da­de e paci­ên­cia de ouri­ves. Ali Smith é menos sutil, mas nem por isso menos bri­lhan­te. Seu humor é tro­ca­di­lhes­co (o tra­du­tor Cae­ta­no Galin­do tem de des­lin­dar um bom núme­ro de jogos de pala­vras) e tem algo de matrei­ro. Ber­lin não teme coi­sa algu­ma, mui­to menos a pos­si­bi­li­da­de de que, aos olhos do lei­tor menos aten­to, não soe como humor o que de fato é humor. A dupli­ci­da­de, diga-se de pas­sa­gem, é uma das gran­des saca­das dos con­tos de Manu­al da Faxi­nei­ra. “Como na vida, a comé­dia pode acon­te­cer no meio da tra­gé­dia”, des­ta­ca Lydia Davis sobre a escri­ta de Ber­lin. A pró­pria Davis faz humor como se con­ver­sas­se em voz bai­xa com o vizi­nho de mesa entre uma taça de vinho e outra. A gra­ça de Tipos de per­tur­ba­çãoNem vem é a aten­ção (em geral) obses­si­va e metó­di­ca aos deta­lhes que pode­ri­am pare­cer insig­ni­fi­can­tes: os per­cal­ços da roti­na, as mani­as absur­das, os epi­só­di­os mais cor­ri­quei­ros, os obje­tos ordi­ná­ri­os. A escri­ta de Davis se apro­xi­ma da defi­ni­ção de Cor­tá­zar de um jei­to qua­se lite­ral, assim como a de Ber­lin. Mun­ro, a que usa o humor com menos regu­la­ri­da­de, é a mais poli­va­len­te das qua­tro. Ora cor­ta fati­as finís­si­mas de iro­nia com uma nava­lha — uma nava­lha em cuja lâmi­na está escri­to, se você pres­tar bem aten­ção, “eu sou um gênio” — ora apli­ca o humor como uma com­pres­sa que ali­via dores e des­con­for­tos. Mun­ro tam­bém sabe dis­far­çar a gra­ça, tor­nan­do pos­sí­vel intui-la, mas não loca­li­zá-la com pre­ci­são.

16.

No tex­to em que evi­den­cia o valor do riso, Vir­gi­nia Woolf obser­va que a fal­ta de ins­tru­ção de mulhe­res e cri­an­ças — ou seja, sua inge­nui­da­de — favo­re­ce­ria aque­la sor­te de gra­ce­jos com poder de desar­mar con­ven­ções e afe­ta­ções. A pas­sa­gem de Woolf, que feliz­men­te já se tor­nou ana­crô­ni­ca, me fez lem­brar das cri­an­ças exces­si­va­men­te pers­pi­ca­zes da lite­ra­tu­ra de Ali Smith. Bro­o­ke, de Suí­te em qua­tro movi­men­tos, é “uma cri­an­ça sobre­na­tu­ral­men­te arti­cu­la­da”. Gra­ças à inte­li­gên­cia e à capa­ci­da­de de obser­va­ção, todas têm uma curi­o­si­da­de insa­ciá­vel pelo mun­do. As cri­an­ças de Ali Smith dizem coi­sas des­con­cer­tan­tes, mas ao mes­mo tem­po — sobre­tu­do pelo des­com­pas­so entre quem enun­cia e o con­teú­do da fra­se — engra­ça­das. Nos con­tos e roman­ces, elas sur­gem em con­tras­te com adul­tos con­ven­ci­o­nais, que não que­rem arrui­nar o pen­te­a­do nem sujar a casa. A ten­são dá lugar às mui­tas per­gun­tas que carac­te­ri­zam um livro de Ali Smith, boa par­te delas fei­tas por cri­an­ças, e sem­pre de manei­ra cômi­ca. São, no geral, ques­tões banais vis­tas por um ângu­lo inu­si­ta­do. O pró­prio humor de Smith é inu­si­ta­do, bei­ran­do o inclas­si­fi­cá­vel. Len­do algu­mas entre­vis­tas com a auto­ra, fiquei cho­ca­da ao cons­ta­tar que nenhum dos entre­vis­ta­do­res per­gun­tou a ela sobre o humor.

Cena do fil­me Toni Erd­mann: humor para encar­nar huma­ni­da­de per­di­da

17.

Em Toni Erd­mann, escri­to e diri­gi­do pela ale­mã Maren Ade, um pai ten­ta aju­dar a filha, já adul­ta, a pôr cer­tas coi­sas em pers­pec­ti­va. Com o auxí­lio de uma den­ta­du­ra irre­gu­lar, de uma peru­ca em mau esta­do e de um ter­no amar­fa­nha­do de teci­do cin­ti­lan­te, Win­fri­ed Con­ra­di — um pro­fes­sor de músi­ca de aspec­to comum — vira Toni Erd­mann. Fin­gin­do ser um life coa­ch, exi­bin­do um com­por­ta­men­to excên­tri­co, ele tran­si­ta pelo meio cor­po­ra­ti­vo ao qual a filha, Ines, per­ten­ce. Ela reco­nhe­ce o pai, mas age como se o vis­se pela pri­mei­ra vez. Para os cole­gas de Ines, Erd­mann é ape­nas um malu­co. Ele, por sua vez, se comu­ni­ca com a filha por meio de alu­sões e indi­re­tas que ape­nas ela é capaz de com­pre­en­der. Assim, ao mes­mo tem­po em que tor­na neces­sá­ria a dra­ma­ti­za­ção, a pre­sen­ça de estra­nhos pos­si­bi­li­ta uma comu­ni­ca­ção que pai e filha não con­se­gui­ram esta­be­le­cer de modo pri­va­do. Fun­ci­o­na. Atra­vés do per­so­na­gem bem-humo­ra­do, Win­fri­ed aju­da Ines a des­co­brir a real dimen­são daqui­lo que a tira­ni­za­va. A impor­tân­cia exa­ge­ra­da que ela atri­buía à car­rei­ra des­mo­ro­na, jun­to com boa par­te das defe­sas, dian­te da lição. Na últi­ma cena, Ines põe a den­ta­du­ra de Toni Erd­mann, além de um cha­péu estra­nho. Defor­ma­da pelos aces­só­ri­os, ela pare­ce encar­nar aque­la huma­ni­da­de que havia per­di­do, à qual Toni Erd­mann a recon­du­ziu.

18.

O humor não é reden­tor no sen­ti­do mais extre­mo do ter­mo. O humor tam­pou­co nos isen­ta de res­pon­sa­bi­li­da­des. Sem ele, no entan­to, a vida coti­di­a­na seria inviá­vel. Lydia Davis e Lucia Ber­lin sabem dis­so. “Tão logo nos esque­ce­mos de rir, vemos as coi­sas fora de pro­por­ção e per­de­mos o sen­so de rea­li­da­de”, escre­ve Vir­gi­nia Woolf, cer­tei­ra. É difí­cil con­ven­cer uma cri­an­ça pri­vi­le­gi­a­da de cin­co anos de que seu pro­ble­ma não é de fato um pro­ble­ma, e de que há coi­sas mui­to pio­res do que ser a zebra em um rei­no de fadas e prin­ce­sas. Eu não tinha, é cla­ro, nenhum sen­so de pro­por­ção. Tives­se eu toda a dimen­são do valor do riso e as coi­sas teri­am sido dife­ren­tes. Mas eu não era, é evi­den­te, uma das cri­an­ças saga­zes de Ali Smith. Mais de vin­te anos depois, enfim, é pos­sí­vel supor que algu­mas cir­cuns­tân­ci­as muda­ram. Por pior que a pala­vra soe, já é pos­sí­vel falar em empo­de­ra­men­to. É pos­sí­vel dese­jar que mais meni­nas andem por aí ves­ti­das de zebra ou de tuba­rão-baleia ou de bac­té­ria ou de Van Gogh, ao mes­mo tem­po em que enxer­gam nis­so, na cena da qual a comé­dia, que se ali­men­ta do insó­li­to e da rup­tu­ra, não está ausen­te, uma que­bra impor­tan­te de padrões. A repre­sen­ta­ção, a fan­ta­sia, a imi­ta­ção, nada dis­so é estra­nho ao riso. E, como sabe Win­fri­ed Con­ra­di, um per­so­na­gem cômi­co, com seus tre­jei­tos e figu­ri­nos, tem mui­to a ensi­nar sobre o valor do humor e da comé­dia, sobre pro­por­ção e equi­lí­brio. Por fim, ver nes­sa dis­pa­ri­da­de entre mulhe­res e homens algo que deve ser ajus­ta­do com urgên­cia é o mes­mo que saber que a regu­la­gem pode come­çar pela pers­pec­ti­va. Fazer rir, e rir de si mes­ma, tomar para si toda a dimen­são do riso, é pôr as coi­sas em seus devi­dos luga­res e as mudan­ças em mar­cha. Que alguns homens não vejam gra­ça nenhu­ma nis­so não é pro­ble­ma nos­so.

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