Cena do filme "As boas maneiras"

O horror do Brasil

No cinema

27.10.17

As boas maneiras, gan­hador do prêmio espe­cial do júri no fes­ti­val de Locarno e um dos filmes mais aguarda­dos da 41ª Mostra Inter­na­cional de Cin­e­ma de São Paulo, leva adi­ante, por um lado, a explo­ração das fron­teiras porosas entre vários gêneros (sobre­tu­do o hor­ror, mas tam­bém o musi­cal, a comé­dia, o dra­ma social) empreen­di­da por seus jovens dire­tores, Mar­co Dutra e Juliana Rojas.

Jun­tos, os dois já havi­am feito Tra­bal­har cansa; sep­a­ra­dos, fiz­er­am Sin­fo­nia da necró­pole (Juliana), Quan­do eu era vivo O silên­cio do céu (Mar­co). Assim, As boas maneiraspode ser vis­to como uma nova eta­pa desse work in progress da dupla.

Por out­ro lado, ao abraçar de modo mais atre­v­i­do o hor­ror explíc­i­to, atu­al­izan­do o mito do lobi­somem, o novo filme se insere numa ver­tente recente do cin­e­ma brasileiro que imbri­ca os códi­gos do gênero com uma reflexão, dire­ta ou oblíqua, sobre a nos­sa for­mação social: O dia­bo mora aqui (Rodri­go Gas­pari­ni e Dante Vescio), O nó do dia­bo (Ramon Por­to Mota, Jhé­sus Tribuzi, Ian Abé e Gabriel Mar­tins) e mes­mo Através da som­bra, do vet­er­a­no Wal­ter Lima Jr. Talvez alguns cineas­tas este­jam con­cluin­do que o ter­ror é mais apto que o real­is­mo ou a ale­go­ria para expres­sar a real­i­dade em que esta­mos ato­la­dos.

Aqui, a pro­tag­o­nista é uma enfer­meira negra, Clara (a extra­ordinária Isabél Zuaa), que se empre­ga como faz-tudo domés­ti­ca de Ana (Mar­jorie Estiano) uma moça bran­ca rica, solitária e em está­gio final de gravidez. Des­de o iní­cio há algo estran­ho nes­sa ges­tação, no com­por­ta­men­to de Ana, em sua relação com o pas­sa­do. A ten­são cresce na mes­ma medi­da em que se apro­fun­da a relação (inclu­sive eróti­ca) entre essas duas mul­heres tão difer­entes. O nasci­men­to da cri­ança mar­cará a rup­tura rad­i­cal, tan­to na tra­jetória das per­son­agens como na for­ma do filme: seu gênero, seu esti­lo, sua poéti­ca.

É impos­sív­el ante­ci­par mais algu­ma coisa do enre­do sem estra­gar as sur­pre­sas que estão por vir. Bas­ta diz­er que o filme não recua diante dos riscos estéti­cos da licantropia e do hor­ror gore, com tudo o que isso impli­ca de sangue, vísceras e efeitos espe­ci­ais. De Jacques Tourneur pas­samos a David Cro­nen­berg e ao John Lan­dis de Lobi­somem amer­i­cano em Lon­dres.

Espaço de fan­ta­sia

Mas o prodí­gio maior de As boas maneiras é o de enfrentar o ter­ror sem perder de vista o amor e o humor. Hitch­cock dizia que o prob­le­ma não era o clichê, mas sim par­tir de uma ideia orig­i­nal e desem­bo­car num clichê. Ele próprio fazia o con­trário, par­tia do clichê para algo orig­i­nal, e é isso o que encon­tramos tam­bém neste filme.

Um exem­p­lo é a per­son­agem de Ana, a jovem grávi­da. De iní­cio, ela é a típi­ca rep­re­sen­tante de uma cer­ta elite de origem rur­al, com muito din­heiro e nen­hum refi­na­men­to, com sua hor­ren­da músi­ca ser­tane­ja, seu mau gos­to dec­o­ra­ti­vo, seu con­sum­is­mo acríti­co, seus hábitos de sin­haz­in­ha. Esboça-se um con­fron­to de classe entre ela e a alti­va Clara. Mas aos poucos a relação se mati­za e prob­lema­ti­za, surge um afe­to mais com­plexo, as ten­sões se deslo­cam para out­ros lugares.

A cri­ação de um espaço de fan­ta­sia, em que a obser­vação da real­i­dade cotid­i­ana é ape­nas mais um ele­men­to da com­posição, está pre­sente des­de o iní­cio, na maneira como a cidade é retrata­da, com o sky­line urbano pin­ta­do disc­re­ta­mente ao fun­do. É São Paulo e ao mes­mo tem­po não é. É o ter­ritório imag­inário con­struí­do por Juliana Rojas e Mar­co Dutra, por onde pas­sam son­hos e pesade­los molda­dos por décadas de cin­e­ma, sécu­los de lit­er­atu­ra. Sem deixar de ser, entre­tan­to, este país real, dilac­er­a­do e absur­do, em que nos move­mos todos os dias.

The square

Out­ro destaque da mostra paulis­tana, o sue­co The square, de Ruben Östlund, gan­hador da Pal­ma de Ouro em Cannes, é um belo ensaio quase trag­icômi­co em torno das vicis­si­tudes da sol­i­dariedade humana no mun­do de hoje, e do papel ambíguo da arte no enfrenta­men­to dessa questão.

O pro­tag­o­nista, Chris­t­ian (Claes Bang), bem-suce­di­do curador de um grande museu de arte con­tem­porânea de Esto­col­mo, é lança­do numa crise pes­soal e profis­sion­al enquan­to prepara a insta­lação e a pro­moção de um pro­je­to con­ceitu­al de uma artista argenti­na, The square, uma exper­iên­cia sobre con­fi­ança e afe­to entre pes­soas que não se con­hecem.

A habil­i­dade do filme con­siste em faz­er da vida pes­soal de Chris­t­ian quase um lab­o­ratório de testes das questões lev­an­tadas na obra da artista. Víti­ma de um golpe urbano típi­co, ele tem o celu­lar e a carteira fur­ta­dos num calçadão da metró­pole e aca­ba ten­do que lidar com moradores da per­ife­ria que ele descon­hece e teme. Temer o out­ro, vê-lo sem­pre como ameaça poten­cial, parece ser o sen­ti­men­to prevale­cente. A tal pon­to que, ao faz­er sexo com uma jor­nal­ista amer­i­cana que acabou de con­hecer, Chris­t­ian entra em para­noia achan­do que ela fará um uso escu­so da camis­in­ha em que seu esper­ma ficou armazena­do.

Nas bor­das do dra­ma do pro­tag­o­nista, The square retra­ta com iro­nia implacáv­el e humor oca­sion­al­mente negro temas como as relações entre arte, mer­ca­do e pro­pa­gan­da, a inter­net como instru­men­to de cri­ação e destru­ição, o caráter util­itário e instáv­el dos vín­cu­los inter­pes­soais etc. No todo, o que fica é a imagem de uma cros­ta muito fina de refi­na­men­to e boas intenções, por cujas rachaduras ameaça emer­gir a todo momen­to (e even­tual­mente emerge mes­mo) a bar­bárie mais bru­tal.

Anto­nio 1, 2, 3

Na óti­ma safra de filmes brasileiros pre­sentes na 41ª Mostra, merece uma atenção espe­cial o sur­preen­dente lon­ga-metragem de estreia do jovem cearense Leonar­do Moura­ma­teus, António um dois três, fil­ma­do em Lis­boa. O António do títu­lo (Mau­ro Soares) é um rapaz por­tuguês que aban­dona a fac­ul­dade, foge da casa do pai e bus­ca abri­go na casa da ex-namora­da, onde con­hece uma brasileira (Deb­o­rah Vie­gas), que está de pas­sagem, a cam­in­ho de Moscou.

Mas espere, isso é ape­nas o começo, ou um dos começos. Ao lon­go do filme, nar­ra­do com uma fluên­cia e uma graça notáveis, serão embar­al­hadas as posições dess­es per­son­agens, e de out­ros surgi­dos no cam­in­ho. De uma evo­cação do amor juve­nil à la Truf­faut pas­samos a um jogo nar­ra­ti­vo à beira do met­alin­guís­ti­co que lem­bra as con­struções labirín­ti­cas de um Alain Resnais.

Moura­ma­teus brin­ca o tem­po todo com a expec­ta­ti­va do espec­ta­dor, puxan­do o tapete das certezas, des­fazen­do a tra­ma que acabou de tecer, recom­pon­do-a com os mes­mos fios, mas out­ros desen­hos. Cin­e­ma do tran­sitório, dos sen­ti­men­tos efêmeros, da aber­tu­ra a todos os pos­síveis. Difí­cil pen­sar numa estreia mais ani­mado­ra.

24 frames

Out­ra reflexão “em ato” sobre o cin­e­ma e suas pos­si­bil­i­dades é o últi­mo lon­ga-metragem do ira­ni­ano Abbas Kiarosta­mi (1940–2016), 24 frames, cujo títu­lo se ref­ere aos 24 frag­men­tos que o com­põem, feitos a par­tir de ima­gens fixas, mas tam­bém à própria natureza do cin­e­ma, essa ilusão de movi­men­to cri­a­da pela sucessão de ima­gens fixas a 24 quadros (frames) por segun­do.

Todos os seg­men­tos começam com um quadro estáti­co (o primeiro, sal­vo engano, é a pin­tu­ra de Brueghel “Os caçadores na neve; os out­ros são fotos tiradas pelo próprio Kiarosta­mi) que aos poucos vai gan­han­do vida, graças à movi­men­tação de alguns de seus ele­men­tos (fol­hagem, ani­mais, rio, mar). A câmera não se movi­men­ta (sal­vo uma vez, em que está na janela de um car­ro), a figu­ra humana quase não aparece, não há diál­o­go algum. Ape­nas músi­ca e ruí­dos. Oca­sion­al­mente, uma figu­ra exte­ri­or invade ou cruza o quadro: um cachor­ro, um bar­co, uma moto­ci­cle­ta.

Por vezes a ação se resume às intem­péries (chu­va, ven­to, neve, relâm­pa­gos) e às vari­ações de luz, de foco, de pro­fun­di­dade de cam­po. Há enquadra­men­tos den­tro do enquadra­men­to (janelas, vãos de por­tas, espaço entre tron­cos de árvores etc.) que mul­ti­pli­cam a direção e as camadas do olhar. É impres­sio­n­ante a gama de atmos­feras e de pos­si­bil­i­dades dramáti­cas sug­eri­das a par­tir dess­es ele­men­tos mín­i­mos. Aos 76 anos, e com uma grandiosa obra no cur­rícu­lo, Kiarosta­mi ain­da mostra­va um fres­cor e uma inqui­etação cria­ti­va de faz­er inve­ja a qual­quer jovem ini­ciante.

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