Vanessa Bell (1879-1961)

Vanessa Bell (1879-1961)

Intimidade entre traço e desejo

Artes

03.05.17

Qual­quer leitor que algum dia ten­ha se encan­ta­do por Vir­ginia Woolf não deixará de recon­hecê-la como uma escrito­ra – na fal­ta de adje­ti­vo menos gas­to – intimista. Vale espe­cial­mente se a leitu­ra se con­cen­trou na pro­dução da déca­da de 20, quan­do a auto­ra pub­li­cou o quar­te­to de romances for­ma­do por O quar­to de Jacob (1922), Mrs. Dal­loway (1925), Rumo ao farol (ou Ao farol, em algu­mas traduções, 1927) e Orlan­do (1928), sequên­cia que cul­mi­nar­ia, em 1929, com seu mais famoso ensaio, Um teto todo seu – e, como se vê, bas­taria este últi­mo títu­lo para levar à impressão (não nec­es­sari­a­mente fal­sa, emb­o­ra talvez redu­to­ra) de um exac­er­ba­do intimis­mo na obra de uma das grandes expoentes da mod­er­na prosa em lín­gua ingle­sa, sui­ci­da aos 59 anos, em 1941.

A esse hipotéti­co leitor que ten­ha vivi­do sua inten­sa “fase Woolf” (como um dia viveu o autor deste tex­to), e mes­mo a quem jamais ten­ha pas­sa­do os olhos numa só pági­na da céle­bre romancista e ensaís­ta mas sai­ba recon­hecer os del­i­ca­dos sinais da intim­i­dade, não será difí­cil se encan­tar igual­mente pela pin­tu­ra da irmã mais vel­ha de Vir­ginia, Vanes­sa Bell (1879–1961) – pela primeira vez expos­ta em exten­sa ret­ro­spec­ti­va com cer­ca de uma cen­te­na de obras na Dul­wich Pic­ture Gallery, em Lon­dres, até o iní­cio de jun­ho.

Vanes­sa tro­cou o sobrenome de família – Stephen, como o de Vir­ginia antes de se tornar Woolf – e incor­porou Bell ao nome artís­ti­co pelo casa­men­to com o críti­co Clive Bell, par­ceiro da vida inteira, ain­da que a relação fos­se sufi­cien­te­mente aber­ta para com­por­tar até mes­mo uma fil­ha, Angel­i­ca, fru­to da relação extra­con­ju­gal da artista com o pin­tor Dun­can Grant. Vanes­sa, Clive e Grant, mais o tam­bém pin­tor Roger Fry, o famoso bió­grafo da sociedade vito­ri­ana (e da própria rain­ha Vitória), Lyt­ton Stra­chey, o mari­do e edi­tor de Vir­ginia, Leonard Woolf, e o econ­o­mista John May­nard Keynes, entre out­ros fre­quen­ta­dores esporádi­cos, for­maram aque­le que foi o mais influ­ente cír­cu­lo de artis­tas e int­elec­tu­ais na Inglater­ra das primeiras décadas do sécu­lo pas­sa­do, o grupo de Blooms­bury.

The Estate of Vanes­sa Bell

The Oth­er Room (final da déca­da de 1930)

A refer­ên­cia geográ­fi­ca – Blooms­bury, bair­ro de Lon­dres pródi­go em praças e jardins, onde os prin­ci­pais mem­bros do grupo foram viz­in­hos ao lon­go de décadas – talvez seja um pouco casu­al, uma vez que tudo começou quan­do Clive, Leonard, Stra­chey e o irmão de Vanes­sa e Vir­ginia, Tho­by, eram ain­da estu­dantes em Cam­bridge (mais tarde, a viz­in­hança ilus­tre chegou mes­mo a ficar con­heci­da como “Cam­bridge lon­d­ri­na”); e tam­pouco seria desproposi­ta­do começar a mapear o cír­cu­lo, e até batizá-lo, por Charleston, a casa de cam­po no sul da Inglater­ra que Vanes­sa, ali uma anfitriã per­ma­nente e gen­erosa, man­teve até o fim da vida. É tam­bém o cenário – seja a própria casa, seja a pais­agem ao redor – sobre o qual a artista rep­re­sen­ta a intim­i­dade de família e ami­gos. (Como bônus, a exposição da Dul­wich Gallery habil­mente con­trapõe à pin­tu­ra de Vanes­sa um out­ro tipo de rep­re­sen­tação do mes­mo cenário e seus per­son­agens: fotos dos álbuns de família e, gra­ta sur­pre­sa, cliques mais recentes de uma devota do grupo de Blooms­bury que há anos man­tém o hábito de vis­i­tar – e fotogra­far – Charleston como faria um pere­gri­no: a can­to­ra e ícone punk Pat­ti Smith.)

Mas, assim como pode ser redu­tor ler Vir­ginia pela chave do intimis­mo, ain­da mais se a apos­ta for dobra­da pela bus­ca ingênua de “pis­tas auto­bi­ográ­fi­cas” na obra, há que se ter sen­si­bil­i­dade ao inter­pre­tar o tema da intim­i­dade na fasci­nante arte de Vanes­sa. O risco é deixar-se hip­no­ti­zar pelas não menos fasci­nantes, e por vezes escan­dalosas, relações afe­ti­vas den­tro do grupo e de seus mem­bros com coad­ju­vantes de fora  – o caso emblemáti­co é o da aci­ma men­ciona­da relação entre Vanes­sa e Dun­can Grant, à época tam­bém envolvi­do com o jovem escritor David “Bun­ny” Gar­nett, o qual mais tarde se casaria com Angel­i­ca: sim, ela mes­ma, a fil­ha de Grant e Vanes­sa fora do casa­men­to com Clive Bell (pai de dois out­ros fil­hos da artista), fato do qual Angel­i­ca só viria a saber quan­do entra­va na vida adul­ta. A história se com­pli­ca ain­da mais porque o casal Grant/“Bunny” con­tara des­de sem­pre com a acol­hi­da de Vanes­sa em Charleston, num tem­po em que rela­ciona­men­tos homos­sex­u­ais pre­cisavam ser clan­des­ti­nos na Inglater­ra, ao mes­mo tem­po em que Clive man­tinha ele tam­bém suas amantes, entre as quais a notáv­el sra. St. John Hutchin­son. E Vanes­sa, como é óbvio, retra­tou a todos.

The Estate of Vanes­sa Bell

Nude with Pop­pies (1916)

Quan­do pin­ta a amante do mari­do – para quem em out­ra ocasião pro­duz­iu, sob encomen­da mas não exata­mente con­forme a encomen­da, um quadro de forte sug­estão eróti­ca (Nude with Pop­pies, 1916) – e tam­bém no retra­to que pin­tou de Gar­nett, o ex-amante de seu amante Grant, mais tarde tam­bém mari­do de sua fil­ha, Vanes­sa mostra-se par­tic­u­lar­mente per­cep­ti­va. Em 1915, a sra. St. John Hutchin­son, notavel­mente bela, glam­orosa e cul­ta leito­ra de Proust, surge na tela como uma figu­ra que só se pode­ria definir como alti­va; no caso do retra­to de “Bun­ny”, do mes­mo ano, a del­i­cadeza da expressão do jovem imberbe, tor­so nu, talvez delib­er­ada­mente denote frag­ili­dade naque­le que Vanes­sa dali em diante encar­aria como rival – e a quem acabaria por vencer na dis­pu­ta pelo afe­to de Grant, emb­o­ra o rapaz talvez ten­ha tido a palavra final ao se casar com Angel­i­ca (tor­nan­do-se gen­ro de Vanes­sa e do próprio Grant!), união que duraria por quase quarenta anos, até a morte de “Bun­ny”.

Sin­tomati­ca­mente, o retra­to mais ter­no e amoroso da coleção expos­ta em Lon­dres é Inte­ri­or with the Artist’s Daugh­ter (1935–6): Angel­i­ca ado­les­cente, expressão absorta e pos­tu­ra algo des­gra­ciosa, debruça­da sobre um livro que anin­ha ao colo, uma das mãos apoian­do a cabeça – o cenário, como de cos­tume, é Charleston, aqui a bib­liote­ca da família na casa de cam­po. Angel­i­ca foi, aliás, senão a prin­ci­pal, uma das mod­e­los favoritas da mãe. Retrata­da em difer­entes idades, aparece não só nos quadros: alguns dos exper­i­men­tos fotográ­fi­cos mais curiosos de Vanes­sa são tam­bém reg­istros da fil­ha, como a série em que a car­ac­ter­i­za como a per­son­agem andrógi­na Orlan­do, do romance homôn­i­mo da irmã, Vir­ginia.

Não é caso úni­co de ver­sa­til­i­dade na lon­ga car­reira de Vanes­sa, e a ret­ro­spec­ti­va em car­taz ded­i­ca toda uma sala à con­tribuição da artista às artes grá­fi­cas (bas­ta diz­er que fez a arte de capa de muitas das primeiras edições dos livros de Vir­ginia) e dec­o­ra­ti­vas. Esta últi­ma fac­eta, mais desen­volvi­da, teve impacto ver­dadeira­mente ino­vador para a época a par­tir das Omega Work­shops, lab­o­ratório man­ti­do por Roger Fry em Lon­dres e ati­vo durante quase toda a déca­da de 1910. Ali Vanes­sa criou algu­mas das tapeçarias e estam­pas abstratas que viri­am a dec­o­rar lares nobres da cap­i­tal ingle­sa – além das residên­cias dela própria, na cidade e no cam­po, e de ami­gos e par­entes, em out­ro exem­p­lo acaba­do de como sua arte, qual fos­se a ver­tente, ter­mi­na­va per­feita­mente integra­da à intim­i­dade de Bloomsbury/Charleston.

A exper­i­men­tação na arte dec­o­ra­ti­va lev­ou, por sua vez, ao que se pode­ria clas­si­ficar como fase abstra­ta tam­bém em quadros do mes­mo perío­do, e a ousa­dia com que Vanes­sa abre cam­in­ho nes­sa nova ver­tente rap­i­da­mente a colo­ca na van­guar­da da arte abstra­ta europeia e, sobre­tu­do, ingle­sa, prati­ca­mente into­ca­da pela abstração até ali. Cor e traços geométri­cos de fun­do, ele­men­tos essen­ci­ais nos retratos, mais o tipo de com­posição exper­i­men­ta­do nes­sa época (a exem­p­lo da téc­ni­ca per­spec­ti­va que tão bril­hante­mente cria um sen­ti­do de desconexão entre as per­son­agens de The Oth­er Room, quadro de fins da déca­da de 1930, por exem­p­lo), seguiri­am ten­do impacto sig­ni­fica­ti­vo na pro­dução pos­te­ri­or da artista. Se rap­i­da­mente retornou à abor­dagem fig­u­ra­ti­va de seus mod­e­los e temas – deixou tam­bém algu­mas impres­sio­n­antes naturezas-mor­tas e pais­agens, sobre­tu­do de Charleston e arredores –, Vanes­sa jamais pode­ria ser acu­sa­da de con­ser­vadoris­mo artís­ti­co (que dirá afe­ti­vo, como vimos): ain­da antes da Primeira Guer­ra Mundi­al, nova­mente incen­ti­va­da pelo empreende­doris­mo van­guardista do ami­go Roger Fry, como antes nas Omega Work­shops, ela coroa o perío­do de for­mação em que fora ver de per­to o que fazi­am os mestres da van­guar­da europeia (Picas­so noto­ri­a­mente entre eles) com par­tic­i­pação desta­ca­da em duas mostras pós-impres­sion­istas orga­ni­zadas por Fry nas Grafton Gal­leries, em 1910 e 1912.

Muito já se escreveu sobre essa influên­cia na tra­jetória de Vanes­sa, e talvez a res­olução mais acaba­da da dialéti­ca entre o traço delib­er­ada­mente “imper­feito”, van­guardista, e o dese­jo de sin­ge­la­mente retratar pes­soas próx­i­mas em seu ambi­ente domés­ti­co – rep­re­sen­tação aber­ta de cenas ínti­mas, com o perdão da insistên­cia nesse mote – apareça, final­mente, quan­do a retrata­da é Vir­ginia Woolf, em par­tic­u­lar na recor­rên­cia com que a irmã surge na tela com o ros­to bor­ra­do. Bió­grafos e espe­cial­is­tas não têm dúvi­das sobre cer­ta rival­i­dade inevitáv­el entre as duas – às vezes expres­sa em comen­tários da irmã escrito­ra e mais famosa (“por dire­ito”, lem­bra­va a própria Vir­ginia, uma vez que Vanes­sa já tivera o priv­ilé­gio a ela nega­do da mater­nidade) quan­to à supe­ri­or­i­dade expres­si­va da escri­ta sobre a pin­tu­ra. Por out­ro lado, e algo con­tra­di­to­ri­a­mente, Vir­ginia reg­istrou tam­bém o incrív­el tal­en­to nar­ra­ti­vo de Vanes­sa num quadro em par­tic­u­lar, A Con­ver­sa­tion (1913–16), que via como um per­feito con­to pic­tóri­co, per­gun­tan­do-se ao mes­mo tem­po se ela própria, Vir­ginia, seria capaz de con­tá-lo em prosa.

The Estate of Vanes­sa Bell

A Con­ver­sa­tion (1913–16)

Se hou­ve, porém, uma causa para a qual as irmãs con­ver­gi­ram sem arestas, e pela qual se nota­bi­lizaram, em sin­to­nia com a pos­tu­ra lib­er­al de todo o grupo de Blooms­bury, foi a do então nascente fem­i­nis­mo na Inglater­ra de seu tem­po. Con­forme obser­va o catál­o­go da exposição na Dul­wich Gallery: “Bell se viu na pas­sagem entre o sécu­lo XIX, com seus ideais vito­ri­anos de beleza e sub­mis­são domés­ti­ca, e o mun­do mod­er­no que pela imag­i­nação aju­dou a cri­ar […]”. Emb­o­ra seus retratos da ala mas­culi­na de Blooms­bury sejam tam­bém notáveis (e, além deles, o de Aldous Hux­ley, de 1935, cer­ta­mente merece menção hon­rosa), os curadores apon­tam, com razão, que o lega­do de Vanes­sa “foi ter reimag­i­na­do a condição da mul­her, com suas poderosas rep­re­sen­tações de cor­pos e sem­blantes fem­i­ni­nos abrindo cam­in­ho nas telas com uma espé­cie de força bru­ta”. Stud­land Beach (1912) talvez seja o prin­ci­pal dess­es exem­plares da obra a sug­erir “um sutil afas­ta­men­to das nor­mas do fem­i­ni­no, pre­dom­i­nan­do uma atmos­fera pesa­da de iso­la­men­to”.

Não se pode­ria deixar de men­cionar, nesse aspec­to, a força dos autor­re­tratos de Vanes­sa, os quais, obser­vam final­mente os curadores da exposição em car­taz, “ao lon­go da vida [da artista], […] man­tiver­am cer­ta tôni­ca de desafi­ante auto­con­fi­ança, em con­stante reafir­mação, até o fim, de seu tra­bal­ho e de sua iden­ti­dade como artista”. É um autor­re­tra­to o últi­mo quadro que o vis­i­tante da Dul­wich Gallery con­tem­plará: soz­in­ha no ateliê do sótão da casa de Charleston, teto todo seu, a artista aparece ao fun­do, seus pincéis ape­nas um feixe de cores no pun­ho aper­ta­do, e o ros­to, como em alguns dos retratos de Vir­ginia, obscure­ci­do por um bor­rão. Pin­ta­do já no out­ono da vida, em 1952, quan­do Vanes­sa cruza­va o lim­i­ar dos 70 anos e se recol­hia ain­da mais à vida famil­iar, o quadro encap­su­la à per­feição as iden­ti­dades domés­ti­ca e artís­ti­ca sobre as quais, nas décadas ante­ri­ores, eri­gi­ram-se a um só tem­po obra e per­son­al­i­dade da artista.

Na car­ta escri­ta à nora, Anne, em 1955, e expos­ta ao lado desse der­radeiro autor­re­tra­to, o vis­i­tante capaz de decifrar a caligrafia difí­cil não deixará de reparar nes­sa espé­cie de frase-sín­tese de todo um pro­je­to artís­ti­co, pes­soal e ide­ológi­co com que Vanes­sa recebe a boa-nova de que nova­mente se tor­na­va avó: “Muito inteligente da parte de vocês ger­ar uma fil­ha!”, é como saú­da a nora e o fil­ho, o tam­bém escritor Quentin Bell. Eis aí um micro-man­i­festo fem­i­nista alardea­do em ple­na intim­i­dade – e para o mun­do inteiro ouvir.

Aque­la neta veio a se chamar Vir­ginia.

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