Hannah Gadsby

Hannah Gadsby

Hannah Gadsby

Hannah Gadsby

O poder da desobediência

Cultura

24.07.18

1.
Em um pequeno artigo chamado Feminism, Materialism, and Freedom [Feminismo, materialismo e liberdade], Elizabeth Grosz retorna à conhecida distinção entre a liberdade negativa, a “liberdade [a partir] de”, e a positiva, a “liberdade para”. A primeira procura eliminar o que nos oprime e restringe, enquanto a segunda destaca a capacidade de ação. Grosz segue os primeiros trabalhos de Henri Bergson, que liga os atos de um sujeito ao processo de autoconstrução, e ignora as trilhas abertas pelo materialismo histórico e pelo liberalismo. “Ações livres são aquelas que tanto nos expressam quanto nos transformam, que expressam nossa transformação”, escreve Grosz. Sem ver aí uma despolitização — antes um novo entendimento da subjetividade —, Grosz observa que a liberdade de está atrelada às condições do presente, enquanto a liberdade para é essencial quando se trata de moldar o futuro. Ela reivindica, portanto, um feminismo disposto a tomar parte nessa construção do porvir.

2.
Desobediência, filme de Sebastián Lelio baseado no romance homônimo de Naomi Alderman, mostra o amor entre duas mulheres no contexto de uma comunidade religiosa. O título realça o sentido da conduta de Ronit e Esti, que procuram descobrir, juntas e individualmente, aquilo que podem transgredir e recusar, e de que maneira e quando. Um rabino, pai de Ronit, lembra, no início do filme, que Hashem deu ao ser humano o livre-arbítrio, “o poder de desobedecer”, o que é “um privilégio e um fardo”.

3.
Assisti a Desobediência na mesma semana em que lia Desobedecer, de Frédéric Gros. Foi inevitável estabelecer conexões entre filme e livro, embora Gros esteja interessado sobretudo na revolta política. A transgressão de Ronit e Esti é, como tudo o mais, política, mas não apenas, ou não em primeiro lugar. Trata-se, no recorte da trama, de algo mais íntimo, o tipo de desobediência que, para Gros, “exige coragem, audácia: para se desfazer das identidades impostas, quebrar os moldes arraigados, os estereótipos rijos”. Toda desobediência, para Gros, é um impulso que nasce internamente, por vezes de uma consciência crítica, e impacta o coletivo. “A obediência faz comunidade. A desobediência divide.”

4.
Em Thelma (2017), escrito e dirigido por Joachim Trier, uma estudante de biologia de família religiosa enfrenta uma série de conflitos ao se apaixonar por uma colega. Thelma acaba renunciando àquilo que a moldou, em cujos limites já não se sentia confortável. Para Gros, “desobedecer pode ser uma vitória sobre si”, o que é tanto mais verdadeiro na medida em que a alternativa pode requerer o encaixe forçado em uma forma definida. Lembro de um trecho do diário de Susan Sontag: “Assim como houve um tempo em que eu era religiosa de um modo neurótico e aterrorizado e achava que um dia seria católica, agora acho que tenho tendências lésbicas”. Mais adiante, ela menciona um conselho que ouviu, segundo o qual evitar o envolvimento com mulheres era a “única chance de ser normal”.

5.
Tanto Desobediência quanto Thelma mostram a desconformidade com um ambiente específico, acompanhada da necessidade de buscar uma maneira de existir em outros termos. Para usar as palavras de Gros, trata-se da urgência de “dar forma à nossa liberdade”.

6.
Daí o despropósito de algumas críticas ao stand-up Nanette, de Hannah Gadsby, que o consideram uma peça de humor ruim — como se Gadsby não conhecesse as regras do jogo, ainda que ela tenha demonstrado, na prática e na teoria, ao falar da criação e dissolução da tensão, justamente o contrário. O formato escolhido pela comediante é tanto o ponto de partida quanto a concretização de uma busca mais ampla por liberdade, o que frustrou e confundiu os espectadores que esperavam rir de maneira mais ou menos contínua, desfrutando o direito de não sentir desconforto. A desobediência de Gadsby envolve a recusa daquilo que Adorno e Horkheimer, na velha crítica da indústria cultural, chamam de “alegria maldosa que se experimenta com toda renúncia bem-sucedida”. Muita gente acredita que é preferível renunciar à própria integridade — a renúncia bem-sucedida que a dupla de alemães ironiza — a renunciar a uma fórmula batida, mesmo que a rejeição da fórmula e a afirmação da integridade assegurem a criação de algo novo e poderoso.

7.
Novo e poderoso? Há quem veja em Nanette uma extensão de discursos identitários que tomaram conta das redes sociais, que parecem ainda mais nocivos na medida em que deturpam a fórmula da comédia stand-up. Mas é sobretudo a mistura que torna Nanette tão fascinante. A mistura é, em algum nível, entre o escracho e o inspirador, que, ao contrário do que qualquer um apostaria, não anulam um ao outro. Gadsby se apoia na ideia de expectativa, partindo de reações não tão favoráveis a outras apresentações, como forma de abrir caminho para a virada. Alguns podem achar difícil trocar o riso dos primeiros minutos pela gravidade que se segue. No entanto, Gadsby deixa claro que a única mudança ocorreu no tom. A comicidade, ou a ausência dela, é uma questão de registro. Na Tasmânia, onde nasceu, diz Gadsby em tom de deboche, a homossexualidade era crime até 1997 — o que é sem dúvida uma desobediência de outra ordem.

8.
No fim das contas, Nanette é e não é um stand-up, e prova que aquilo que não pode ser associado a uma resposta ou finalidade definidas — levar ao riso ou às lágrimas, gerar revolta — tende a ser visto com desconfiança.

9.
Pode-se concordar ou não com alguns comentários e conclusões de Gadsby; evocar a questão da perspectiva no cubismo me parece um gancho forçado, e tampouco gosto de outras saídas. No entanto, Hannah Gadsby é um dos melhores exemplos recentes de sujeitos que reivindicam a liberdade de transformação pela liberdade criativa, com poder de comunicação e senso de responsabilidade, através do que fazem e de como fazem — atitude que, a despeito do personagem no palco, é a própria liberdade para, como quer Elizabeth Grosz, e mesmo ou sobretudo quando isso envolve desobedecer, como propõe Frédéric Gros. No mesmo ano em que um filme que mostra o amor entre duas mulheres chamado Desobediência chegou aos cinemas, Gadsby triunfou com um espetáculo em que despreza uma série de moldes e expectativas para criar algo, sim, novo e poderoso.

* * *

Elizabeth Grosz em “Feminism, Materialism, and Freedom”. (Em New Materialisms: Ontology, Agency, and Politics. Organizado por Diana Coole e Samantha Frost. Duke University Press.)
Frédéric Gros. Desobedecer. Tradução de Célia Euvaldo. Ubu.
Susan Sontag. Diários I (1947-63). Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras.
Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Zahar.

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