Dois dias, uma noite – uma caminhada resume o mundo

No cinema

06.02.15

O cine­ma mais polí­ti­co que se faz hoje no mun­do tal­vez seja o dos irmãos bel­gas Luc e Jean-Pierre Dardenne.

Mas que nin­guém enten­da mal: nos fil­mes deles não apa­re­cem gran­des figu­ras da polí­ti­ca, nem acon­te­ci­men­tos midiá­ti­cos, nem se ouvem expres­sões gran­di­o­sas e abs­tra­tas como “demo­cra­cia”, “ajus­te finan­cei­ro”, “eco­no­mia glo­bal”, “imi­gra­ção”, “desem­pre­go”. Tudo se pas­sa no pla­no miú­do do coti­di­a­no de pes­so­as comuns. (Se bem que, vis­to de per­to, nin­guém é “comum” – mas essa é outra his­tó­ria.)

Em Dois dias, uma noi­te nar­ra-se, sim­ples­men­te, o esfor­ço de uma ope­rá­ria, Sandra (Marion Cotillard), para man­ter seu empre­go numa peque­na fábri­ca. Ela ten­ta con­ven­cer seus com­pa­nhei­ros de tra­ba­lho a votar a favor de sua per­ma­nên­cia. Só que o patrão, sagaz­men­te, dis­se a eles que, se Sandra for demi­ti­da, todos rece­be­rão um abo­no sala­ri­al de mil euros. Haverá uma assem­bleia na empre­sa, e ela tem que con­ven­cer os cole­gas a abrir mão do abo­no para que ela pos­sa ficar.

Geografia peri­fé­ri­ca

À con­cen­tra­ção tem­po­ral, expres­sa já no títu­lo, cor­res­pon­de uma extre­ma depu­ra­ção nar­ra­ti­va e for­mal. Acompanhamos, basi­ca­men­te, as andan­ças de Sandra por bair­ros e arra­bal­des em bus­ca do apoio dos cole­gas. Calçadas, buei­ros, rue­las de ter­ra, becos, gara­gens, loji­nhas, ten­das de ambu­lan­tes, pen­sões, bote­cos, cam­pos de fute­bol: nes­sa geo­gra­fia empo­ei­ra­da e peri­fé­ri­ca está con­den­sa­do todo um amplo con­tex­to his­tó­ri­co-soci­al, toda a per­ver­si­da­de de um sis­te­ma que joga os peque­nos, os fra­cos, uns con­tra os outros.

Mas, como nos outros fil­mes dos Dardenne, há uma luz – no sen­ti­do real e tam­bém no meta­fó­ri­co – que faz os per­so­na­gens esca­pa­rem do deter­mi­nis­mo soci­al, do fun­ci­o­na­men­to cego da engre­na­gem em que estão inse­ri­dos. Uma luz que está nos olhos de Sandra e que às vezes se refle­te nos olhos dos outros. Os homens e mulhe­res que apa­re­cem na tela não são fan­to­ches, não são “tipos” nem este­reó­ti­pos, são com­ple­xos e ambí­guos seres morais, com seu arbí­trio, seus prin­cí­pi­os, suas hesi­ta­ções.

Por onde pas­sa, Sandra pare­ce fazer aflo­rar ten­sões e con­fli­tos que esta­vam laten­tes: entre mari­do e mulher, pai e filho, irmão con­tra irmão. É uma mulher-bom­ba cujo arte­fa­to explo­si­vo é um dile­ma moral: ser soli­dá­rio com o outro ou garan­tir o inte­res­se pró­prio (e mui­tas vezes tam­bém o da famí­lia, o que com­pli­ca tudo).

Ética e esté­ti­ca

A éti­ca e a esté­ti­ca dos Dardenne con­sis­tem em man­ter seu olhar lite­ral­men­te cola­do à per­so­na­gem, à altu­ra de seu ombro, sem aban­do­ná-la sequer por um ins­tan­te. Ouvimos os pas­sos de Sandra e qua­se sen­ti­mos sob nos­sos pés o cimen­to, a ter­ra, o asfal­to, o cas­ca­lho. Tudo se resu­me a um cor­po em movi­men­to, num mun­do extre­ma­men­te con­cre­to, cheio de cur­vas, ladei­ras, des­vi­os e ares­tas. Um cine­ma que mos­tra em vez de dis­cur­sar e que bus­ca na super­fí­cie do visí­vel as rea­li­da­des mais sutis.

Essa sin­gu­lar com­bi­na­ção entre um rea­lis­mo áspe­ro e uma ele­va­da espi­ri­tu­a­li­da­de (em fal­ta de pala­vra melhor) faz pen­sar nos melho­res momen­tos do neor­re­a­lis­mo de Rossellini e De Sica, em que pesem as gran­des dife­ren­ças entre estes últi­mos.

Cinema polí­ti­co, em suma, mas que não se esgo­ta num comen­tá­rio da con­jun­tu­ra ime­di­a­ta. Política com maiús­cu­las, que pen­sa nos con­fli­tos do homem com seus seme­lhan­tes e con­si­go mes­mo.

Uma últi­ma pala­vra sobre Marion Cotillard, atriz-cama­le­oa capaz de dar vida tan­to a Edith Piaf como a uma obs­cu­ra imi­gran­te polo­ne­sa na América. Aqui ela é uma mulher “comum”, ope­rá­ria e mãe, ves­ti­da com rou­pas de dia de sema­na. Não é uma bel­da­de gla­mo­ro­sa. Sua bele­za, em últi­ma ins­tân­cia, está no seu incan­sá­vel cami­nhar.

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