Cena de O que está por vir

Cena de O que está por vir

Dois olhares sobre as ruínas

No cinema

06.01.17

O ano cine­ma­to­grá­fi­co come­ça bem. Dois fil­mes de pun­gen­te atu­a­li­da­de estão em car­taz nos cine­mas bra­si­lei­ros: O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, Urso de Prata de melhor dire­ção em Berlim, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes. São bem dis­tin­tos em ter­mos de temá­ti­ca, ambi­en­ta­ção e esti­lo, mas tal­vez haja entre eles um pon­to comum: a angús­tia dian­te dos rumos que a vida está toman­do na Europa e no mun­do.

Kafka pro­le­tá­rio

Em ple­na for­ma, o vete­ra­no Loach ence­na a saga de Daniel Blake (Dave Johns), um mar­ce­nei­ro de Newcastle que, impe­di­do de tra­ba­lhar por pro­ble­mas car­día­cos, bus­ca no labi­rin­to tec­no­crá­ti­co bri­tâ­ni­co um meio de rece­ber o auxí­lio-saú­de a que, teo­ri­ca­men­te, teria direi­to. Em sua odis­seia por gui­chês e repar­ti­ções ele conhe­ce casu­al­men­te a desem­pre­ga­da Katie (Hayley Squires), jovem mãe sol­tei­ra de duas cri­an­ças, a quem pas­sa a aju­dar como pode.

Estamos em ple­no ter­ri­tó­rio de Ken Loach: per­so­na­gens à mar­gem de uma soci­e­da­de injus­ta, ten­tan­do sobre­vi­ver com base em valo­res como inte­gri­da­de e soli­da­ri­e­da­de. “Ah, mais um ape­la­ti­vo libe­lo anti­ca­pi­ta­lis­ta”, dirão os apres­sa­dos. Devagar com o andor, que há mais coi­sas para ver aqui.

Um aspec­to inte­res­san­te do fil­me, que acen­tua sua atmos­fe­ra kaf­ki­a­na, é o des­com­pas­so tec­no­ló­gi­co entre o pro­ta­go­nis­ta e o mun­do à sua vol­ta. Blake é um arte­são, alguém capaz de cri­ar com as mãos obje­tos ao mes­mo tem­po belos e úteis, qua­se uma encar­na­ção do espí­ri­to do movi­men­to arts and crafts, sur­gi­do na Inglaterra no sécu­lo XIX. Em decor­rên­cia, sen­te-se atur­di­do num mun­do de rela­ções ter­cei­ri­za­das, men­sa­gens telefô­ni­cas auto­má­ti­cas, cur­rí­cu­los vir­tu­ais.

Loach explo­ra com habi­li­da­de o que há de trá­gi­co e de cômi­co nes­sa ina­de­qua­ção, e tal­vez este­ja nis­so o que o fil­me tem de mais for­te. Já a rela­ção de Blake com Katie, sua ten­ta­ti­va de impe­di-la de cair na pros­ti­tui­ção, sua rela­ção com as cri­an­ças, tudo isso está a um pas­so do lugar-comum. Mas, pen­san­do bem, é dos “luga­res comuns” (sem hífen) que cos­tu­ma tra­tar o cine­ma do dire­tor, isto é, dos luga­res por onde cir­cu­lam as pes­so­as anô­ni­mas, e pelos quais geral­men­te pas­sa­mos sem dar aten­ção.

Talvez não seja casu­al que tan­tos de seus fil­mes tenham no títu­lo os nomes de seus per­so­na­gens: Meu nome é Joe, Uma can­ção para Carla, À pro­cu­ra de Eric, Jimmy’s hall. É pre­ci­so nome­ar os anô­ni­mos, dar-lhes exis­tên­cia e cida­da­nia. Todo o cine­ma de Loach, de cer­to modo, con­sis­te nis­so, em dar a ver vidas comuns atra­ves­sa­das pelas con­tra­di­ções e injus­ti­ças do mun­do (o que não é novi­da­de, des­de o neor­re­a­lis­mo ita­li­a­no). O que even­tu­al­men­te enfra­que­ce esse ges­to artís­ti­co é a ênfa­se didá­ti­ca: por exem­plo, no caso de Eu, Daniel Blake, o dis­cur­so final da per­so­na­gem Katie, que repe­te e dilui tudo o que vimos antes.

Ainda assim, há clas­se, há for­ça, e sobre­tu­do há coe­rên­cia e inte­gri­da­de nes­se cine­ma.

A filo­so­fia e a vida

Se o mun­do de Eu, Daniel Blake é o mun­do do tra­ba­lho bra­çal, o de O que está por vir é o do tra­ba­lho inte­lec­tu­al, do pen­sa­men­to sobre o pas­sa­do, o pre­sen­te e o futu­ro da huma­ni­da­de. A pro­ta­go­nis­ta, Nathalie Chazeaux (Isabelle Huppert), é uma pro­fes­so­ra de filo­so­fia de meia-ida­de, às vol­tas com um casa­men­to ago­ni­zan­te, uma mãe depres­si­va, um sis­te­ma edu­ca­ci­o­nal em cri­se, um esta­blish­ment inte­lec­tu­al cada vez mais gover­na­do pelo mer­ca­do e, prin­ci­pal­men­te, com o ques­ti­o­na­men­to de sua pos­tu­ra por um ex-alu­no bri­lhan­te (Roman Kolinka), mem­bro de um cole­ti­vo anar­quis­ta e adep­to da ação dire­ta.

Com segu­ran­ça e fluên­cia notá­veis, a jovem dire­to­ra Mia Hansen-Løve orga­ni­za uma nar­ra­ti­va epi­só­di­ca, cheia de linhas de fuga, sem per­der jamais de vis­ta a ques­tão cen­tral que a move: para que ser­ve, afi­nal, a filo­so­fia? Como “con­so­la­ção”, refú­gio do indi­ví­duo pen­san­te con­tra as agru­ras do mun­do? Ou, ao con­trá­rio, para enten­der melhor esse mun­do e, assim, poder agir para trans­for­má-lo?

Meu papel é ensi­nar meus alu­nos a pen­sar por con­ta pró­pria”, defi­ne e defen­de-se a pro­ta­go­nis­ta. O pró­prio fil­me, ao dei­xar vári­as pon­tas em aber­to, pare­ce ado­tar a mes­ma pos­tu­ra. Sua manei­ra de nar­rar, com cada cena dan­do a impres­são de come­çar já no meio e ter­mi­nar antes do fim, refor­ça essa sen­sa­ção de algo incon­clu­so, dei­xa­do aber­to à inter­pre­ta­ção.

Tudo é nar­ra­do com um cer­to dis­tan­ci­a­men­to, qua­se non­cha­lan­ce, como se a câme­ra esti­ves­se ali por aca­so, ou como se os per­so­na­gens esti­ves­sem pen­san­do em outra coi­sa. No entan­to, nada é gra­tui­to ou des­lei­xa­do, há uma gran­de pre­ci­são no que é mos­tra­do e no que é omi­ti­do, mas não se tra­ta da pre­ci­são rígi­da do cine­ma clás­si­co, que con­duz nos­so olhar de modo tirâ­ni­co, mas de uma espé­cie de pre­ci­são sua­ve. Analogamente, os even­tos dra­má­ti­cos pare­cem amor­te­ci­dos, esva­zi­a­dos de ênfa­se e estar­da­lha­ço.

Claro que essa abor­da­gem sutil, esse espa­ço que se abre para a cir­cu­la­ção do olhar e para a inter­ven­ção do pen­sa­men­to, só é pos­sí­vel gra­ças à arte de uma atriz sin­gu­lar, Isabelle Huppert. É inte­res­san­te, aliás, cote­jar sua atu­a­ção em O que está por vir e em Elle, tam­bém em car­taz. No fil­me de Paul Verhoeven sua per­so­na­gem (uma empre­sá­ria cri­a­do­ra de games eró­ti­cos e vio­len­tos) tem inter­fa­ces seme­lhan­tes: com o tra­ba­lho, o ex-mari­do, aman­tes, filhos, mãe ido­sa. Mas tudo ali desem­bo­ca em uma for­ma ou outra de vio­lên­cia. É uma Isabelle Huppert que explo­de, esti­lha­ça, fere (e se fere). Em O que está por vir, ao con­trá­rio, todas as vio­lên­ci­as pare­cem absor­vi­das, medi­a­das, subli­ma­das. Há mais uma implo­são do que uma explo­são. Que a mes­ma atriz seja capaz, com a mes­ma com­pe­tên­cia cri­a­ti­va, des­ses movi­men­tos opos­tos é uma pro­va de sua cate­go­ria extra­or­di­ná­ria.

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