Êxodo, história antiga, tragédia atual

No cinema

26.12.14

Toda his­tó­ria é his­tó­ria con­tem­po­râ­nea.” A céle­bre fra­se de Benedetto Croce, ao suge­rir que sem­pre olha­mos para o pas­sa­do com os olhos do pre­sen­te, apli­ca-se à per­fei­ção às adap­ta­ções cine­ma­to­grá­fi­cas das nar­ra­ti­vas bíbli­cas. Diante de um fil­me como Êxodo – Deuses e reis, de Ridley Scott, não faz sen­ti­do veri­fi­car se ele é “fiel” ao tex­to ori­gi­nal. Mais inte­res­san­te é dis­cu­tir como ele se rela­ci­o­na com duas outras rea­li­da­des: a tra­di­ção hollywo­o­di­a­na e a his­tó­ria de nos­so tem­po.

Êxodo é tal­vez o livro mais impor­tan­te do cha­ma­do Antigo tes­ta­men­to, ao tra­çar o cará­ter dos hebreus como um povo uni­do em tor­no de um deus úni­co (Adonai, Javé, Jeová ou sim­ples­men­te “Aquele que é”), lide­ra­do por um pro­fe­ta (Moisés) e regi­do por um códi­go moral (as “tábu­as da lei” ou “dez man­da­men­tos”). É, em gran­de medi­da, o tex­to fun­da­dor da tra­di­ção judai­co-cris­tã.

É tam­bém um gran­de épi­co lite­rá­rio, reple­to de pro­dí­gi­os sobre­na­tu­rais, pai­xões huma­nas, vio­lên­cia, pra­gas, cala­mi­da­des. Mas a escri­ta bíbli­ca, elíp­ti­ca, poé­ti­ca, ao mes­mo tem­po repe­ti­ti­va e lacu­nar, dei­xa mui­ta coi­sa na som­bra, o que dá mar­gem aos mais dife­ren­tes acrés­ci­mos e inter­pre­ta­ções. É qua­se como um esbo­ço que induz o lei­tor a “pre­en­cher os espa­ços pon­ti­lha­dos”.

Pois bem. Voltemos ao Êxodo de Ridley Scott. Encontramos ali (com ou sem o 3-D) não ape­nas a gran­di­o­si­da­de espe­ta­cu­lar das super­pro­du­ções de Cecil B. DeMille como tam­bém cer­tas con­ven­ções român­ti­cas e dra­má­ti­cas hollywo­o­di­a­nas, devi­da­men­te adap­ta­das a nos­sa épo­ca. Diga-se entre parên­te­ses: se a aber­tu­ra do Mar Vermelho é menos sen­sa­ci­o­nal que a de fil­mes ante­ri­o­res, o seu “fecha­men­to” aqui é um tsu­na­mi de tirar o fôle­go, com pelo menos um pla­no anto­ló­gi­co: o de um minús­cu­lo cava­lo cor­ren­do à fren­te de uma mura­lha gigan­tes­ca de água.

Romantismo moder­no, herói mar­ci­al

A visão de um Moisés (Christian Bale) cri­a­do como prín­ci­pe na cor­te do faraó, numa rela­ção de amor e riva­li­da­de com o legí­ti­mo prín­ci­pe Ramsés (Joel Edgerton), her­dei­ro do tro­no, é algo que tem mais a ver com Hollywood (e com a lite­ra­tu­ra român­ti­ca que a ali­men­tou na era clás­si­ca) do que com o tex­to bíbli­co. O ante­ces­sor mais céle­bre do fil­me de Ridley Scott, Os dez man­da­men­tos(1956), de Cecil B. DeMille, intro­du­zia até uma dis­pu­ta entre os dois qua­se irmãos pelo amor da bela Nefretiri. Para a sen­si­bi­li­da­de do espec­ta­dor con­tem­po­râ­neo, isso tal­vez fos­se exces­si­va­men­te melo­so, e foi dei­xa­do de lado na atu­al ver­são. Esta, no entan­to, não dei­xa de carac­te­ri­zar o casal Moisés/Zípora (Maria Valverde) com um roman­tis­mo mais con­di­zen­te com a cul­tu­ra bur­gue­sa moder­na do que com as rela­ções homem-mulher no sécu­lo 13 a.C.

Cena do filme Êxodo, de Ridley Scott

Por outro lado, o “novo” Moisés paga tri­bu­to a uma cer­ta infan­ti­li­za­ção béli­ca dos fil­mes de ação, ao trans­for­mar-se numa espé­cie de super-herói de for­ça des­co­mu­nal e extre­mas habi­li­da­des mar­ci­ais. A auto­ri­da­de moral já não bas­ta a nos­sas pla­tei­as for­ma­das pelos vide­o­ga­mes, heróis mutan­tes e rui­do­sos efei­tos espe­ci­ais.

Mantém-se, cla­ro, a tra­di­ção do herói vigo­ro­so e boni­to, ain­da que no tex­to do Êxodo Moisés já tives­se 80 anos ao lide­rar a fuga de seu povo do Egito. Alguém con­se­gue ima­gi­nar um ancião como pro­ta­go­nis­ta de um épi­co de hoje em dia?

Uma novi­da­de dig­na de nota no Êxodo de Scott é a repre­sen­ta­ção de Deus como um meni­no (Isaac Andrews) e não como um velho bar­bu­do, como o reper­tó­rio figu­ra­ti­vo do Ocidente nos habi­tu­ou a ima­gi­nar. O Deus do fil­me é uma cri­an­ça geni­o­sa e cru­el, o que não dei­xa de ser curi­o­so.

Drama con­tem­po­râ­neo

Mas tal­vez ain­da mais inte­res­san­te seja exa­mi­nar o novo Êxodo em face da his­tó­ria con­tem­po­râ­nea de Israel e da cri­se do Oriente Médio. É um ter­re­no explo­si­vo, e todo cui­da­do é pou­co ao cami­nhar por ele.

Tendo isso em men­te, cha­ma a aten­ção uma liber­da­de toma­da por Ridley Scott. Em sua nar­ra­ti­va, antes da inter­ven­ção divi­na medi­an­te as famo­sas “pra­gas do Egito”, o pró­prio Moisés, como estra­te­gis­ta mili­tar, resol­ve agre­dir o ini­mi­go, minan­do suas for­ças. Um cama­ra­da ain­da per­gun­ta: “Vamos inter­rom­per a pro­du­ção de armas deles?” E Moisés, fir­me: “Não. Vamos cor­tar seu supri­men­to de víve­res”. Desse modo, quei­man­do a pro­du­ção agrí­co­la, espan­tan­do os ani­mais, incen­di­an­do navi­os, o Moisés do fil­me rea­li­za a pri­mei­ra ofen­si­va em mas­sa con­tra uma popu­la­ção civil em nome da defe­sa do povo de Israel. Isso não está, evi­den­te­men­te, no tex­to bíbli­co, e seria inte­res­san­te per­gun­tar a Scott por que está no fil­me.

Outro eco da his­tó­ria atu­al pode ser detec­ta­do no diá­lo­go entre Moisés e seu irmão Josué (Aaron  Paul), em que este per­gun­ta o que vai acon­te­cer quan­do che­ga­rem à Terra Prometida. Moisés res­pon­de mais ou menos o seguin­te: “Já have­rá outro povo viven­do lá. E che­ga­re­mos não como mais uma tri­bo, mas como toda uma nação”. A incô­mo­da per­gun­ta não for­mu­la­da, mas que fica no ar, é a seguin­te: Não foi isso o que acon­te­ceu quan­do, no ras­tro da Segunda Guerra e do Holocausto, cri­ou-se na Palestina o Estado de Israel para abri­gar os judeus per­se­gui­dos na Europa?

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