Jorge, Nelson, literatura, cinema

No cinema

27.07.12

O des­ti­no é capri­cho­so. Dois dos mai­o­res e mais popu­la­res escri­to­res bra­si­lei­ros do sécu­lo XX com­ple­ta­ri­am cem anos nes­te mês de agos­to: Jorge Amado (dia 10) e Nelson Rodrigues (dia 23).

Os dois são tam­bém, de lon­ge, os mais adap­ta­dos para o cine­ma e a tele­vi­são. Obras de Nelson Rodrigues ins­pi­ra­ram nada menos que vin­te lon­gas-metra­gens, de Meu des­ti­no é pecar (Manuel Peluffo, 1952) a Vestido de noi­va (Joffre Rodrigues, 2006). Jorge Amado, por sua vez, teve livros seus trans­for­ma­dos em dezes­se­te lon­gas, de Terra vio­len­ta (adap­ta­ção de Terras do sem fim pelo ame­ri­ca­no Edmond F. Bernoudy para a Atlântida, 1948) a Os velhos mari­nhei­ros ou O capi­tão de lon­go cur­so (de Marcos Jorge, atu­al­men­te em pré-pro­du­ção). Isso tudo sem con­tar tele­no­ve­las, minis­sé­ri­es e cur­tas-metra­gens.

Os dois mai­o­res suces­sos de bilhe­te­ria do cine­ma bra­si­lei­ro nas­ce­ram da ima­gi­na­ção cri­a­do­ra de Jorge e Nelson: Dona Flor e seus dois mari­dos (Bruno Barreto, 1976) e A dama do lota­ção (Neville d’Almeida, 1978), curi­o­sa­men­te ambos estre­la­dos por Sonia Braga.

Opostos e com­ple­men­ta­res

São dois auto­res antagô­ni­cos e com­ple­men­ta­res: o uni­ver­so solar e exu­be­ran­te de Jorge Amado, com suas cri­a­tu­ras movi­das por uma incu­rá­vel ale­gria de viver, con­tras­ta com o mun­do de pai­xões doen­ti­as e cul­pa­das, des­ti­na­das à der­ro­ta ou ao desas­tre, que Nelson Rodrigues nos deu a conhe­cer. O ero­tis­mo, que no roman­cis­ta bai­a­no tem o sinal posi­ti­vo de uma for­ça trans­for­ma­do­ra, adqui­re na obra do dra­ma­tur­go per­nam­bu­ca­no-cari­o­ca tona­li­da­des som­bri­as e auto­des­tru­ti­vas.

Brasileiros até a medu­la, são tal­vez nos­sos fic­ci­o­nis­tas mais uni­ver­sais. Cada um deles impli­ca suas pró­pri­as difi­cul­da­des e peri­gos na trans­po­si­ção para o cine­ma. No caso de Nelson Rodrigues, é fácil res­va­lar para um cafa­jes­tis­mo cíni­co e escra­cha­do, uma feti­chi­za­ção de taras e aber­ra­ções dis­tan­te das pre­o­cu­pa­ções morais e, no fun­do, espi­ri­tu­ais do escri­tor. Um bom exem­plo dis­so, a meu ver, é Os sete gati­nhos (Neville d’Almeida, 1980).

Com Jorge Amado, o peri­go mais evi­den­te é uma car­na­va­li­za­ção do dese­jo, uma exal­ta­ção super­fi­ci­al e turís­ti­ca da sen­su­a­li­da­de bai­a­na — algo que ocor­re fla­gran­te­men­te, por exem­plo, no fil­me Gabriela (Bruno Barreto, 1982). Outro ris­co é a acen­tu­a­ção exces­si­va do bur­les­co, dos per­so­na­gens pito­res­cos, numa exa­cer­ba­ção daqui­lo que, na lite­ra­tu­ra de Jorge Amado, já esta­va a um pas­so do cari­ca­tu­ral. Isso ocor­re cla­ra­men­te nas tele­no­ve­las e minis­sé­ri­es base­a­das no autor.

Pois bem, na vas­ta fil­mo­gra­fia de ori­gem ama­di­a­na e rodri­gue­a­na, cada crí­ti­co ou ciné­fi­lo terá suas pre­fe­rên­ci­as pes­so­ais. Não vou escon­der as minhas.

Algumas esco­lhas

Não vi todas as adap­ta­ções de obras de Nelson Rodrigues, mas as que me pare­cem mais feli­zes são Boca de ouro (Nelson Pereira dos Santos, 1963), A fale­ci­da (Leon Hirszman,1965) e as ver­sões de Arnaldo Jabor para Toda nudez será cas­ti­ga­da (1973) e O casa­men­to (1976).

Curiosamente, o pró­prio Nelson Rodrigues não gos­ta­va mui­to da abor­da­gem de sua obra pelos cine­ma­no­vis­tas. Implicava sobre­tu­do com A fale­ci­da, por con­ta da ênfa­se de Leon Hirszman na rea­li­da­de soci­al em tor­no do dra­ma da mulher (Fernanda Montenegro) que sonha mor­bi­da­men­te com seu pró­prio fune­ral.

Jabor, qua­se um espe­ci­a­lis­ta nos peca­di­lhos da clas­se média, iden­ti­fi­cou-se tão bem com o uni­ver­so de Nelson Rodrigues que a ins­pi­ra­ção des­te é evi­den­te mes­mo em seus fil­mes pos­te­ri­o­res, que não se base­a­ram em obras do dra­ma­tur­go.

Para não atu­lhar de víde­os este tex­to, limi­to-me a colo­car aqui um tre­cho do Boca de ouro de Nelson Pereira que, a meu ver, con­den­sa tudo o que o escri­tor tem de mais pode­ro­so, a ten­são per­ma­nen­te entre o escra­cho e a tra­gé­dia, entre o sór­di­do e o subli­me. De que­bra, tem uma atu­a­ção esplên­di­da de Jece Valadão:

Jorge Amado tem dado menos sor­te. Não ins­pi­rou no cine­ma nenhu­ma obra-pri­ma, embo­ra tenha gera­do fil­mes agra­dá­veis e diver­ti­dos como o cita­do Dona Flor e o mais recen­te Quincas Berro d’Água (Sergio Machado, 2010). Este últi­mo per­deu a mão ao apos­tar na ação fre­né­ti­ca e num humor estri­den­te e dei­xar qua­se de lado o aspec­to de aven­tu­ra espi­ri­tu­al que move o roman­ce cur­to (ou nove­la) que lhe deu ori­gem e que é tal­vez o melhor tex­to do escri­tor.

Aqui, um tre­cho boni­to de Dona Flor, que deve mui­to à bele­za e ao talen­to de Sonia Braga, bem como à músi­ca de Chico Buarque:

Por fim, uma com­pi­la­ção de tre­chos de Tenda dos mila­gres (1977), fil­me irre­gu­lar que Nelson Pereira dos Santos (sem­pre ele) extraiu de um dos melho­res livros de Jorge Amado. Uma curi­o­si­da­de é a atu­a­ção do músi­co e com­po­si­tor Macalé no papel do jovem Pedro Arcanjo, uma espé­cie de inte­lec­tu­al orgâ­ni­co da comu­ni­da­de afro-bra­si­lei­ra de Salvador. Com um pou­co de boa von­ta­de, pode­mos dizer que o des­lei­xo na dire­ção de ato­res e o cará­ter um tan­to tos­co da ence­na­ção é aná­lo­go ao esti­lo rela­xa­do, bai­a­na­men­te auto­com­pla­cen­te, do pró­prio Jorge Amado:

http://www.youtube.com/watch?v=7d47FdetRQM

Quem esti­ver inte­res­sa­do numa refle­xão ao mes­mo tem­po pro­fun­da e abran­gen­te sobre a obra de Nelson Rodrigues no cine­ma deve ler o livro O olhar e a cena (Cosac Naify, 2003), de Ismail Xavier. Já o cine­ma de ins­pi­ra­ção ama­di­a­na está com­pen­di­a­do e dis­cu­ti­do no volu­me Jorge Amado e a séti­ma arte, de vári­os auto­res, orga­ni­za­do por Bohumila S. de Araujo, Myriam Fraga e Maria do Rosario Caetano, sain­do do for­no pela edi­to­ra da Universidade Federal da Bahia. Boa lei­tu­ra.

* Nas ima­gens que ilus­tram o post: os escri­to­res Nelson Rodrigues e Jorge Amado.

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