O homem das multidões e a cidade fora de foco

No cinema

01.08.14

O cine­ma do IMS-RJ exi­be O homem das mul­ti­dões de 13 a 20 de agos­to.

O homem das mul­ti­dões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, é ins­pi­ra­do vaga e lon­gin­qua­men­te no con­to homô­ni­mo de Edgar Allan Poe (1809–49) sobre o sujei­to que pare­cia só ganhar exis­tên­cia no meio da mas­sa anô­ni­ma da metró­po­le.

Das pou­cas pági­nas do con­to aos 95 minu­tos do fil­me há mudan­ças, acrés­ci­mos e inver­sões que tal­vez valha a pena exa­mi­nar para enten­der os pro­pó­si­tos dos dois cine­as­tas e algu­mas dife­ren­ças entre lite­ra­tu­ra e cine­ma. 

Em pri­mei­ro lugar, a loca­li­za­ção espa­ço-tem­po­ral indis­tin­ta da nar­ra­ti­va lite­rá­ria ganha na tela niti­dez e pre­ci­são: esta­mos em Belo Horizonte nos dias de hoje. Também o pro­ta­go­nis­ta, de quem nada sabe­mos ao ler o con­to, rece­be aqui um per­fil defi­ni­do: encar­na­do pelo ator Paulo André, do gru­po Galpão, ele é um con­du­tor de trens do metrô belo-hori­zon­ti­no. Está na fai­xa dos 40 e mora sozi­nho numa sala comer­ci­al impro­vi­sa­da em apar­ta­men­to.

O acrés­ci­mo mais rele­van­te, em ter­mos de per­so­na­gens, é o de uma cole­ga de tra­ba­lho do pro­ta­go­nis­ta (Silvia Lourenço), super­vi­so­ra com quem ele almo­ça às vezes e que mora com o pai ido­so (Jean-Claude Bernardet).

Imagem ver­ti­cal

Mas che­ga de falar do enre­do. O impor­tan­te é o modo como os dois expe­ri­en­tes e talen­to­sos dire­to­res ence­nam a soli­dão do per­so­na­gem-títu­lo, sua rela­ção com a cida­de e o mun­do. Antes de mais nada, uma deci­são for­mal que sal­ta aos olhos, cri­an­do um cer­to incô­mo­do: o for­ma­to do qua­dro não é hori­zon­tal, como na qua­se tota­li­da­de dos fil­mes, mas sim ver­ti­cal. O estra­nha­men­to é tama­nho que alguns pro­je­ci­o­nis­tas che­ga­ram a sus­pei­tar de um defei­to téc­ni­co.

Essa ver­ti­ca­li­za­ção da ima­gem tem, por um lado, o efei­to de com­pri­mir opres­si­va­men­te o espa­ço por onde tra­fe­gam os indi­ví­du­os, e isso é refor­ça­do pela pre­sen­ça cons­tan­te de tri­lhos de metrô, esca­das rolan­tes, ruas estrei­tas, cor­re­do­res de came­ló­dro­mos. Por outro lado, ser­ve para subli­nhar a difi­cul­da­de do pro­ta­go­nis­ta em esta­be­le­cer rela­ções huma­nas hori­zon­tais, em esten­der-se para o outro.

Quando o con­du­tor de trens está entre outras pes­so­as, estas geral­men­te estão fora de foco, como uma mas­sa inde­fi­ni­da e sem ros­to. Quando ele, diri­gin­do o trem, pas­sa por elas nas pla­ta­for­mas, elas se tor­nam bor­rões colo­ri­dos, em belas ima­gens que reme­tem ao expres­si­o­nis­mo abs­tra­to.

O des­con­for­to do vazio

A opção pelo qua­dro ver­ti­cal refor­ça o des­con­for­to do encon­tro entre o pro­ta­go­nis­ta e sua cole­ga super­vi­so­ra no des­po­ja­do e des­lei­xa­do apar­ta­men­to dele. Ali, tudo é hori­zon­tal: o alon­ga­do cômo­do qua­se deser­to que ser­ve de quar­to, sala e cozi­nha; o sofá; a varan­da exter­na; a vidra­ça que dá para a cida­de. Um espa­ço que, sec­ci­o­na­do em enqua­dra­men­tos ver­ti­cais, ain­da que não haja cor­tes e o movi­men­to da câme­ra seja con­tí­nuo, acen­tua a dis­tân­cia entre os per­so­na­gens, real­ça o vazio.

Hoje em dia se diria que o pro­ta­go­nis­ta é uma espé­cie de autis­ta. Mas não é bem assim. Ele não está alheio ao mun­do. Almoça oca­si­o­nal­men­te com a cole­ga, ser­ve até de padri­nho em seu casa­men­to, faz ginás­ti­ca na varan­da do apar­ta­men­to, tran­sa com uma pros­ti­tu­ta.

Entra aqui uma mudan­ça cru­ci­al com rela­ção ao con­to de Poe: no tex­to, o per­so­na­gem pro­cu­ra a mul­ti­dão com avi­dez, qua­se com sofre­gui­dão, como um vici­a­do bus­ca sua dro­ga. No fil­me, ao con­trá­rio, ele pare­ce agir por inér­cia, com uma sere­ni­da­de pas­si­va. Talvez se tra­te de uma dife­ren­ça entre duas épo­cas. Hoje não há mais lugar para o fas­cí­nio e a exci­ta­ção que o bur­bu­ri­nho da metró­po­le podia oca­si­o­nar no tem­po de Poe. Deixamo-nos levar pela mas­sa anô­ni­ma, nada mais.

No fil­me, a mul­ti­dão ali­men­ta o pro­ta­go­nis­ta, mas ele é capaz de sobre­vi­ver sem ela. Às vezes bas­ta a apro­xi­ma­ção com um úni­co ser, como na cena em que, no ôni­bus qua­se vazio, ele vai se sen­tar jus­ta­men­te ao lado do úni­co pas­sa­gei­ro. Um momen­to de belo e dis­cre­to absur­do, um liris­mo áspe­ro que dá o tom des­se fil­me estra­nho, úni­co, fas­ci­nan­te, cujo paren­te mais pró­xi­mo, no cine­ma bra­si­lei­ro, tal­vez seja Transeunte (2010), de Eryk Rocha.

História da eter­ni­da­de

O gran­de ven­ce­dor do recen­te Festival de Paulínia, A his­tó­ria da eter­ni­da­de, de Camilo Cavalcante, atu­a­li­za de modo vigo­ro­so e ori­gi­nal alguns temas recor­ren­tes na fil­mo­gra­fia do ser­tão. Num vila­re­jo da caa­tin­ga, arti­cu­lam-se três dra­mas dis­tin­tos, com per­so­na­gens arque­tí­pi­cos da região.

Há o pai auto­ri­tá­rio e tirâ­ni­co (Claudio Jaborandy) da ado­les­cen­te român­ti­ca (Debora Ingrid) que sonha com o mar e é apai­xo­na­da pelo tio artis­ta (Irandhir Santos); há o san­fo­nei­ro cego (Leonardo França) que cor­te­ja a sol­tei­ro­na soli­tá­ria (Marcélia Cartaxo); e há, por fim, a avó (Zezita Matos) alvo­ro­ça­da pela che­ga­da do neto (Maxwell Nascimento) que veio da cida­de gran­de com cabe­lo tin­gi­do, brin­cos e uma his­tó­ria mal con­ta­da.

O reci­fen­se Cavalcante, estre­an­te em lon­ga, mas expe­ri­en­te rea­li­za­dor de cur­tas, mos­tra segu­ran­ça, desen­vol­tu­ra e esti­lo na con­du­ção des­sas ten­sões entre­la­ça­das, que explo­dem jus­ta­men­te quan­do a aguar­da­da chu­va che­ga ao vila­re­jo. Os gran­des pla­nos gerais e os movi­men­tos dis­cre­tos de câme­ra expõem um mun­do agres­te, para­do no tem­po, que pare­ce pré-exis­tir ao homem e dele pres­cin­dir. O con­tro­le abso­lu­to da ima­gem em tela lar­ga pelo dire­tor de foto­gra­fia Beto Martins escul­pe o espa­ço e cons­trói o dra­ma com a luz.

Se há algu­mas pas­sa­gens exces­si­vas – como uma “Pietà” entre avó e neto que reme­te a uma cena de Pixote, ou mes­mo a per­for­man­ce (sin­to­ma­ti­ca­men­te aplau­di­da duran­te a pro­je­ção em Paulínia) de Irandhir Santos dublan­do a can­ção Fala, dos Secos e Molhados, para per­ple­xi­da­de dos ser­ta­ne­jos cir­cuns­tan­tes –, isso pode ser debi­ta­do ao dese­jo de mar­car posi­ção, de cri­ar osten­si­va­men­te momen­tos anto­ló­gi­cos. Deslizes, se é que o são, que não che­gam a empa­nar o bri­lho des­se belo fil­me.

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