Um pinto contra Francisco Sá

Miscelânea

05.06.14

A estudante Yasmin Ferreira, que passou um ano ouvindo cantadas de um porteiro

Em uma tar­de qual­quer no Rio de Janeiro, o fun­ci­o­ná­rio de um pré­dio na rua Raul Pompeia, em Copacabana, resol­ve pas­sar mais uma can­ta­da na garo­ta boni­ti­nha que anda pela cal­ça­da. Mas, naque­la ter­ça-fei­ra de junho, Yasmin Ferreira não esta­va dis­pos­ta a ouvir pia­di­nha. Coincidentemente, a repór­ter Cléo Guimarães, de O Globo, anda­va ali à pro­cu­ra de uma pau­ta. O epi­só­dio ren­deu um vídeo que mere­ce ser lido à luz de deba­tes recen­tes sobre o direi­to femi­ni­no de não ouvir can­ta­das de rua, colo­ca­do por cam­pa­nhas como a Chega de Fiu–Fiu, pro­mo­vi­da pelo site femi­nis­ta Think Olga.

con­fli­to entre a estu­dan­te de direi­to de 21 anos e o por­tei­ro foi ampla­men­te comen­ta­do e expõe os limi­tes da dis­cus­são femi­nis­ta fei­ta sem diá­lo­go ou empa­tia por ques­tões raci­ais e soci­ais. Em um vídeo de um minu­to e meio, Yasmin usa qua­se dez mar­ca­do­res de clas­se: “por cau­sa de um por­tei­ro”, “moro aqui”, “local de tra­ba­lho”, “mora­do­ra do pos­to 6”, “vai tomar uma mul­ta”, “vai per­der teu empre­go”, “no lugar de tra­ba­lho não se faz isso” etc. A pala­vra “por­tei­ro” é repe­ti­da ad nau­se­am, com ento­na­ção de ultra­je. No dis­cur­so da jovem, não é pos­sí­vel subs­ti­tuir “por­tei­ro” por “homem”. Há uns anos, daria para subs­ti­tuir por “pre­to”. Talvez ain­da dê para subs­ti­tuir por “pé-rapa­do”.

A ques­tão da can­ta­da de rua como vem sen­do abor­da­da no Brasil, no âmbi­to de um femi­nis­mo bran­co e de clas­se média, sub­va­lo­ri­za a arti­cu­la­ção das diver­sas for­mas de opres­são que se mani­fes­tam no ges­to de asse­di­ar uma mulher em públi­co. Não à toa, mui­tas das mulhe­res que recla­mam das can­ta­das – e que estão cor­re­tas em sua ava­li­a­ção de que elas fre­quen­te­men­te repre­sen­tam uma ten­ta­ti­va con­ser­va­do­ra de lhes mos­trar seu lugar – não hesi­tam em asso­ciá-las a pro­fis­sões espe­cí­fi­cas. Fala-se, por exem­plo, em can­ta­da de pedrei­ro, em can­ta­da de taxis­ta. Para esse femi­nis­mo, as ruas seri­am mais civi­li­za­das se hou­ves­se um apa­ga­men­to da ten­são sexu­al no ambi­en­te urba­no. A luta não é por direi­tos iguais na hora de expres­sar o dese­jo ou para que se reco­nhe­ça o ele­men­to opres­sor que cos­tu­ma estar pre­sen­te nes­sas abor­da­gens. A rei­vin­di­ca­ção é por assep­sia, é para que as mulhe­res pos­sam cir­cu­lar pelo espa­ço públi­co sem serem inco­mo­da­das pelo dese­jo alheio. O dese­jo delas se dá ape­nas nega­ti­va­men­te: é um dese­jo de invi­si­bi­li­da­de soci­al, de não ouvir o outro. Sentem-se injus­ti­ça­das por não usfruí­rem do pri­vi­lé­gio de seus pares, os homens de clas­se média, de pode­rem andar pelas ruas sem serem con­fron­ta­dos com a exis­tên­cia do outro.

O argu­men­to de que a can­ta­da de rua seria vio­len­ta por se dar em um ambi­en­te ina­pro­pri­a­do, com méto­dos e pala­vras erra­das, soa capen­ga se pen­sar­mos que den­tro da orga­ni­za­ção soci­al bra­si­lei­ra não há ambi­en­te, pala­vra ou méto­do de abor­da­gem que tor­ne o dese­jo de um homem pobre e negro por uma mulher bran­ca e rica algo que pos­sa ser expos­to em públi­co sem cau­sar atri­to. O cor­po da mulher bran­ca é uma das pro­pri­e­da­des mais vali­o­sas à ordem soci­al bra­si­lei­ra e seu uso pre­ci­sa ser exclu­si­vo dos homens bran­cos. Indício dis­so é nos­sa mis­ci­ge­na­ção base­a­da em rela­ções nem sem­pre con­sen­su­ais entre homens bran­cos e mulhe­res negras, não em rela­ções entre homens negros e mulhe­res bran­cas. É até difí­cil pen­sar em ambi­en­tes pro­pí­ci­os ao enla­ce sexu­al que sejam fre­quen­ta­dos em pé de igual­da­de por pes­so­as com per­fis tão dife­ren­tes quan­to Yasmin e o por­tei­ro.

Uma das moda­li­da­des da can­ta­da de rua tipi­ca­men­te bra­si­lei­ra – aque­la que par­te de um homem negro e pobre em dire­ção a uma mulher bran­ca e rica – tem menos a ver com a expec­ta­ti­va de esta­be­le­cer um enla­ce sexu­al e mais a ver com uma dis­pu­ta acir­ra­da entre dois pri­vi­lé­gi­os. A can­ta­da é a con­cre­ti­za­ção bru­ta de um con­fli­to soci­al que per­meia boa par­te de nos­sas rela­ções coti­di­a­nas com pes­so­as de outros gru­pos. Através dela, o por­tei­ro rom­pe a con­di­ção de este­ri­li­da­de e invi­si­bi­li­da­de soci­al que lhe é impos­ta, ata­can­do o lado fra­co do sta­tus quo [ou seja, a mulher do bran­co, a mulher do rico] e dei­xan­do cla­ro para ela que, mes­mo por­tei­ro, ele per­ma­ne­ce homem. Diante da humi­lha­ção de clas­se que sofre cons­tan­te­men­te ao ser vis­to como por­tei­ro e não como pes­soa, o por­tei­ro ofe­re­ce sua melhor car­ta­da: sou homem. A estu­dan­te, dian­te da humi­lha­ção de ser vis­ta como obje­to deco­ra­ti­vo e não como pes­soa, reba­te: sou mora­do­ra do pos­to 6, não sou para o seu bico.

É sin­to­má­ti­co que, embo­ra reco­nhe­ça o que sofreu como uma vio­lên­cia, a moça não pen­se em cha­mar a polí­cia nem men­ci­o­ne os direi­tos da mulher, a equi­da­de de gêne­ro. Ela pen­sa é em cha­mar a patroa e fala em res­pei­tar o local de tra­ba­lho. Igualmente sin­to­má­ti­co é o fato de que no âmbi­to do dis­cur­so raci­o­nal, argu­men­ta­ti­vo, só a estu­dan­te tenha vez. Ao lon­go do vídeo, só ela fala, o por­tei­ro no máxi­mo ame­a­ça inter­rom­per. Depois da con­fu­são, a repór­ter de O Globo cap­tu­ra o depoi­men­to da moça, que ganha nome e ende­re­ço. Talvez o por­tei­ro tenha pre­fe­ri­do não dar sua ver­são, mas fato é que o jor­nal não achou neces­sá­rio expli­car a ausên­cia do “outro lado”. O pró­prio nome da colu­na de O Globo onde o vídeo foi pos­ta­do ofe­re­ce uma expli­ca­ção para a ausên­cia do lado do por­tei­ro: tra­ta-se do blog “Gente Boa – Comportamento e mui­ta infor­ma­ção na mais fes­tei­ra e cari­o­ca das colu­nas”. Trata-se de uma colu­na que, como Yasmin, não é para o bico do por­tei­ro.

No fim, o diá­lo­go intei­ro pode­ria ser subs­ti­tuí­do por dois argu­men­tos de auto­ri­da­de que esta­mos lon­ge de supe­rar:

– Tenho um pin­to.

– Moro na Francisco Sá.

 

Juliana Cunha é reda­to­ra do IMS.

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