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09.12.15

A cer­ta altu­ra do docu­men­tá­rio Chico — Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr., o com­po­si­tor inves­te con­tra a nos­tal­gia de um Brasil que já não exis­te (ou que tal­vez nun­ca tenha exis­ti­do). É um movi­men­to sau­dá­vel, ain­da mais num docu­men­tá­rio des­se gêne­ro. Chico defen­de que o país é melhor hoje, a des­pei­to de todos os pro­ble­mas e de todas as con­tra­di­ções. Diz que já não seria pos­sí­vel cri­ar a Bossa Nova no Brasil de hoje, por­que a Bossa Nova era uma músi­ca de eli­te, de Ipanema, e hoje é o Brasil intei­ro que se faz repre­sen­tar pela músi­ca. E por mais que essa músi­ca pos­sa pare­cer pobre ou cafo­na em com­pa­ra­ção com a Bossa Nova, ela repre­sen­ta, mui­to melhor do que a Bossa Nova, o que o Brasil de fato é, em sua diver­si­da­de. E aí, Chico apro­vei­ta para enga­tar em uma pia­da con­tra quem lamen­ta a toma­da dos aero­por­tos pela popu­la­ção que antes esta­va con­fi­na­da às rodo­viá­ri­as. O com­po­si­tor ri dos que guar­dam a nos­tal­gia do tem­po em que era pre­ci­so se arru­mar para fazer via­gens inter­na­ci­o­nais. Hoje, já não bas­ta embar­car em um avião para Paris para esca­par à cafo­ni­ce do Brasil, por­que via­jar de avião tam­bém ficou bre­ga. E a pla­teia ri com ele.

Chico Buarque em cena do docu­men­tá­rio

Há duas coi­sas aí. Uma é a incon­tes­tá­vel demo­cra­ti­za­ção do país, a redu­ção das desi­gual­da­des, a con­quis­ta dos direi­tos, a diver­si­da­de etc. De fato, o país é mui­to melhor e mui­to mais visí­vel do que era. Já não é pos­sí­vel man­ter a fic­ção des­gas­ta­da de uma ter­ra bela, boa, rica e pací­fi­ca, onde as pes­so­as eram feli­zes e as injus­ti­ças, a vio­lên­cia e a pobre­za aca­ba­vam var­ri­das para debai­xo do tape­te. A outra coi­sa tem a ver com a ideia de exce­ção e aí tal­vez vales­se sepa­rar a Bossa Nova, músi­ca de eli­te, de quem ain­da sonha com o tem­po em que os aero­por­tos não eram rodo­viá­ri­as. Porque, ao jun­tar as duas coi­sas, cor­re­mos o ris­co de endos­sar um velho popu­lis­mo que a pró­pria obra de Chico con­tra­diz.

Faz uns meses, numa cida­de­zi­nha do sul da França, qua­se fui tru­ci­da­do por uma pla­teia de fran­ce­ses sexa­ge­ná­ri­os quan­do, em um deba­te sobre lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra con­tem­po­râ­nea, depois de um lin­do con­cer­to de músi­ca bra­si­lei­ra (basi­ca­men­te, Bossa Nova), com ver­sões ori­gi­nais e em fran­cês can­ta­das por duas fran­ce­sas mui­to talen­to­sas, ousei dizer que ado­ra­ria viver naque­le país que elas can­ta­vam, mas que aque­le não era o Brasil que eu conhe­cia.

Uma das can­to­ras se levan­tou da pla­teia para ten­tar se defen­der do que lhe pare­ceu uma crí­ti­ca a sua visão ingê­nua, nos­tál­gi­ca e exó­ti­ca do Brasil. E quan­do fui ten­tar escla­re­cer que não era uma crí­ti­ca, que eu tinha de fato ado­ra­do o show, que­ria ape­nas poder falar do país no qual eu vivo e escre­vo, que já não tem qua­se nada a ver com aque­le que elas can­ta­vam, um senhor se levan­tou e me pediu para calar a boca, por­que eu esta­va estra­gan­do a noi­te. As can­to­ras não ide­a­li­za­vam o Brasil, mas a pla­teia, sim. Uma pla­teia de fran­ce­ses apo­sen­ta­dos, que tam­bém devem ter nos­tal­gia de uma França que já não exis­te e que hoje, con­fron­ta­dos com a cri­se e com o acir­ra­men­to das ten­sões raci­ais, tal­vez não pen­sem duas vezes antes de votar na extre­ma direi­ta.

A ideia de que hoje há de tudo, que se tem aces­so a tudo e que tudo está repre­sen­ta­do é geni­al. É o dis­cur­so da inter­net. Tudo o que antes não tinha lugar ao sol ago­ra está ou pode estar visí­vel. Mas as coi­sas come­çam a se com­pli­car quan­do per­ce­be­mos que nes­se mun­do do sol abso­lu­to, onde tudo pode enfim exis­tir em pé de igual­da­de, com sua pobre­za, sua feiu­ra e sua cafo­ni­ce, no fun­do fal­ta lugar para a exce­ção. Quando por aca­so ela apa­re­ce, a exce­ção é ime­di­a­ta­men­te asso­ci­a­da a eli­tis­mo, ao opos­to do Estado demo­crá­ti­co de Direito. E é inte­res­san­te que Chico diga ago­ra o óbvio que todo mun­do sabe (e sem­pre sou­be) mas não diz nem pre­ci­sa­va dizer: que a Bossa Nova era uma músi­ca de eli­te, que difi­cil­men­te pode­ria ser cri­a­da hoje. De eli­te, cla­ro, mas tam­bém, e sobre­tu­do quan­do sur­giu, de exce­ção.

Por que a exce­ção não cabe nes­se mun­do onde tan­to se alar­deia que tudo cabe e que tudo pode afi­nal exis­tir e ser vis­to? Por que ela é ime­di­a­ta­men­te desau­to­ri­za­da, seja pela con­tra­di­ção de sua ten­dên­cia natu­ral à invi­si­bi­li­da­de num mun­do de visi­bi­li­da­de abso­lu­ta, seja por essa asso­ci­a­ção irre­fle­ti­da a eli­tis­mo e a anti­de­mo­cra­cia? Qual o pro­ble­ma de uma arte de exce­ção, se sua con­di­ção de pos­si­bi­li­da­de é jus­ta­men­te a demo­cra­cia, regi­me da inclu­são das dife­ren­ças e não ape­nas regi­me da mai­o­ria? Por que essa ten­dên­cia a con­fun­dir mai­o­ria e con­sen­so com demo­cra­cia, ain­da mais quan­do se tra­ta de arte? Porque a exce­ção, que é fun­da­men­tal nas artes e que por isso mes­mo pre­ci­sa ser defen­di­da a des­pei­to de gos­tos e ten­dên­ci­as, é tam­bém o que está liga­do ao ris­co, ao dis­fun­ci­o­nal, ao erro e ao fra­cas­so. Nada dis­so com­bi­na com dis­cur­sos poli­ti­ca­men­te edi­fi­can­tes.

Umas das prin­ci­pais per­ver­sões do mun­do con­tem­po­râ­neo tem a ver com a con­fu­são entre essas duas visi­bi­li­da­des: 1) a visi­bi­li­da­de (e o direi­to à exis­tên­cia) do que antes não podia ser vis­to e 2) a visi­bi­li­da­de autor­re­pli­can­te do que quan­to mais se vê mais é vis­to. São duas coi­sas com­ple­ta­men­te dife­ren­tes e, em cer­to aspec­to, con­fli­tan­tes. No pri­mei­ro caso, está a popu­la­ção que antes era segre­ga­da às rodo­viá­ri­as e hoje tem direi­to de aces­so aos aero­por­tos e ao trans­por­te aéreo, como qual­quer cida­dão. No segun­do, está o prin­cí­pio de mer­ca­do ele­va­do à ené­si­ma potên­cia pelos algo­rit­mos que estru­tu­ram a lógi­ca da inter­net: quan­to mais uma coi­sa é vis­ta, mais ela será visí­vel. Ou seja, você ten­de a ver somen­te o que todo mun­do vê, embo­ra a rigor tenha aces­so a tudo. Pela lógi­ca tau­to­ló­gi­ca da inter­net, o que nin­guém aces­sa tor­na-se cada vez mais ina­ces­sí­vel, embo­ra este­ja, em prin­cí­pio, dis­po­ní­vel. É fácil enten­der como as exce­ções são bani­das des­se mun­do da visi­bi­li­da­de total para um lim­bo de invi­si­bi­li­da­de que equi­va­le ao desa­pa­re­ci­men­to e à ine­xis­tên­cia. E nes­se sen­ti­do, asso­ci­ar a exce­ção na arte a eli­tis­mo e a anti­de­mo­cra­cia não aju­da nem demo­cra­ti­za coi­sa nenhu­ma.

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