O poeta e a revolução

Literatura

07.05.13

Em “Nos­so homem em Paris”, oita­vo episó­dio de “Vini­cius — poe­sia, músi­ca e paixão” na Rádio Batu­ta, Vini­cius de Moraes deixa Los Ange­les em meio à morte do pai e ao fim da relação com Tati e se muda para Paris, casa­do com Lila Bôs­coli. Na cap­i­tal france­sa começou a nascer “Orfeu da Con­ceição”.

Vinicius de Moraes

A expul­são de Vini­cius de Moraes do Ita­ma­raty é um episó­dio que sem­pre se prestou a espec­u­lações e lendas. Pelo menos duas ver­sões podem ser con­tadas sobre o caso. Na mais fol­clóri­ca e difun­di­da, o poeta teria sido exon­er­a­do através de um mem­o­ran­do em que o pres­i­dente Arthur da Cos­ta e Sil­va o chama­va de vagabun­do. No livro Chega de saudade, Ruy Cas­tro con­ta que em fins de 1968 Vini­cius rece­beu o comu­ni­ca­do mer­gul­ha­do em sua ban­heira e caiu em pran­tos, pois ado­ra­va o Ita­ma­raty.

Uma segun­da ver­são, basea­da em doc­u­men­tos da ditadu­ra, asse­gu­ra que ele foi víti­ma da Comis­são de Inves­ti­gação Sumária, que em 1969 expur­gou diplo­matas de car­reira sob acusação de serem boêmios ou homos­sex­u­ais. Foi pub­li­ca­da em reportagem do jor­nal O Globo e tam­bém no livro Vini­cius de Moraes, pro­duzi­do pelo Insti­tu­to Cul­tur­al Cra­vo Albin. Nes­ta ver­são, o algoz do poeta seria o embaix­ador Anto­nio Cân­di­do da Câmara Can­to, que pre­sid­iu a tal comis­são inquisido­ra, e o moti­vo ale­ga­do foi alcoolis­mo.

Para quem se inter­es­sa pelo tema, nos últi­mos anos essas duas ver­sões gan­haram cred­i­bil­i­dade difer­ente. A primeira ficou sendo a mais anedóti­ca, e a segun­da a mais séria e cor­re­ta. Recen­te­mente, tive opor­tu­nidade de vas­cul­har os maços pes­soais de Vini­cius no Ita­ma­raty, os doc­u­men­tos do SNI no Arqui­vo Nacional, o fun­do das polí­cias políti­cas no Arqui­vo do Esta­do do Rio e os acer­vos pri­va­dos de diplo­matas no CPDOC da Fun­dação Getúlio Var­gas.

Sobre o episó­dio especí­fi­co não restou uma doc­u­men­tação con­clu­si­va. Mas as pis­tas deix­adas lev­am a acred­i­tar mais na cul­pa do marechal Cos­ta e Sil­va do que na do embaix­ador Câmara Can­to. Ao que tudo indi­ca, a exon­er­ação foi orde­na­da em instân­cias supe­ri­ores e não pela comis­são do Ita­ma­raty, e o que mais inco­mod­ou os mil­itares foi a supos­ta fal­ta de assiduidade ao tra­bal­ho, e não a pos­tu­ra políti­ca ou o com­por­ta­men­to boêmio do poeta.

Guardiões do Ita­ma­raty

As restrições quan­to ao com­por­ta­men­to boêmio e namorador de Vini­cius começaram a sur­gir den­tro do próprio Ita­ma­raty, antes mes­mo da ditadu­ra mil­i­tar. Em 1963, ain­da no gov­er­no João Goulart, um diplo­ma­ta de car­reira envi­ou car­ta ao min­istro das Relações Exte­ri­ores, João Augus­to Araújo Cas­tro, em que chama­va a atenção para o que con­sid­er­a­va um fato grave.

Segun­do o dela­tor, que assi­na como Car­los Pour­lon, o embaix­ador Paulo Carneiro foi abor­da­do no aero­por­to do Galeão pelos pais de uma jovem de 18 anos que o poeta havia lev­a­do para Paris. Estavam pre­ocu­pa­dos com o des­ti­no da moça. Era Neli­ta de Abreu, quin­ta esposa de Vini­cius. “Os vel­hos, choran­do, implo­raram ao embaix­ador Carneiro que aju­dasse sua fil­ha, ago­ra viven­do em com­pan­hia de tal indi­ví­duo”, escreveu. Con­tin­u­a­va a car­ta dizen­do que não era a primeira jovem a cair em suas mãos, já que, pouco tem­po antes, o poeta “traiu mis­er­av­el­mente um seu ami­go Jorge Var­gas de Andrade, casa­do com uma sen­ho­ra da família Proença”. Era a quar­ta esposa de Vini­cius, Lúcia Proença, de fato sub­traí­da ao ami­go.

O mis­sivista ques­tion­a­va sua des­ig­nação para tra­bal­har na Unesco: “Não com­preen­do como um fun­cionário pos­suidor de tão sór­di­do caráter con­segue des­ig­nação para a Unesco — Paris”. E con­tin­u­a­va com uma acusação aparente­mente con­tra­ditória: “Dizem ago­ra que o tal ?gênio’ bossa nova virou homos­sex­u­al…”. O autor lamen­ta­va a má influên­cia desse tipo de com­por­ta­men­to sobre os jovens diplo­matas e sug­e­ria uma limpeza no Ita­ma­raty, com expur­go dos ped­eras­tas e dos ami­ga­dos, que não tin­ham casa­men­to for­mal: “uns ami­ga­dos com pes­soas disc­re­tas, out­ros, mal ami­ga­dos, afrontan­do despu­do­rada­mente a opinião públi­ca”.

Não hou­ve con­se­quên­cias maiores. A car­ta foi parar na mesa do chefe do depar­ta­men­to de admin­is­tração do min­istério, Azere­do da Sil­veira, que era ami­go de Viní­cius. O fil­ho do min­istro Araújo Cas­tro, Luiz Augus­to, diz que seu pai tam­bém era ami­go e admi­rador do poeta e que esta car­ta “mesquin­ha e odiosa” pode nem ter chega­do às mãos dele. Para o embaix­ador Mar­cos Azam­bu­ja, estu­dioso da história do Ita­ma­raty, o autor da car­ta deve ser algum fun­cionário do min­istério, já que está cheia de jargões da diplo­ma­cia e é for­mata­da como um mem­o­ran­do inter­no. Mas avalia que o autor usou um pseudôn­i­mo, já que não havia fun­cionários com este nome na época, e pelo uso da ortografia anti­ga e a incidên­cia de erros de por­tuguês, provavel­mente seria alguém mais vel­ho e per­ten­cente aos quadros sub­al­ter­nos do Ita­ma­raty.

O fato é que este tipo de man­i­fes­tação gan­haria força nos anos seguintes. Em janeiro de 1966, já durante a ditadu­ra mil­i­tar, o embaix­ador Manoel Pio Cor­rêa assum­iu o car­go de secretário ger­al do min­istério, adotan­do uma pos­tu­ra pouco tol­er­ante com com­por­ta­men­tos que con­sid­er­a­va impróprios. Em seu livro de memórias, O mun­do em que vivi, ele diz que, na época, chamou seu chefe de gabi­nete para lhe dar a seguinte ori­en­tação: “Não gos­to de diplo­matas ped­eras­tas; não gos­to de diplo­matas vagabun­dos; não gos­to de diplo­matas bêba­dos. Quem não se enquadrar em qual­quer dessas três cat­e­go­rias nada tem a recear de mim, mes­mo por suas opiniões políti­cas”. No mes­mo livro, o embaix­ador, que não era mil­i­tar, assume a cul­pa por ter colo­ca­do Vini­cius em licença não remu­ner­a­da, ain­da em 1966, como se verá adi­ante.

Dois anos depois, com o gov­er­no Cos­ta e Sil­va, o decre­to do AI-5 e o con­se­quente acir­ra­men­to do regime, foi cri­a­da a Comis­são de Inves­ti­gação Sumária, medi­da saneado­ra pro­pos­ta pelos mil­itares, que insti­tuíram comis­sões semel­hantes em out­ros min­istérios. No Ita­ma­raty, o obje­ti­vo era expur­gar fun­cionários com con­du­ta incom­patív­el com o que se enten­di­am ser as respon­s­abil­i­dades e o deco­ro da diplo­ma­cia brasileira. A coor­de­nação dos tra­bal­hos coube a Câmara Can­to.

O embaix­ador se pres­ta facil­mente ao papel de vilão, por ter sido um diplo­ma­ta lin­ha-dura e pos­te­ri­or­mente, no Chile, muito próx­i­mo do dita­dor Augus­to Pinochet. Mas o relatório final que entre­gou no dia 7 de março de 1969, com rubri­ca do min­istro das Relações Exte­ri­ores, Mag­a­l­hães Pin­to, não reflete ple­na­mente esse sen­ti­men­to que já bor­bul­ha­va na casa e que foi reforça­do pelo gov­er­no mil­i­tar. Pode-se diz­er que ele foi bran­do em relação ao que os mil­itares esper­avam. Isso fica evi­dente na maneira com que Vini­cius foi trata­do: “Con­sideran­do que a con­du­ta do primeiro secretário Vini­cius de Moraes é incom­patív­el com as exigên­cias e o deco­ro da car­reira diplomáti­ca, mas em atenção a seus méri­tos de homem de letras e artista con­sagra­do, cujo val­or não se descon­hece, a Comis­são propõe o seu aproveita­men­to no Min­istério da Edu­cação e Cul­tura”. De acor­do com a comis­são, ele dev­e­ria ser trans­feri­do, e não exon­er­a­do.

Tão esclare­ce­dor quan­to esse relatório final é um out­ro, pro­duzi­do 20 dias mais tarde pelo depar­ta­men­to de inteligên­cia da Aeronáu­ti­ca, tam­bém acessív­el no Arqui­vo Nacional. O autor não se iden­ti­fi­ca, mas pelas refer­ên­cias tra­ta-se de um coro­nel da Aeronáu­ti­ca infil­tra­do em algu­ma embaix­a­da brasileira.

Segun­do ele, o decre­to que orde­na­va a cri­ação da Comis­são de Inves­ti­gação Sumária foi, de iní­cio, moti­vo de mui­ta apreen­são por boa parte dos diplo­matas, que con­sid­er­avam o AI-5 “um golpe dos gori­las”. Mas o mil­i­tar diz que a tran­quil­i­dade voltou a reinar no Ita­ma­raty quan­do se soube que a comis­são seria cri­a­da no âmbito do próprio min­istério e pre­si­di­da por um embaix­ador. Nesse tex­to, fica níti­da a divisão entre os mil­itares e o pes­soal do Ita­ma­raty. Por mais que vig­o­rasse den­tro da casa uma rejeição aos boêmios e homos­sex­u­ais des­de o gov­er­no João Goulart, o sen­ti­men­to de grupo falou mais alto na ocasião de caça às bruxas pro­movi­da pelos mil­itares. No relatório, o coro­nel afir­ma tex­tual­mente que o códi­go de hon­ra vigente entre os diplo­matas aju­dou a “neu­tralizar a comis­são”, dimin­uin­do o taman­ho do expur­go. Diz que o min­istro Mag­a­l­hães Pin­to teria reduzi­do o número de proces­sos de 34 para 17 — na ver­dade, o relatório final da comis­são pede exon­er­ação de ape­nas 15 diplo­matas (e 33 fun­cionários sub­al­ter­nos) e sug­ere a trans­fer­ên­cia de Vini­cius para o MEC.

No final do rela­to, o mil­i­tar anex­ou uma lista mais ampla com 86 nomes que dev­e­ri­am ser inves­ti­ga­dos, incluin­do o do poeta João Cabral de Melo Neto, vis­to como comu­nista. E acres­cen­tou: “De par com a neces­si­dade de elim­i­nar do serviço públi­co os ele­men­tos impro­bos ou de con­du­ta irreg­u­lar, empen­ha-se por igual o Gov­er­no da Rev­olução em aliviá-lo dos ociosos (…) como era o caso do primeiro secretário Gilber­to Chateaubriand, há poucos dias demi­ti­do a pedi­do, ou é ain­da o caso do não menos notório primeiro secretário Vini­cius de Moraes”.

Não há doc­u­men­tação que mostre o que acon­te­ceu depois dis­so: o coro­nel parece ter sido ouvi­do ape­nas par­cial­mente. No dia 30 de abril de 1969, o Diário Ofi­cial pub­li­cou a lista dos diplo­matas a serem afas­ta­dos. Era muito pare­ci­da com a relação final de Câmara Can­to. Três diplo­matas “acu­sa­dos” de homos­sex­u­al­is­mo e “insanidade men­tal” foram absolvi­dos. E Vini­cius foi o úni­co caso de fun­cionário poupa­do na lista do embaix­ador Can­to, mas exon­er­a­do no decre­to ofi­cial.

Na biografia O poeta da paixão, José Castel­lo tam­bém men­ciona a trans­fer­ên­cia de Vini­cius, mas diz que a incom­pat­i­bil­i­dade de car­gos e funções entre o Min­istério das Relações Exte­ri­ores e o out­ro seria o moti­vo ale­ga­do para que ela não fos­se acei­ta. Ocorre que, em 1957, o min­istro da Edu­cação e Cul­tura, Clóvis Sal­ga­do, já havia pedi­do a trans­fer­ên­cia do poeta, para tra­bal­har em uma comis­são de cin­e­ma. O pedi­do foi nega­do pelo embaix­ador José Car­los de Mace­do Soares sob a ale­gação de que Vini­cius esta­va lota­do em Paris, e rece­bia salário pela Del­e­ga­cia do Tesouro Brasileiro no Exte­ri­or. Na mes­ma respos­ta, diz que a trans­fer­ên­cia pode­ria ser fei­ta quan­do o poeta fos­se removi­do para a Sec­re­taria de Esta­do, local onde ele servia no momen­to da exon­er­ação.

Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto em Paris, nos anos 1970

Vini­cius de Moraes e João Cabral de Melo Neto em Paris, nos anos 1970

Altas esferas do poder

Notí­cia do Cor­reio da Man­hã em março de 1969 infor­ma­va que os nomes apon­ta­dos na Comis­são de Inves­ti­gação Sumária do Ita­ma­raty seri­am sub­meti­dos ao Con­sel­ho de Segu­rança Nacional. Este con­sel­ho mil­i­tar daria a palavra final, o que pode­ria jus­ti­ficar a mudança de punição em relação a Vini­cius. Mas o caso dele não aparece na ata da reunião de 29 de abril, que deu origem às cas­sações do dia 30, e onde não con­s­ta nen­hum diplo­ma­ta. Só que no princí­pio da sessão, o pres­i­dente Cos­ta e Sil­va infor­mou que fez uma triagem nos nomes que seri­am sub­meti­dos ao con­sel­ho naque­le dia. A situ­ação de Vini­cius pode ter sido anal­isa­da pelo próprio pres­i­dente ou pelo seu gabi­nete. “A história que eu sem­pre ouvi falar em casa é que a ordem par­tiu real­mente de Cos­ta e Sil­va”, diz a fil­ha do poeta, Geor­giana de Moraes.

Em sin­to­nia com a tese de que o pedi­do de exon­er­ação veio do andar de cima, o gen­er­al João Bap­tista Figueire­do, em entre­vista ao jor­nal­ista Orlan­do Brito, pub­li­ca­da na revista Veja, afir­mou sobre Vini­cius: “Ele até diz que mui­ta gente do Ita­ma­raty foi cas­sa­da ou por cor­rupção ou por ped­eras­tia. É ver­dade. Mas no caso dele foi por vagabundagem mes­mo. Eu era o chefe da Agên­cia Cen­tral do SNI e rece­bíamos con­stan­te­mente informes de que ele, servin­do no con­sula­do brasileiro de Mon­te­v­idéu, gan­han­do 6 mil dólares por mês, não apare­cia por lá havia três meses. Con­sul­ta­mos o Min­istério das Relações Exte­ri­ores, que nos con­fir­mou a acusação. Checamos e ver­i­fi­camos que ele não saía dos bote­quins do Rio de Janeiro, tocan­do vio­lão, se apre­sen­tan­do por aí, com copo de uísque do lado. Nem pes­tane­jamos. Man­damos brasa”.

A memória do gen­er­al não esta­va boa na ocasião da entre­vista. Vini­cius tra­bal­hou em Mon­te­v­idéu entre agos­to de 1957 e março de 1960, perío­do em que Figueire­do era chefe do 1º Reg­i­men­to de Cav­alar­ia de Guardas em Brasília. O gen­er­al foi chefe da Agên­cia Cen­tral do SNI entre 1974 e 1978, bem depois da exon­er­ação do poeta. Na época do episó­dio, ele não tin­ha nem assum­i­do o Gabi­nete Mil­i­tar da Presidên­cia da Repúbli­ca. Não pode­ria, por­tan­to, estar envolvi­do no caso.

Mas Figueire­do esta­va bem infor­ma­do quan­to às acusações que pesavam sobre Vini­cius no meio mil­i­tar. De fato, ele ficou afas­ta­do por três meses do con­sula­do de Mon­te­v­idéu. Mas essa ausên­cia é jus­ti­fi­ca­da em sua ficha pes­soal pelo então min­istro Horário Lafer em razão de ativi­dades cul­tur­ais que esta­va desen­vol­ven­do no Rio de Janeiro. A segun­da acusação, de não sair dos bote­quins do Rio, tem a ver com out­ro caso já con­ta­do pelo embaix­ador Manoel Pio Cor­rêa.

No livro O mun­do em que vivi, Cor­rêa diz que, quan­do assum­iu a Sec­re­taria Ger­al, em 1966, notou que Vini­cius prati­ca­mente não apare­cia no tra­bal­ho. Mas que se apre­sen­ta­va todas as noites na boite Zum-zum, toman­do vários copos de uísque. Decid­iu con­vo­car o poeta, num horário proposi­tal­mente cedo, em que ele não cos­tu­ma­va estar acor­da­do.

Escreve o embaix­ador: “Apre­sen­tou-se pon­tu­alís­si­ma­mente, cor­retís­si­ma­mente vesti­do de tra­je escuro e gra­va­ta disc­re­ta — soube depois que des­de mais de um ano ele não havia usa­do paletó e gra­va­ta — com a face escan­hoa­da na qual um corte teste­munha­va a pres­sa com que se havia bar­bea­do”.

Cor­rêa diz que colo­cou o poeta em uma poltrona con­fortáv­el, expli­cou que era seu fã, mas que o reg­u­la­men­to da casa impe­dia ao fun­cionário ter out­ra ativi­dade remu­ner­a­da. Com isto, ele dev­e­ria escol­her o Ita­ma­raty ou uma licença não remu­ner­a­da para tratar de assun­tos par­tic­u­lares. Vini­cius teria escol­hi­do a segun­da opção.

Um fato dess­es dev­e­ria estar reg­istra­do em sua ficha pes­soal no Ita­ma­raty. Não está. Mas, como a doc­u­men­tação ref­er­ente ao perío­do mil­i­tar prati­ca­mente desa­pare­ceu, esse ates­ta­do pode ter sido tam­bém extravi­a­do da pas­ta. Pio Cor­rêa, ain­da vivo, mas muito adoen­ta­do, não pôde dar entre­vista para con­fir­mar a história.

Na biografia O poeta da paixão, José Castel­lo diz que, nes­sa época, Vini­cius se colo­cou vol­un­tari­a­mente à dis­posição da Fun­dação Ouro Pre­to, lig­a­da ao gov­er­no de Minas. Mas, acaba­do o pra­zo da licença não remu­ner­a­da, bateu várias vezes à por­ta de Pio Cor­rêa para voltar às ativi­dades, sem con­seguir qual­quer respos­ta do embaix­ador. Segun­do a irmã do poeta, Laeti­tia, ele não tin­ha mesa nem cadeira, e se recusa­va a ficar vagan­do pelos corre­dores. Jus­ta­mente neste perío­do veio o AI-5 e a Comis­são de Inves­ti­gação Sumária.

A imagem de vagabun­do que Vini­cius man­tinha entre os mil­itares esta­va asso­ci­a­da a ess­es dois episó­dios. O primeiro, dos três meses de ausên­cia em Mon­te­v­idéu, jus­ti­fi­ca­do em sua ficha. O segun­do força­do pela intran­sigên­cia do secretário ger­al. Mas foi essa imagem, provavel­mente, que o lev­ou à exon­er­ação, orde­na­da em algu­ma instân­cia supe­ri­or do gov­er­no, talvez pelo próprio pres­i­dente da Repúbli­ca. Fos­se pela comis­são que expur­gou homos­sex­u­ais e alcoóla­tras do Ita­ma­raty, ele teria chega­do até a aposen­ta­do­ria como fun­cionário do Min­istério da Cul­tura.

* Marce­lo Bor­toloti, jor­nal­ista, é mestre em Artes e doutoran­do em Lit­er­atu­ra pela UFRJ.

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