O “filme europeu” de Jorge Furtado

No cinema

07.08.15

De um filme de Jorge Fur­ta­do o espec­ta­dor acos­tu­mou-se a esper­ar uma hábil mis­tu­ra de humor, críti­ca social e met­alin­guagem, ou ao menos uma brin­cadeira esper­ta sobre os (des)caminhos entre o real e sua rep­re­sen­tação. Pois bem: Real beleza, seu novo reben­to, tem pouco ou nada de tudo isso.

A história de João (Vladimir Brich­ta), fotó­grafo em crise que per­corre o inte­ri­or do Rio Grande do Sul em bus­ca da jovem mod­e­lo ide­al, é o que se pode­ria chamar de dra­ma out­on­al, de rit­mo caden­ci­a­do, luz oblíqua, cores esmae­ci­das. É, de cer­ta for­ma, o “filme europeu” de Jorge Fur­ta­do, e não por aca­so traz à memória (pelo menos à min­ha) obras cre­pus­cu­lares como Iden­ti­fi­cação de uma mul­her, de Anto­nioni, e Beleza rouba­da, de Bertoluc­ci. A pais­agem da ser­ra gaúcha con­tribui para essa atmos­fera.

Ten­sões amorte­ci­das

O enre­do é sim­ples: depois de tes­tar cen­te­nas de ado­les­centes, o fotó­grafo encon­tra no inte­ri­or a garo­ta per­fei­ta (Vitória Estra­da), que mora numa casa rur­al com os pais, um vel­ho int­elec­tu­al cego (Fran­cis­co Cuo­co) e uma mul­her del­i­ca­da e muito mais jovem (Adri­ana Esteves).

O pai relu­ta em autor­izar a fil­ha a seguir car­reira, uma atração amorosa nasce entre o fotó­grafo e a mãe da garo­ta. Dessa situ­ação, o dire­tor pode­ria ter explo­rado vários con­fli­tos pos­síveis: o dra­ma do adultério, a von­tade da fil­ha de livrar-se do pai, um even­tu­al ciúme entre mãe e fil­ha. Mas tudo isso, de cer­to modo, é abor­ta­do, ou ao menos amorte­ci­do, esvazi­a­do de atri­to, de fricção – como se toda ten­são tivesse se esgo­ta­do, ou tido sua catarse, no aces­so de fúria da sequên­cia de aber­tu­ra.

Adriana Esteves e Vitoria Strada em cena de Real Beleza | Fabio Rebelo/Divulgação

Fugaci­dade e per­manên­cia

Jorge Fur­ta­do parece mais inter­es­sa­do em jog­ar com alguns antag­o­nis­mos mais abstratos ou lógi­cos, por assim diz­er: o fotó­grafo e o int­elec­tu­al cego (que no entan­to guar­da na memória, “bor­giana­mente”, toda a cul­tura); a casa-bib­liote­ca no meio do mato; o homem que sabe tudo e não pro­duz nada; a fugaci­dade e a per­manên­cia; o ver e o lem­brar. A bela cena em que o vel­ho descreve ao fotó­grafo, com uma minú­cia quase inverossímil, uma foto céle­bre de Carti­er-Bres­son sin­te­ti­za um pouco tudo isso.

Desse modo o filme se tinge de uma melan­co­l­ia ser­e­na, quase exangue, muito dis­tante da vivaci­dade trav­es­sa da fil­mo­grafia ante­ri­or do cineas­ta, seja no cin­e­ma ou na TV, no doc­u­men­tário ou na ficção. Não deixa de ser um gesto de cor­agem essa vira­da, esse aban­dono da chama­da “zona de con­for­to” de uma obra esta­b­ele­ci­da e recon­heci­da. Res­ta saber se se tra­ta de uma mudança defin­i­ti­va de rota – fru­to de maturi­dade ou cansaço – ou se é ape­nas um desvio momen­tâ­neo. Estou curioso para ver o próx­i­mo.

, , , , , , ,