A diferença entre seriedade e sisudez

Correspondência

15.10.12

Tem iní­cio nes­te post uma con­ver­sa entre a pro­fes­so­ra Vilma Arêas e o escri­tor Ronaldo Bressane, que tro­ca­rão cor­res­pon­dên­cia no blog. Clique aqui para ler a car­ta seguin­te.

Caro Ronaldo,

Estou aqui em Berkeley des­de agos­to dan­do dois cur­sos de lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra, um na gra­du­a­ção, outro na pós. Preparei lou­ca­men­te os pro­gra­mas que me deram, mas quan­do che­guei aqui, embo­ra os títu­los das emen­tas da gra­du­a­ção fos­sem os mes­mos, sig­ni­fi­ca­vam outra coi­sa: mui­tos dos meni­nos já tinham esta­do no Brasil, ou pes­qui­san­do, ou em ONGs fazen­do o que cha­mam de tra­ba­lho soci­al, ou por­que estão namo­ran­do um bra­si­lei­ro ou bra­si­lei­ra. Todos ado­ra­ram, que­rem vol­tar, mui­tos que­rem morar no Brasil, tra­ba­lhar etc.

Bom, joguei os pro­gra­mas pela jane­la e con­ver­sei com eles uma sema­na intei­ra para adap­tar os cin­co sécu­los de lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra em três meses (pas­me!) para alu­nos que vêm dos cur­sos os mais diver­sos: soci­o­lo­gia, bio­lo­gia, urba­nis­mo, físi­ca e alguns de lite­ra­tu­ra. Isso já está come­çan­do no mun­do todo, até no Brasil. Aqui os alu­nos são super dis­ci­pli­na­dos. Mas ouça esta:

A moci­nha mexi­ca­na me pro­cu­rou no escri­tó­rio. Tinha cabe­los e olhos pre­tos como a asa da graú­na. Um pou­co gor­du­chi­nha, mui­to boni­ta. Perguntei pro­to­co­lar­men­te: qual é a sua dúvi­da sobre a maté­ria?

Ela ficou me olhan­do cala­da, um ar inde­ci­so. Depois res­pon­deu com outra per­gun­ta:

- Posso te con­tar um segre­do?

Tive von­ta­de de rir.

- Mas é um segre­do que pos­so con­tar aos outros, ou é um segre­do que não pos­so con­tar a nin­guém?

Novo silên­cio.

- Pode con­tar, mas não diga que fui eu.

Achei que era um bom tra­to. Era o seguin­te: me dis­se que cole­gas com quem tinha con­ver­sa­do sobre as aulas comen­ta­ram que me acha­vam às vezes muy gra­ci­o­sa, mui­to engra­ça­da, mas que não podi­am rir.

- Mas por que não podem?

- Porque não é acon­se­lhá­vel rir em sala de aula, não é apro­pri­a­do.

Entendi que não era um segre­do pro­pri­a­men­te, era um reca­do.

- Deixa comi­go, pro­me­ti.

Na aula seguin­te come­cei a aula dizen­do que ia expli­car uma coi­sa mui­to impor­tan­te e que eles não devi­am esque­cer. Era a dife­ren­ça entre seri­e­da­de e sisu­dez.

- Há pes­so­as sisu­das que não são séri­as e pes­so­as séri­as que não são sisu­das.

Eles, serís­si­mos.

- Meninos — dis­se — o riso está libe­ra­do. Podem rir em sala de aula.

Olharam uns para os outros e come­ça­ram a rir com gran­de satis­fa­ção.

Isso, que não esta­va pre­vis­to no pro­gra­ma, foi a coi­sa mais impor­tan­te, por­que rela­xou o cli­ma. Acho até que estão gos­tan­do mais dos tex­tos que levo.

Talvez nos States a pala­vra de ordem deva ser  rela­xar. Ninguém aguen­ta a vida tão admi­nis­tra­da que eles levam e tan­tas ordens e con­tra­or­dens pas­sa­das às cla­ras ou debai­xo do pano. Eu mes­ma, que esta­va enle­va­da com coi­sas bucó­li­cas, per­fu­me do ar, silên­cio, esqui­los cor­ren­do pela cal­ça­da e pelos par­ques, já come­ço a odi­ar o ruí­do dis­cre­to, mas inin­ter­rup­to dos sinais de trân­si­to, per­mi­tin­do ou não a tra­ves­sia da rua. Fico achan­do que estou andan­do em cír­cu­los den­tro de um reló­gio que sobre­voa a cida­de.

Até a pró­xi­ma, abra­ço,

Vilma

P.S.: Lavei a alma com o resul­ta­do do pri­mei­ro tur­no em Sampa.

* Na ima­gem que ilus­tra a home des­se post: a Universidade de Berkeley.