Carol, A grande aposta e a insanidade americana

No cinema

29.01.16

Dois “fil­mes do Oscar”, ambos per­fei­ta­men­te assis­tí­veis, nenhum deles ple­na­men­te satis­fa­tó­rio, ao menos para mim: Carol, de Todd Haynes, e A gran­de apos­ta, de Adam McKay. Comecemos por Carol.

A his­tó­ria, base­a­da no roman­ce O pre­ço do sal, de Patricia Highsmith, e ambi­en­ta­da na Nova York da vira­da dos anos 1940 para os 50, tem algo de déjà vu: o envol­vi­men­to amo­ro­so entre uma rica­ça casa­da e mãe (Cate Blanchett, lumi­no­sa como sem­pre) e uma jovem ven­de­do­ra de loja e aspi­ran­te a fotó­gra­fa (Rooney Mara).

Toda a ten­são dra­má­ti­ca pro­vém do des­com­pas­so entre esse amor e o mun­do orde­na­do e coer­ci­ti­vo em que ele se desen­vol­ve, no qual os papeis sexu­ais e soci­ais têm uma defi­ni­ção pre­ci­sa. Uma bre­ve alu­são, logo no iní­cio, ao Comitê de Atividades Antiamericanas faz a pon­te entre a para­noia anti­co­mu­nis­ta do macarthis­mo e a defe­sa feroz da tra­di­ci­o­nal famí­lia ame­ri­ca­na.

O divór­cio soci­al se tra­duz de for­ma agu­da no imi­nen­te divór­cio par­ti­cu­lar entre Carol, a bur­gue­sa casa­da, e seu mari­do rico (Kyle Chandler), con­ser­va­dor e auto­ri­tá­rio como con­vi­nha a um che­fe de famí­lia de sua clas­se. No cen­tro do con­fli­to, a filhi­nha do casal.

Estética do des­com­pas­so

O que ele­va o fil­me do mero melo­dra­ma mili­tan­te a uma outra coi­sa é, jus­ta­men­te, sua esté­ti­ca. A deli­ca­de­za e a ele­gân­cia da dire­ção de arte e da foto­gra­fia, mui­to mais do que cum­prir um papel deco­ra­ti­vo, de embe­le­za­men­to, cri­am uma atmos­fe­ra que cons­ti­tui a obra e a jus­ti­fi­ca. Uma atmos­fe­ra ao mes­mo tem­po sua­ve e pun­gen­te.

Falou-se da pro­xi­mi­da­de esté­ti­ca do fil­me com a pin­tu­ra de Edward Hopper, e o pró­prio dire­tor de foto­gra­fia Edward Lachman dis­se que sua prin­ci­pal refe­rên­cia foi o fotó­gra­fo de ima­gens fixas Saul Leiter (1923–2013), um pio­nei­ro no uso esté­ti­co da cor na cap­ta­ção de cenas urba­nas. Vidros molha­dos ou emba­ça­dos pelo vapor, refle­xos, luz refra­ta­da ou oblí­qua, tudo isso apa­re­ce, com for­te efei­to emo­ci­o­nal, nas fotos de Leiter – e no fil­me de Todd Haynes.

A apro­xi­ma­ção com Hopper se dá não ape­nas em ter­mos pura­men­te cro­má­ti­cos (as cores esma­e­ci­das, em que a emer­gên­cia pon­tu­al de um ver­me­lho ou um ama­re­lo adqui­re pun­gên­cia dra­má­ti­ca), mas sobre­tu­do na ambi­ên­cia de aquá­rio, na atmos­fe­ra melan­có­li­ca que acen­tua o esco­ar do tem­po e a soli­dão do indi­ví­duo no cená­rio urba­no. Um desa­cer­to aná­lo­go ao que as pro­ta­go­nis­tas expe­ri­men­tam com seu tem­po e lugar.

O sub­te­ma da foto­gra­fia, ati­vi­da­de que a jovem aman­te pra­ti­ca lin­da­men­te dian­te dos nos­sos olhos, assu­me even­tu­al­men­te o pri­mei­ro pla­no; fun­do e figu­ra se con­fun­dem.

Mas é um fil­me que se pres­ta a lei­tu­ras equi­vo­ca­das ou frus­tran­tes. O admi­ra­dor de fil­mes ante­ri­o­res de Todd Haynes, como Velvet gold­mi­ne Não estou lá, em que era mais evi­den­te a inqui­e­ta­ção cri­a­do­ra – e pro­vo­ca­do­ra – do dire­tor, podem ver em Carol uma ren­di­ção ao cine­ma mains­tre­am. O espec­ta­dor mais ingê­nuo ou desa­ten­to pode con­si­de­rá-lo ape­nas mais um melo­dra­ma (exan­gue, amor­te­ci­do) sobre “o amor que não ousa dizer seu nome”. Paciência. Um fil­me é tan­tos fil­mes quan­tos são seus espec­ta­do­res.

A gran­de apos­ta e o MacGuffin

Filmes sobre o mun­do intrin­ca­do da espe­cu­la­ção finan­cei­ra já for­mam qua­se um gêne­ro à par­te no cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no, engen­dran­do des­de melo­dra­mas mani­queís­tas como Wall Street, de Oliver Stone, até um ensaio sobre a insa­ni­da­de e o vício do dinhei­ro como O lobo de Wall Street, de Scorsese.

Em casos assim, geral­men­te os mean­dros do mer­ca­do e seu incom­pre­en­sí­vel fun­ci­o­na­men­to são, no fun­do, meros pre­tex­tos, gati­lhos para o desen­vol­vi­men­to dra­má­ti­co e o deli­ne­a­men­to dos per­so­na­gens. Aquilo, em suma, que Hitchcock cha­ma­va de MacGuffin. Para quem não conhe­ce o con­cei­to, aqui vai a expli­ca­ção que o cine­as­ta deu numa pales­tra de 1939: “Poderia ser um nome esco­cês, tira­do de uma his­tó­ria sobre dois homens num trem. Um deles diz: ‘O que é esse embru­lho no baga­gei­ro?’ O outro res­pon­de: ‘Ah, é um MacGuffin’. O pri­mei­ro per­gun­ta: ‘O que é um MacGuffin?’ ‘Bem’, diz o outro homem, ‘é um apa­re­lho para apri­si­o­nar leões no nor­te da Escócia’. O pri­mei­ro homem diz: ‘Mas não há leões no nor­te da Escócia’, e o outro repli­ca: ‘Bom, então não é um MacGuffin’. Ou seja, um MacGuffin não é coi­sa algu­ma.”

Fecha parên­te­se. Em A gran­de apos­ta, ao con­trá­rio, a arti­fi­ci­al bolha imo­bi­liá­ria que estou­rou nos Estados Unidos em 2008, desen­ca­de­an­do uma cri­se econô­mi­ca inter­na­ci­o­nal, não é mero MacGuffin, pois boa par­te da nar­ra­ti­va do fil­me bus­ca expli­car o que esta­va acon­te­cen­do no mer­ca­do, e os per­so­na­gens pra­ti­ca­men­te só falam e agem em fun­ção dis­so.

É ine­vi­tá­vel que o espec­ta­dor lei­go no assun­to, como eu, se per­ca um pou­co naque­le cipo­al de hipo­te­cas, ISDA, CDOs etc. O que fica dis­so tudo é que alguns visi­o­ná­ri­os per­ce­be­ram antes de todo mun­do que o cas­te­lo de car­tas da espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria esta­va pres­tes a des­mo­ro­nar. Destacam-se, entre eles, os con­sul­to­res de inves­ti­men­tos (ou seja lá como se cha­ma o que fazem) Michael Burry (Christian Bale) e Mark Baum (Steve Carell), cada um no seu can­to, sem conhe­cer as inves­ti­ga­ções do outro.

Heróis ambí­guos

São per­so­na­gens que você já conhe­ce de outros fil­mes, sejam eles poli­ci­ais ou aven­tu­ras de fic­ção cien­tí­fi­ca: aque­les out­si­ders, vis­tos como esqui­si­tos, fre­quen­te­men­te escar­ne­ci­dos por suas idei­as hete­ro­do­xas, e que no fim pro­vam estar cer­tos.

As “novi­da­des” nes­se aspec­to são duas. Primeiro, tra­ta-se de per­so­na­gens ambí­guos, que ao mes­mo tem­po dese­jam aler­tar para o desas­tre e tirar pro­vei­to dele. Segundo, sua cla­ri­vi­dên­cia não con­duz a um final feliz, uma vez que o sis­te­ma polí­ti­co-finan­cei­ro absor­ve a cri­se de manei­ra a fazer os pobres paga­rem a con­ta, como sem­pre. (E aqui não se tra­ta de nenhum spoi­ler, ao menos para quem sabe mini­ma­men­te o que se pas­sou nes­te pla­ne­ta nos últi­mos anos.)

Outra carac­te­rís­ti­ca dis­tin­ti­va de A gran­de apos­ta é sua mis­tu­ra de ensaio e fic­ção, que se con­ver­te em meta­lin­gua­gem quan­do algum per­so­na­gem – em espe­ci­al o cíni­co inves­ti­dor Jarred Vennett (Ryan Gosling), do Deutsche Bank – fala dire­ta­men­te para a câme­ra comen­tan­do a ação ou o que está por trás dela. Não se tra­ta pro­pri­a­men­te de uma novi­da­de, se lem­brar­mos a intro­du­ção didá­ti­ca de Cassino e as inter­pe­la­ções do per­so­na­gem de DiCaprio aos espec­ta­do­res em O lobo de Wall Street, ambos de Scorsese.

Nada dis­so, em si, é um pro­ble­ma, nem tam­pou­co uma solu­ção. A ques­tão, a meu ver, é que a arti­cu­la­ção entre essas vári­as ins­tân­ci­as – a radi­o­gra­fia da cri­se, a crí­ti­ca ao sis­te­ma, o dra­ma dos per­so­na­gens – nem sem­pre se dá de for­ma orgâ­ni­ca, isto é, de modo a entre­ter, infor­mar e emo­ci­o­nar o públi­co. Pelo menos comi­go isso não acon­te­ceu. As his­tó­ri­as pes­so­ais de per­so­na­gens como Burry e Baum soam como gan­chos dra­má­ti­cos arti­fi­ci­ais e frá­geis. E con­fes­so que, em ter­mos de com­pre­en­são do mer­ca­do finan­cei­ro, saí do cine­ma qua­se tão obtu­so quan­to entrei. Mas isso, cla­ro, é um pro­ble­ma meu.

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