À maneira de Braga: O taxista de cabelo branco, por Antonio Prata

Literatura

17.06.11

O Instituto Moreira Salles aca­ba de lan­çar uma nova edi­ção dos seus Cadernos de Literatura Brasileira. O núme­ro 26 da série, ini­ci­a­da em 1996, é dedi­ca­do a Rubem Braga, o mai­or cri­a­dor da moder­na crô­ni­ca bra­si­lei­ra. Em meio às home­na­gens pres­ta­das pelo IMS ao cro­nis­ta, o blog do IMS con­vi­dou os escri­to­res Vanessa Barbara, Antonio Prata, Chico Mattoso e Cecília Giannetti para cri­ar um tex­to à manei­ra de Rubem Braga.

Abaixo, segue a cola­bo­ra­ção de Antonio Prata, para quem “a ter­nu­ra está qua­se sem­pre pre­sen­te nas crô­ni­cas do Rubem Braga” e “árvo­res fru­tí­fe­ras tam­bém são bem comuns”. Sobre o tex­to que escre­veu, diz ele:  “Não sei se con­se­gui ser ter­no, mas aos menos me garan­ti com as goi­a­bei­ras, jaquei­ras, uma man­guei­ra e um aba­ca­tei­ro”.

O taxis­ta de cabe­lo bran­co

Dos taxis­tas aqui da esqui­na, só sei o nome do Adão. Na pri­mei­ra vez que peguei seu táxi, ele apon­tou para fora da jane­la, dis­se “olha só, as goi­a­bei­ras da Henrique Schaumann tão car­re­ga­das” e, quan­do repa­rei nas goi­a­bas que bro­ta­vam no can­tei­ro cen­tral da ave­ni­da, já éra­mos ami­gos de infân­cia. Adão conhe­ce todas as árvo­res fru­tí­fe­ras espa­lha­das pela cida­de e, sem­pre que me leva a algum lugar, faz um rela­tó­rio deta­lha­do de seu espar­so pomar: con­ta que as jacas do par­que da Luz tão qua­se cain­do em cima dos car­ros, que a man­guei­ra da ave­ni­da Pacaembu tá atrain­do um ban­do de mari­ta­cas, que hou­ve um bafa­fá na zona les­te por­que a pre­fei­tu­ra ame­a­çou cor­tar um aba­ca­tei­ro, lá na rua Padre Adelino.

Muito dife­ren­te do Adão é o taxis­ta de cabe­lo bran­co. Seu nome não sei e admi­to que, até a últi­ma quin­ta, não esta­va inte­res­sa­do em saber. Havia, entre mim e o taxis­ta de cabe­lo bran­co, um cer­to des­con­for­to. Veja, não sou homem de ali­men­tar ini­mi­za­des e cos­tu­mo pre­fe­rir o acor­do ao con­fli­to, mas em algu­mas oca­siões não há con­sen­so pos­sí­vel: antes da últi­ma Copa do Mundo eu recla­mei do Dunga, o sujei­to resol­veu apoi­ar o obtu­so trei­na­dor e, irri­ta­do, fez um lon­go dis­cur­so defen­den­do a supre­ma­cia da pru­dên­cia, da ordem e da dis­ci­pli­na sobre a ousa­dia, a cri­a­ti­vi­da­de e a bele­za — como eu pode­ria ficar cala­do?

Estou lon­ge de ser um aven­tu­rei­ro. Sou casei­ro e covar­de como um coc­ker-spa­ni­el. Talvez por isso mes­mo, por pro­cu­rar no mun­do o que não tra­go em mim, é que pre­fi­ra o gol de bici­cle­ta, o “Soneto da fide­li­da­de” e um solo de cha­lei­ra de Hermeto Pascoal à sele­ção ale­mã, aos enxa­dris­tas rus­sos, à pon­te Rio-Niterói. O taxis­ta de cabe­lo bran­co, con­tu­do, não pen­sa como eu. Quando ten­tei con­ven­cê-lo de que o fute­bol não tinha nenhum sen­ti­do senão pela bele­za, ele riu, e, como todos os arau­tos da medi­o­cri­da­de, men­ci­o­nou 82 com des­pre­zo. Eu afir­mei que pre­fe­ria a der­ro­ta de 82 à vitó­ria de 94, e foi aí que a con­ver­sa melou de vez; ele bufou, ligou o rádio e aque­le ruí­do ins­ta­lou-se entre nós, defi­ni­ti­va­men­te.

Não, não defi­ni­ti­va­men­te. Na últi­ma quin­ta, eu e o taxis­ta de cabe­lo bran­co está­va­mos na Vinte e Três de Maio, a cami­nho de Congonhas, imer­sos em nos­sa silen­ci­o­sa dis­cór­dia, quan­do tocou meu celu­lar. Durante os últi­mos meses, eu e minha mulher vínha­mos pro­cu­ran­do uma lugar para morar. Depois de um sem-núme­ro de tris­tes visi­tas a quin­tais azu­le­ja­dos, pesa­de­los de cere­jei­ra & esqua­dri­as de alu­mí­nio, final­men­te encon­tra­mos uma lin­da casa com jar­dim, uma mesa à som­bra duma jabu­ti­ca­bei­ra, onde vis­lum­bra­mos cafés da manhã que entra­ri­am pela tar­de, almo­ços que entra­ri­am pela noi­te e os filhos, cla­ro, que em bre­ve entra­rão em nos­sas vidas. Fizemos uma pro­pos­ta um pou­co abai­xo do que o pro­pri­e­tá­rio esta­va pedin­do, ele ficou de pen­sar, sumiu e, quan­do já está­va­mos qua­se desis­tin­do de rece­ber uma res­pos­ta, eis que meu celu­lar come­ça a tre­mer e gri­tar, exi­bin­do o nome do homem na teli­nha, peque­no orá­cu­lo de cris­tal líqui­do. Atendi, ner­vo­so. Ele dis­se que topa­va, fecha­mos negó­cio.

Quando des­li­guei, já está­va­mos no aero­por­to, o car­ro encos­tan­do no meio-fio, com o pis­ca-aler­ta liga­do. “Comprei uma casa!”, eu dis­se, exul­tan­te, ao moto­ris­ta. “Vou pegar dinhei­ro do ban­co, vou pagar juros por mui­tos e mui­tos anos, mas terei uma casa!”. O taxis­ta de cabe­lo bran­co me sor­riu, genui­na­men­te feliz. “Não tem pro­ble­ma pagar pro ban­co. Importante é que a casa é sua. É um gran­de pas­so na vida.”

Sorri de vol­ta, enten­den­do e com­par­ti­lhan­do a ale­gria de meu ex-antí­po­da: endi­vi­dar-se para garan­tir um teto e um jar­dim era o meio cami­nho entre nós dois, um ato con­ten­do a mes­ma medi­da de ousa­dia e pru­dên­cia. Apertamos as mãos e fui para o Rio de Janeiro, con­ten­te com meu futu­ro e acre­di­tan­do na con­cór­dia uni­ver­sal.

* Antonio Prata nas­ceu em 1977, em São Paulo. É cola­bo­ra­dor do jor­nal Folha de S.Paulo. Publicou livros de con­tos e crô­ni­cas como Meio inte­lec­tu­al, meio de esquer­da, As per­nas da tia Corália, Adulterado.

* Na ima­gem da home que ilus­tra este blog: Antonio Prata em foto de Karime Xavier/Folhapress

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