Branco sai, preto fica – o filme do ano

No cinema

20.03.15

Branco sai, pre­to fica, de Adirley Queirós, é um fil­me extra­or­di­ná­rio na acep­ção ple­na da pala­vra: você não encon­tra­rá algo pare­ci­do em nenhu­ma cine­ma­to­gra­fia. Já o comen­tei bre­ve­men­te aqui quan­do foi exi­bi­do – e con­sa­gra­do – no fes­ti­val de Brasília do ano pas­sa­do. Agora que está entran­do em car­taz em vári­as cida­des bra­si­lei­ras, vale a pena vol­tar a ele.

Mais do que bor­rar a fron­tei­ra entre docu­men­tá­rio e fic­ção, Branco sai a sub­ver­te “a par­tir de den­tro”, ao expor o que há de fic­ção no que cha­ma­mos de rea­li­da­de e o que há de rea­li­da­de na mais des­vai­ra­da fabu­la­ção. No cen­tro de tudo está uma noi­te de 1986 que não aca­bou: aque­la em que a polí­cia repri­miu com vio­lên­cia um bai­le de black music na Ceilândia, cida­de-saté­li­te de Brasília, dei­xan­do uma por­ção de feri­dos. A fra­se que dá títu­lo ao fil­me saiu da boca de um poli­ci­al naque­la noi­te fatí­di­ca. Os bran­cos podi­am ir embo­ra, os pre­tos fica­vam para apa­nhar.

Documento, espi­o­na­gem, futu­ris­mo

Dois des­ses feri­dos que tive­ram sua vida trans­tor­na­da, ambos negros, con­du­zem a nar­ra­ti­va, viven­do mais ou menos seus pró­pri­os papéis: o DJ Marquim da Tropa, tor­na­do para­plé­gi­co e pre­so a uma cadei­ra de rodas, e o arte­são Chockito, que per­deu uma per­na no inci­den­te e que usa suca­ta para pro­du­zir pró­te­ses mecâ­ni­cas para outros muti­la­dos.

O fil­me se desen­vol­ve então em vári­os pla­nos simul­tâ­ne­os, acom­pa­nhan­do de modo minu­ci­o­so o dia a dia dos pro­ta­go­nis­tas, recu­pe­ran­do em flashes o acon­te­ci­men­to trau­má­ti­co de trin­ta anos atrás e dei­xan­do entre­ver a arti­cu­la­ção de uma ousa­da e des­ca­be­la­da ação polí­ti­ca de sub­ver­são do sta­tus quo.

Sem dei­xar de lado o regis­tro docu­men­tal, somos intro­du­zi­dos no ter­re­no da fic­ção cien­tí­fi­ca, da espi­o­na­gem, da fan­ta­sia futu­ris­ta. Entra em cena um ter­cei­ro per­so­na­gem, Dimas Cravalanças (Dilmar Durães, tam­bém negro), que vol­ta de um futu­ro dis­tan­te para cole­tar pro­vas das atro­ci­da­des do Estado bra­si­lei­ro con­tra os excluí­dos.

País-gam­bi­ar­ra

Carlos Reichenbach cos­tu­ma­va dizer – pos­si­vel­men­te eco­an­do Paulo Emilio Salles Gomes – que o melhor cine­ma bra­si­lei­ro é aque­le que faz de sua pró­pria escas­sez de recur­sos ele­men­to de inven­ção e cri­a­ção. Branco sai, pre­to fica é a pro­va cabal des­sa for­mu­la­ção. Nele, a pobre­za tec­no­ló­gi­ca, mais do que um han­di­cap a ser ven­ci­do, é uma neces­si­da­de de expres­são. Cheias de fios sol­tos e remen­da­das com fita iso­lan­te, as enge­nho­cas impro­vi­sa­das pelos per­so­na­gens para lan­çar bom­bas e via­jar no tem­po são não ape­nas um mani­fes­to esté­ti­co-polí­ti­co de afir­ma­ção do ima­gi­ná­rio popu­lar, como tam­bém, de cer­to modo, o retra­to de um país pro­vi­só­rio, fei­to nas coxas, o país-gam­bi­ar­ra cha­ma­do Brasil.

Assim, a nave na qual Cravalanças via­ja no tem­po não pas­sa de um con­têi­ner que saco­le­ja num ter­re­no bal­dio. A pró­pria Ceilândia, cená­rio e per­so­na­gem do fil­me, traz des­de a ori­gem a mar­ca des­se crô­ni­co aco­cham­bra­men­to. Seu nome vem da sigla CEI – Campanha de Erradicação de Invasões. É uma cida­de arti­fi­ci­al, cri­a­da para alo­jar famí­li­as de ope­rá­ri­os que cons­truí­ram Brasília e que, sem mora­dia, tinham ocu­pa­do áre­as da capi­tal. Ou seja: uma cida­de fun­da­da na exclu­são. Em Brasília, como nas áre­as nobres de todas as nos­sas metró­po­les, inver­te-se o títu­lo do fil­me: pre­to sai, bran­co fica.

O méri­to mai­or de Adirley Queirós e sua equi­pe tal­vez tenha sido o de extrair de toda essa feiu­ra, sujei­ra e infâ­mia uma espe­ran­ça sel­va­gem, um humor des­pu­do­ra­do, uma bele­za para­do­xal.

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