No cinema

O lugar do negro

José Geraldo Couto

17.02.17

“A história do negro na América é a história da América – e não é uma história bonita.” A frase, dita pelo escritor James Baldwin (1924-87) a certa altura de Eu não sou seu negro, sintetiza muito bem o espírito do esplêndido documentário de Raoul Peck que concorre ao Oscar da categoria.

Risco e controle

José Geraldo Couto

14.02.17

Estão em cartaz dois belos filmes brasileiros que, por seus contrastes, mostram a diversidade de caminhos que o cinema pode seguir, sem que um deles seja necessariamente mais correto ou oportuno do que outro. Estou falando de Redemoinho (foto), estreia cinematográfica do aclamado diretor de minisséries televisivas José Luiz Villamarim (Justiça, Amores roubados), e de A cidade onde envelheço, primeiro longa-metragem de ficção de Marília Rocha, conhecida por ensaios poético-documentais como Aboio e A falta que me faz.

O mundo como teatro

José Geraldo Couto

10.02.17

Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, que concorre ao Oscar de filme estrangeiro depois de ter conquistado uma porção de prêmios em festivais como Cannes, San Sebastián e Toronto, pode ser descrito como uma comédia amarga sobre o nosso tempo. Mas, como veremos, é muito mais do que isso. Ainda estamos em fevereiro, mas já se pode dizer sem medo que é um dos grandes filmes do ano.

Renoir, amigo dos homens

José Geraldo Couto

03.02.17

Uma obra única e essencial, de encanto perene, está quase completa na grande retrospectiva A vida lá fora: o cinema de Jean Renoir, destacando aquilo que lhe perpassa e unifica: o infinito interesse por indivíduos concretos, imperfeitos, contraditórios, mais do que por ideias abstratas, enredos dramáticos ou grandes construções estéticas. Descendo vários degraus na escala de grandeza do cinema, entram em cartaz dois filmes norte-americanos candidatos ao Oscar e ambientados no mesmo período: o início da década de 1960.

Tiradentes, o anti-Oscar

José Geraldo Couto

27.01.17

Não vamos falar, ao menos por enquanto, dos famigerados “filmes do Oscar”, que inundam as telas e a mídia todo início de ano. Tem tempo para isso. Hoje é dia de falar da Mostra de Cinema de Tiradentes, a pleno vapor em sua vigésima edição. Entre os festivais brasileiros, é o que aposta mais radicalmente no cinema autoral, de invenção, de experiência, ou seja lá como se queira chamar esse punhado de filmes estranhos ao mercado e avessos às classificações.

A hora da comédia, a comédia da hora

José Geraldo Couto

20.01.17

“Numa terra radiosa vive um povo triste”, escreveu celebremente Paulo Prado no começo de seu Retrato do Brasil. Talvez por isso tenhamos tanta necessidade de rir – de nós mesmos, por suposto. No atual e conturbado momento em especial, as comédias estão com tudo: dos dez filmes brasileiros de maior bilheteria em 2016, nada menos que sete pertencem ao gênero. O fenômeno da hora é Minha mãe é uma peça 2, de César Rodrigues, que já passou dos seis milhões de espectadores.

O sonho recauchutado

José Geraldo Couto

13.01.17

E o que chama a atenção é justamente o modo como Hollywood, de tempos em tempos, a pretexto de questionar ou problematizar seus clichês, acaba por reafirmá-los. Em La la land essa operação abarca alguns dos mais recorrentes lugares-comuns do imaginário americano: a máxima de que vale a pena “acreditar em seus sonhos”, a ideia de que no meio da multidão há alguém especial para cada pessoa, o mito do self made man (ou woman). Não há nada de muito revolucionário aqui, portanto.

Dois olhares sobre as ruínas

José Geraldo Couto

06.01.17

O ano cinematográfico começa bem. Dois filmes de pungente atualidade estão em cartaz nos cinemas brasileiros: O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, Urso de Prata de melhor direção em Berlim, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes. São bem distintos em termos de temática, ambientação e estilo, mas talvez haja entre eles um ponto comum: a angústia diante dos rumos que a vida está tomando na Europa e no mundo.

2016, entre sinistro e sublime

José Geraldo Couto

30.12.16

Num ano de grandes traumas no Brasil e no mundo, o cinema, se não serviu para consertar nada, ao menos nos ajudou a manter aguçados o olhar e a sensibilidade. Atendo-nos aos títulos lançados no circuito comercial, alguns veteranos fundamentais (Bellocchio, Verhoeven, Almodóvar, Clint Eastwood, Woody Allen) marcaram presença, ao lado de estreantes promissores, como Robert Eggers, do surpreendente A bruxa.

Tonacci, cinema dos grandes

José Geraldo Couto

23.12.16

Hoje é preciso falar de Andrea Tonacci (1944-2016), o imenso cineasta que acaba de nos deixar. Num ano de graves perdas para o cinema brasileiro, esta foi uma das mais cruéis, pois Tonacci vivia uma fase de grande energia e criatividade, com vários projetos em mente ou em andamento. Muito querido por seus amigos, colegas e colaboradores (melhor seria dizer que todos os seus colegas e colaboradores tornavam-se instantaneamente seus amigos), o cineasta viu crescer nas últimas décadas uma legião de jovens admiradores, estimulados por seu trabalho, suas ideias e seu afeto.