Ela e o mal-estar do simulacro

No cinema

25.02.14

A esta altu­ra qua­se todo mun­do já sabe que Ela mos­tra o rela­ci­o­na­men­to amo­ro­so entre um homem soli­tá­rio (Joaquin Phoenix) e um super­sis­te­ma ope­ra­ci­o­nal de com­pu­ta­dor, cha­ma­do Samantha e dota­do com a voz sen­su­al de Scarlett Johansson.

http://www.youtube.com/watch?v=hX09Kz7BAlU

Pois bem. Sempre fiquei com um pé atrás em rela­ção aos fil­mes de Spike Jonze (Quero ser John Malkovich, Adaptação), que em geral me pare­ce­ram enge­nho­sos e vazi­os em sua cons­tru­ção arti­fi­ci­o­sa­men­te labi­rín­ti­ca.

Mas des­ta vez, a meu ver, o dire­tor encon­trou um encai­xe feliz entre seu assun­to — o mun­do das rela­ções vir­tu­ais — e a manei­ra de plas­má-lo em cine­ma. Vou ten­tar expli­car aos pou­cos.

A pro­ble­má­ti­ca inte­ra­ção afe­ti­va entre huma­nos e seres dota­dos de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al foi abor­da­da das mais dife­ren­tes manei­ras no cine­ma, de Blade run­ner a, jus­ta­men­te, Inteligência arti­fi­ci­al, mas aqui há um pas­so adi­an­te no cami­nho da estra­nhe­za e da com­pli­ca­ção. Se, nos exem­plos ante­ri­o­res, tra­ta­va-se de autô­ma­tos ou repli­can­tes que dis­pu­nham de um cor­po físi­co, em Ela a cri­a­tu­ra por quem Theodore (Phoenix) se apai­xo­na é pura vir­tu­a­li­da­de, só exis­te no espa­ço ciber­né­ti­co.

Essa cir­cuns­tân­cia, que faz o pro­ta­go­nis­ta tra­fe­gar na cor­da bam­ba entre a sani­da­de e a bizar­ri­ce, tam­bém pare­ce dei­xar o fil­me sem­pre no limi­ar do ridí­cu­lo. Mas há uma deli­ca­de­za de toque que impe­de esse dupla que­da (do per­so­na­gem e do fil­me). Como isso se dá?

Mundo assép­ti­co

A pri­mei­ra boa saca­da de Spike Jonze (que tam­bém escre­veu o rotei­ro) foi a de situ­ar sua nar­ra­ti­va numa metró­po­le (Los Angeles) num tem­po pou­co adi­an­te do nos­so, de tal manei­ra que tudo nos pare­ce fami­li­ar, só que com uma tec­no­lo­gia um pou­qui­nho mais avan­ça­da. Assim, antes que tenha­mos tem­po de con­si­de­rar esdrú­xu­lo o envol­vi­men­to de Theodore com sua eté­rea Samantha, per­ce­be­mos que esse tipo de rela­ci­o­na­men­to já é con­si­de­ra­do nor­mal e qua­se cor­ri­quei­ro num mun­do em que as pes­so­as pas­sam a mai­or par­te do tem­po inte­ra­gin­do com máqui­nas, seja no tra­ba­lho ou no lazer.

O modo como esse futu­ro pró­xi­mo se apre­sen­ta no fil­me reme­te ao mun­do assép­ti­co dos games do tipo The Sims: espa­ços orde­na­dos, reti­lí­ne­os, com design moder­no, deco­ra­ção cle­an e ilu­mi­na­ção sua­ve. Os edi­fí­ci­os pare­cem maque­tes, os espa­ços são amplos e lim­pos, os per­so­na­gens se movem de modo cla­ro e pre­vi­sí­vel, como figu­ras de um gran­de jogo vir­tu­al. Até a praia é um ambi­en­te orga­ni­za­do, qua­se geo­mé­tri­co.

Corpo e espí­ri­to

Esse con­tex­to não só tor­na veros­sí­mil, ou qua­se, o roman­ce impos­sí­vel entre Theodore e Samantha, como tam­bém evi­den­cia seus limi­tes. Melhor dizen­do: mos­tra que a impos­si­bi­li­da­de des­se amor é ape­nas a face mais evi­den­te de um des­con­for­to mai­or nes­te mun­do de simu­la­cros em que vive­mos, que é o des­com­pas­so entre cor­po e espí­ri­to (enten­den­do-se espí­ri­to em sen­ti­do amplo, que englo­ba a inte­li­gên­cia, a sen­si­bi­li­da­de e a ima­gi­na­ção). Não por aca­so, a cer­ta altu­ra do fil­me reci­cla-se (lite­ral­men­te) o pen­sa­dor liber­tá­rio Alan Watts (1915–73), que divul­gou no Ocidente filo­so­fi­as ori­en­tais como modo de com­ba­ter o dese­qui­lí­brio corpo/mente/espírito da nos­sa soci­e­da­de.

Antes mes­mo da entra­da em cena de Samantha temos um belo exem­plo des­se des­com­pas­so. No metrô, de vol­ta para casa, Theodore vê, na tela de seu super smartpho­ne, fotos de uma cele­bri­da­de grá­vi­da nua. Já em casa, tam­bém pelo telefone/computador, aces­sa um ser­vi­ço de con­ver­sas eró­ti­cas e, para se exci­tar sexu­al­men­te, ten­ta asso­ci­ar a lem­bran­ça das ima­gens da cele­bri­da­de nua com a voz da mulher com quem está con­ver­san­do. Alguém da esco­la de Frankfurt dis­se que a indús­tria cul­tu­ral pro­me­te a cópu­la e entre­ga a mas­tur­ba­ção. No mun­do infor­ma­ti­za­do, isso é mais ver­da­dei­ro do que nun­ca.

A cena mais cru­ci­al — e cru­ci­an­te — do fil­me tal­vez seja aque­la em que os aman­tes vir­tu­ais recor­rem a uma ter­cei­ra pes­soa, que ser­vi­ria como uma espé­cie de encar­na­ção tem­po­rá­ria de Samantha, numa ten­ta­ti­va deses­pe­ra­da de supe­rar o divór­cio entre maté­ria e dese­jo.

Com momen­tos em que pare­ce pati­nar nos cli­chês de fil­mes român­ti­cos e outros em que enfa­ti­za demais suas idei­as (exem­plos: a amiga/vizinha pre­ci­sa­va ser pro­gra­ma­do­ra de games? Na esca­da do metrô, todos tinham que con­ver­sar com seus res­pec­ti­vos sis­te­mas ope­ra­ci­o­nais?), Ela está lon­ge de ser uma obra-pri­ma. Mas de uma coi­sa nin­guém pode­rá acu­sá-lo: de estar alheio a ques­tões cen­trais do coti­di­a­no e do ima­gi­ná­rio de nos­sa épo­ca.

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