Bom Fim, sem fim

Cinema

31.08.15

Filme sobre um Bom Fim está em car­taz em Porto Alegre e Florianópolis. Para infor­ma­ções atu­a­li­za­das sobre ses­sões em outras cida­des, os rea­li­za­do­res reco­men­dam con­sul­tar a fan­pa­ge do docu­men­tá­rio.

 

Ainda tenho o hábi­to de pas­sar a mão na cica­triz. Fica na cabe­ça, a meio cami­nho entre a coroa do crâ­nio e a nuca. A impres­são, e tenho cer­te­za que é somen­te isso, mera impres­são sub­je­ti­va, é de que a cai­xa cra­ni­a­na ficou um pou­co amas­sa­da bem nes­te pon­to. Mas a cica­triz é uma impres­são con­cre­ta, a impres­são que ficou da feri­da aber­ta pelo cas­se­te­te do bri­ga­di­a­no (poli­ci­al mili­tar, em bom gau­chês) que em dezem­bro de 1992 resol­veu que minha cabe­ça era um exce­len­te alvo duran­te o que entre meus conhe­ci­dos da épo­ca ganhou o nome de “bata­lha da Osvaldo Aranha”. Eu tinha 18 anos e um cer­to Bom Fim ter­mi­na­va.

O recém-lan­ça­do docu­men­tá­rio Filme sobre um Bom Fim, de Boca Migotto, apre­sen­ta com gran­de com­pe­tên­cia tudo que veio antes des­sa épo­ca. A ave­ni­da Osvaldo Aranha é a prin­ci­pal via do Bom Fim, um dos bair­ros mais icô­ni­cos de Porto Alegre. Região de vár­zea que no secu­lo XIX ser­viu de abri­go para escra­vos fugi­dos, na déca­da de 1920 o bair­ro come­çou a rece­ber a comu­ni­da­de judai­ca. Nos anos 1960, por con­ta da (então) pro­xi­mi­da­de com os pré­di­os dos cur­sos de ciên­ci­as huma­nas da UFRGS, pas­sou a ganhar con­tor­nos de boe­mia, con­tes­ta­ção polí­ti­ca e efer­ves­cên­cia cul­tu­ral.

 

 

Filme sobre um Bom Fim é notá­vel em con­tex­tu­a­li­zar os ingre­di­en­tes que leva­ram à explo­são cri­a­ti­va ocor­ri­da nos anos 1970 e 1980 em Porto Alegre e que teve o bair­ro como pon­to cen­tral. Foi uma épo­ca de situ­a­ções seme­lhan­tes em todo o Brasil, avan­çan­do dos últi­mos tem­pos da dita­du­ra aos pri­mei­ros pas­sos da nova demo­cra­cia. Não era uma inqui­e­ta­ção exclu­si­va de Porto Alegre, mas o que ocor­reu no Bom Fim só pode­ria ter acon­te­ci­do ali. Mesclando depoi­men­tos de anti­gos fre­quen­ta­do­res do bair­ro e vete­ra­nos da cena cul­tu­ral por­to-ale­gren­se (cate­go­ri­as que natu­ral­men­te se mis­tu­ram) a vali­o­sas cenas de arqui­vo em fil­me e vídeo, o docu­men­tá­rio demons­tra o porquê.

Refletindo uma pos­tu­ra bem por­to-ale­gren­se, os depoi­men­tos se equi­li­bram entre auto­mi­ti­fi­ca­ção e auto­me­nos­pre­zo, pon­tu­a­dos por um ques­ti­o­na­men­to pos­si­bi­li­ta­do ape­nas pela aná­li­se em retros­pec­to: enquan­to as coi­sas acon­te­cem, não há (ou ao menos não deve­ria haver) tem­po para cha­fur­dar em dúvi­das. Da explo­são do audi­o­vi­su­al nos anos 1970, que reve­lou entre outros Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil e Jorge Furtado, na pas­sa­gem de déca­da a ascen­são se deu na cena musi­cal, dan­do à luz nos anos 1980 o que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de “rock gaú­cho” — dos Replicantes ao DeFalla — e segue influ­en­ci­an­do até hoje músi­cos em todo o país.

Esse sur­to cri­a­ti­vo era poten­ci­a­li­za­do pela vida notur­na do Bom Fim e com ela se con­fun­dia. Na Osvaldo se for­ma­va uma uni­da­de sinér­gi­ca. Punks, care­cas, darks, head­ban­gers e gen­te sem rótu­lo algum e de dife­ren­tes cama­das soci­ais se mis­tu­ra­vam nas cal­ça­das e nos bares, ao con­trá­rio de outras capi­tais, onde os ter­ri­tó­ri­os per­ten­cen­tes a cada gru­po eram bem demar­ca­dos e qual­quer trans­gres­são aca­ba­va des­cam­ban­do em vio­lên­cia. Essa pro­mis­cui­da­de típi­ca do Bom Fim se mos­trou fér­til e essen­ci­al para o sur­gi­men­to de uma iden­ti­da­de cole­ti­va, uma sen­sa­ção de per­ten­ci­men­to que colo­cou em mar­cha inú­me­ros pro­je­tos.

 

Nicotina, Os Replicantes (1985)

 

Porto Alegre era, e é, a capi­tal con­ser­va­do­ra de um esta­do con­ser­va­dor, que ao mes­mo tem­po tem uma lon­ga his­tó­ria de enfren­ta­men­tos. Daí a neces­si­da­de recor­ren­te de tan­ta hipér­bo­le no dis­cur­so, de exa­ge­ros qua­se his­tri­ô­ni­cos, de um cer­to sen­so de humor mui­to espe­cí­fi­co que é uma espé­cie de táti­ca de sobre­vi­vên­cia. Tudo isso tam­bém se refle­tia no Bom Fim, tan­to na pro­du­ção que saía de lá quan­to no com­por­ta­men­to dos fre­quen­ta­do­res, e a par­ce­la mais tra­di­ci­o­nal dos mora­do­res do bair­ro não tole­ra­ria a bal­búr­dia por mui­to tem­po. A repres­são poli­ci­al, pre­sen­te des­de os pri­mei­ros tem­pos, recru­des­ceu até ser pra­ti­ca­men­te nor­ma­li­za­da como mais um ele­men­to do cená­rio.

A pres­são por um Bom Fim mais famí­lia ganhou o ímpe­to defi­ni­ti­vo quan­do o pro­pri­e­tá­rio do bar Redenção assas­si­nou um fun­ci­o­ná­rio no pró­prio esta­be­le­ci­men­to. Foi a senha infe­liz para a radi­ca­li­za­ção do pro­ces­so de des­man­te­la­men­to. Logo em segui­da veio a bata­lha da Osvaldo Aranha, quan­do uma bri­ga entre poli­ci­ais e fre­quen­ta­do­res se tor­nou uma luta cam­pal que se espa­lhou por toda a ave­ni­da. Depois a ine­vi­tá­vel e vaga­ro­sa der­ro­ca­da, em para­le­lo à migra­ção dos fre­quen­ta­do­res para outros pon­tos da cida­de.

O docu­men­tá­rio se encer­ra com depoi­men­tos em par­te melan­có­li­cos, como o jor­na­lis­ta Eduardo “Peninha” Bueno (em cha­mas, como sem­pre) denun­ci­an­do a cena do Bom Fim como uma “frau­de” para logo em segui­da com­ple­tar com um sig­ni­fi­ca­ti­vo “é que pode­ria ter sido mais”. De dife­ren­tes for­mas, são men­ci­o­na­das opor­tu­ni­da­des per­di­das e uma supos­ta estag­na­ção cul­tu­ral de Porto Alegre nos anos que se segui­ram.

 

Berlim-Bom Fim, Nei Lisboa (1987)

 

Mas ao lon­go dos anos 1990 o Bom Fim, ain­da fir­me na sim­bi­o­se entre vida notur­na, sen­so de comu­ni­da­de e inqui­e­ta­ção cri­a­ti­va, migrou para as cer­ca­ni­as geo­grá­fi­cas: dos bares da rua Garibaldi, ain­da no bair­ro, subin­do até a ave­ni­da Independência e arre­do­res. A cena que se cri­ou em tor­no do extin­to bar Garagem Hermética (abor­da­da no óti­mo livro A Fantástica Fábrica, de Leo Felipe, e que tam­bém mere­ce seu pró­prio docu­men­tá­rio) seguiu pro­du­zin­do músi­ca, qua­dri­nhos e cine­ma em um rit­mo ver­ti­gi­no­so, e expor­tan­do o resul­ta­do para além do Rio Grande do Sul.

Mesmo no final­zi­nho da déca­da e no come­ço do novo sécu­lo, as rela­ções de asso­ci­a­ção que já come­ça­vam a ser regi­das pela inter­net segui­ram pro­du­ti­vas e dota­das do espí­ri­to bon­fi­nes­co que Gerbase defi­ne no docu­men­tá­rio como “vamos fazer do jei­to que dá”. Disso sur­gi­ram den­tre outros ecos do Bom Fim o fan­zi­ne por e-mail CardosOnline e a edi­to­ra Livros do Mal, e isso para ficar ape­nas em empre­en­di­men­tos cole­ti­vos dos quais par­ti­ci­pei. Em um sen­ti­do impor­tan­te era a mes­ma his­tó­ria, um pro­lon­ga­men­to natu­ral, o mes­mo desas­sos­se­go cri­a­ti­vo indis­so­ciá­vel de um espa­ço urba­no se mani­fes­tan­do de uma for­ma pra­ti­ca­men­te negli­gen­ci­a­da nas déca­das ante­ri­o­res: a lite­ra­tu­ra.

Pensando sobre a Porto Alegre de hoje tam­bém enxer­go cer­ta estag­na­ção cul­tu­ral em com­pa­ra­ção a outros tem­pos, mas já pas­sei dos 40 e deve ser minha pró­pria mio­pia agin­do. Os anos se acu­mu­lam e o olhar ten­de a se vol­tar para trás: se dei­xar­mos essa inér­cia tomar con­ta não enxer­ga­mos o que há de novo ao redor, ape­nas o que não exis­te mais. Talvez, como nos anos 1990 e 2000, o mes­mo espí­ri­to cole­ti­vo dos anos de ouro do Bom Fim este­ja por trás dos recen­tes movi­men­tos pela recu­pe­ra­ção dos espa­ços públi­cos, por uma vida menos bru­ta na cida­de. Talvez seja esta a lacu­na sen­do pre­en­chi­da ago­ra, como na últi­ma déca­da ocor­reu com a lite­ra­tu­ra. Não sei.

O que eu sei: morei por qua­se uma déca­da no Bom Fim, entre 2001 e 2010, com bre­ves e arre­pen­di­das esca­pa­das. Meu pri­mei­ro livro tem um con­to dedi­ca­do ao bar João. Meus dois filhos nas­ce­ram e come­ça­ram a vida no bair­ro. E nada dis­so foi à toa, e eu sou ape­nas um. O bair­ro mudou, assim como Porto Alegre mudou, mas se ren­der ao pes­si­mis­mo é pre­gui­ça.

O Bom Fim pode estar mais paca­to, os alu­guéis podem ter fica­do ina­ces­sí­veis a estu­dan­tes e artis­tas chi­ne­los (pés-rapa­dos), aque­le monu­men­to fune­rá­rio relu­zen­te em for­ma de pré­dio comer­ci­al pode ter sido cra­va­do no anti­go ter­re­no do cine­ma Baltimore e do bar João como um aten­ta­do à psi­co­ge­o­gra­fia, mas logo ali ao lado a Lancheria do Parque, um dos cen­tros afe­ti­vos da cida­de e tam­bém tema de docu­men­tá­rio, segue tei­mo­sa no mes­mo lugar, sem­pre lota­da*. O Bom Fim não ter­mi­na.

Para além do memo­ri­a­lis­mo e do regis­tro his­tó­ri­co, Filme sobre um Bom Fim é pre­ci­o­so ao per­mi­tir o reco­nhe­ci­men­to de que o Bom Fim como ideia, como cica­triz, ape­sar de tudo, segue pre­sen­te em Porto Alegre, con­ti­nua sen­do a cida­de por trás da cida­de. E eu, como tan­tos, mes­mo lon­ge ain­da moro lá.

 

Amigo punk (Graforréia Xilarmônica), hino informal do Bom Fim

 

* E pro­por­ci­o­nan­do coi­sas como esta recen­te des­pe­di­da cole­ti­va ao gar­çom mais que­ri­do do esta­be­le­ci­men­to, que por um dia fez a Osvaldo Aranha vol­tar aos domin­gos dos anos 1990. Puro Bom Fim.

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