Fragmentos do luto

Correspondência

03.10.11

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Leia abai­xo a pri­mei­ra car­ta da cor­res­pon­dên­cia entre o jor­na­lis­ta e escri­tor Arthur Dapieve e o com­po­si­tor Aldir Blanc. Pelos pró­xi­mos dois meses, ambos tro­ca­rão car­tas sema­nais no blog do ims.

Grande Guru,

Espero que este­ja tudo cal­mo com a Tijuca Profunda e com todos os seus, incluin­do natu­ral­men­te o Batuque. Nossos gatos vão bem, obri­ga­do, embo­ra o mais novo, mes­mo cas­tra­do, gos­te de for­ni­car o cober­tor pelu­dão de vez em quan­do. Você apar­ta os dois, e ele dá um gri­ti­nho agu­do de pro­tes­to por­que é mudo, não mia.

Aqui nas Laranjeiras Médias as coi­sas estão… médi­as. Conosco, conos­co mes­mo, tudo em paz, mas da por­ta pra fora tem sido um ano difí­cil. Muitas más notí­ci­as, algu­mas mor­tes, uma mui­to pró­xi­ma, você sabe, que nos tirou do pru­mo por mais que a vida tenha de seguir. Não, não pre­ten­do trans­for­mar esta e-pís­to­la numa tera­pia à dis­tân­cia com o afa­ma­do Dr. Blanc, mas é que tem sido duro ver qual­quer pro­pó­si­to em escre­ver. Nosso papo, porém, sem­pre foi um alen­to.

Para dizer a ver­da­de, tem sido difí­cil até ver qual­quer pro­pó­si­to em ler (sem men­ci­o­nar qual­quer pro­pó­si­to, pon­to), o que mui­to tem me atra­sa­do nas lei­tu­ras sobre a Segunda Guerra Mundial. Já não tenho nem abso­lu­ta cer­te­za se os “ale­mão” per­de­ram mes­mo a para­da… Quais são as novi­da­des do front? Contudo, caiu-me entre as patas um livro daque­les tudo-a-ver. É o Diário de luto, do Roland Barthes, edi­ção da Martins Fontes, naque­la for­mi­dá­vel barthe­si­a­na da Leyla Perrone-Moisés, que foi alu­na dele.

Se nada faz sen­ti­do, nada como ler o homem que encon­tra­va sen­ti­do até no tele­cat­ch, né? No dia seguin­te à mor­te da dona Henriette aos 84 anos, em 25 de outu­bro de 1977, o depri­mi­dís­si­mo Barthes (favor con­si­de­rar a hipó­te­se de ele ter se joga­do na fren­te da cami­nho­ne­te ain­da por cau­sa da per­da, em 1980) come­çou a escre­ver sobre a sua dor. O livro é mais ficha­men­to do que diá­rio. Ele divi­dia folhas ofí­cio em qua­tro, cor­ta­va e ins­cre­via sen­ti­men­tos e insights nas fichas, qua­se todas data­das. Totalizou 330 até 15 de setem­bro de 1979, quan­do ano­tou: “Algumas manhãs são tão tris­tes…”

Só não digo que se lê de uma sen­ta­da, por­que negui­nho pode­ria mal­dar.

Porém, sem­pre dis­se que o Barthes é um dos meus heróis inte­lec­tu­ais. E ao ler este Diário de luto me toquei de que ele tam­bém é um dos meus heróis emo­ci­o­nais, des­de que, ain­da na facul­da­de, li Fragmentos de um dis­cur­so amo­ro­so em hon­ra da pro­ver­bi­al vaga­bun­da que não me dava mole. Quer dizer, não dava, mas roça­va no meu nariz. Ele de cer­ta for­ma me ensi­nou a gra­má­ti­ca daque­le sofri­men­to safa­do. Não dimi­nuiu picas, pio­rou pacas, mas ao mes­mo tem­po foi como se Barthes me dis­ses­se, no pé do ouvi­do: mes­mo só, você não está só no que sen­te, outros sen­ti­ram e sen­tem o mes­mo. Parecia o que aque­le pro­fes­sor esqui­si­tão de O apa­nha­dor no cam­po de cen­teio fala pro Holden Caulfield. Como era mes­mo o nome dele, Roubini, Tombini?

Não vou ficar adi­an­tan­do o teor do livro pro caso de você se inte­res­sar em lê-lo, o que faço votos que acon­te­ça. Mas o Roland B., nele tem duas saca­ções que pare­cem ter sido escri­tas para mim (ah, a ego­la­tria do lei­tor, só suplan­ta­da pela ego­la­tria do autor). A pri­mei­ra: o luto não pas­sa nem se ame­ni­za com o tem­po; ele ape­nas é des­con­tí­nuo, inter­rom­pi­do pelos peque­nos pra­ze­res e pelas gran­des apor­ri­nha­ções do coti­di­a­no; mas quan­do vol­ta, vol­ta com tudo, cho­ro, vela e ran­ger de den­tes. A segun­da: o luto gera uma “desa­fei­ção à mun­da­ni­da­de”, ele nos pren­de à toca, dimi­nui a von­ta­de de sair de casa e, uma vez na rua, sabo­ta toda e qual­quer con­vi­vên­cia soci­al.

Somando a pri­mei­ra à segun­da, enten­di melhor por­que fico aqui enfur­na­do, escu­tan­do mis­sas medi­e­vais e renas­cen­tis­tas. Todas devi­da­men­te can­ta­das em latim, cla­ro. Não, não me con­ver­ti a nada. Continuo, como diz meu ami­go Jaumir sobre si pró­prio, ateu da linha National Geographic (“Está lá o gnu­zi­nho, vem o cro­co­di­lão e… Nhac! Acabou”). Contudo, se a mera ideia de Deus ins­pi­rou Machaut, Ockeghem e Brumel, meus par­cei­ros mais fre­quen­tes de fos­sa, a escre­ver aque­las peças tão belas, bem, mes­mo ateus da linha National Geographic de cer­ta for­ma devem ser gra­tos a Ele. Ou à Sua ideia, o que dá na mes­ma. Fico ima­gi­nan­do o sujei­to anal­fa­be­to lá do sécu­lo XIV ou XV, ou seja, sem radi­nho de pilha nem iPod, entran­do numa cate­dral góti­ca e cha­pan­do com a poli­fo­nia, aque­las vozes pai­ran­do lá per­to do teto, doi­dei­ra. Invejo-o.

Ainda bem que nos­sos times estão bem às pam­pas no Brasileirão. Seu Vasco tra­çan­do todos. E o meu Botafogo tem me dado qua­se todas as raras ale­gri­as de 2011. Mesmo isso guar­da uma iro­nia som­bria. Você sabe que nós, bota­fo­guen­ses, somos pes­si­mis­tas ina­ba­lá­veis, teme­mos os efei­tos revi­go­ran­tes de gol de hon­ra adver­sá­rio em gole­a­da nos­sa. Então, para o cara nas Laranjeiras Médias per­ce­ber que a sua feli­ci­da­de pos­sí­vel está atre­la­da às boas atu­a­ções do Glorioso, só pode mes­mo é estar las­ca­do.

Desculpe-me, sei que escre­vi demais, mas tenho fala­do pou­co com os ami­gos.

Abração,

Arthur

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: o semió­lo­go e escri­tor fran­cês Roland Barthes

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