Girimunho e os filmes invisíveis

No cinema

07.05.12

Girimunho é um dos melho­res fil­mes em car­taz no país. Sutil e dis­cre­ta­men­te inven­ti­vo, o lon­ga de Clarisse Campolina e Helvécio Marins Jr. obser­va a vida coti­di­a­na em São Romão (MG), paca­to vila­re­jo às mar­gens do São Francisco. Situa-se na fron­tei­ra entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção. A exem­plo do que ocor­re no tam­bém minei­ro O céu sobre os ombros (2010), de Sérgio Borges, pes­so­as comuns (mas exis­te alguém comum?) repre­sen­tam dian­te das câme­ras seu pró­prio dia a dia.

Sob a super­fí­cie apa­ren­te­men­te imó­vel dos dias, sinais de mudan­ça e inqui­e­ta­ção vão sur­gin­do aqui e ali: o celu­lar, a tele­vi­são, o Orkut, uma moça que quer ir a Pirapora cur­sar enfer­ma­gem. Uma ima­gem ins­pi­ra­da con­den­sa a sobre­po­si­ção de tem­pos: uma velhi­nha (Maria Sebastiana Martins Alvaro) entoa uma can­ti­ga ime­mo­ri­al, da épo­ca da escra­vi­dão, enquan­to peda­la numa bici­cle­ta ergo­mé­tri­ca.

Passado e futu­ro

Para real­çar o con­tras­te entre o pas­sa­do e o futu­ro, ou antes seu cará­ter com­ple­men­tar, só há no fil­me per­so­na­gens ido­sos e seus netos jovens. Ninguém na fai­xa dos 30 aos 70.

Outra cir­cuns­tân­cia feliz é a oni­pre­sen­ça do rio, metá­fo­ra do tem­po pelo menos des­de Heráclito. Uma das cenas mais boni­tas é aque­la em que Sebastiana, depois de ter pro­cu­ra­do em vão na cida­de vizi­nha um irmão do mari­do mor­to, entre­ga sua­ve­men­te às águas do São Francisco os per­ten­ces des­te últi­mo: cal­ça, cami­sa, cha­péu, sapa­to. A mes­ma Sebastiana diz a cer­ta altu­ra: “O tem­po não para, quem para somos nós”.

http://www.youtube.com/watch?v=T-mCGeBOlVA

O enfren­ta­men­to do pas­sa­do com olhos do pre­sen­te per­pas­sa outro fil­me bra­si­lei­ro recen­te, o belís­si­mo Mãe e filha, de Petrus Cariry. Uma moça que mora na cida­de vol­ta aos con­fins do ser­tão do Ceará para apre­sen­tar seu filho à mãe, que vive num vila­re­jo em ruí­nas, apa­ren­te­men­te fora do tem­po. O deta­lhe é que o bebê está mor­to.

A equa­ção entre velho e novo, tra­di­ção e inven­ção, ganha uma cama­da a mais no caso de Mãe e filha pelo fato de seu dire­tor ser filho do vete­ra­no Rosemberg Cariry, de Corisco e Dadá e A saga do guer­rei­ro alu­mi­o­so, entre outros.

http://www.youtube.com/watch?v=jzlBuf5fh5I

Mas Girimunho e Mãe e filha têm outra coi­sa em comum: ape­sar de terem roda­do o mun­do e con­quis­ta­do prê­mi­os em fes­ti­vais, ape­sar do aplau­so qua­se unâ­ni­me da crí­ti­ca, mui­to pou­ca gen­te os viu, vê ou verá (ao menos num futu­ro pró­xi­mo). Girimunho entrou em car­taz no final de abril em ape­nas uma sala de São Paulo e outra de Belo Horizonte. Mãe e filha, que estre­ou qua­se secre­ta­men­te há dois meses, é exi­bi­do em ape­nas um horá­rio num úni­co cine­ma pau­lis­ta­no. Em outras pra­ças deve ocor­rer o mes­mo.

Destino seme­lhan­te é o de O homem que não dor­mia, do bai­a­no Edgard Navarro, em que o pas­sa­do “ron­da como alma pena­da”, como na can­ção de Lulu Santos. Também ele é uma alma pena­da a ocu­par as bre­chas ves­per­ti­nas das salas de cine­ma.

Cinema clan­des­ti­no

Para que um fil­me tenha rele­vân­cia cul­tu­ral e mes­mo soci­al, não pre­ci­sa ser vis­to por milhões de espec­ta­do­res. Basta que che­gue aos cora­ções e men­tes de um punha­do de pes­so­as, que por sua vez vão fazer essa semen­te ger­mi­nar e seguir adi­an­te. Mas o cine­ma, como ati­vi­da­de sub­me­ti­da à lógi­ca econô­mi­ca e às injun­ções polí­ti­cas, pre­ci­sa de públi­co.

Não é sau­dá­vel para um país, para uma cul­tu­ra, que todo mun­do veja sem­pre o mes­mo fil­me, seja ele a mes­ma comé­dia bes­tei­rol ou o mes­mo block­bus­ter reche­a­do de efei­tos espe­ci­ais. Você — que (creio e espe­ro) não faz par­te des­sa mas­sa -só tem a ganhar se con­se­guir se esguei­rar por uma fres­ta do mer­ca­do exi­bi­dor para viven­ci­ar Girimunho, Mãe e filha ou O homem que não dor­mia, com o sen­ti­men­to de quem exe­cu­ta uma ação clan­des­ti­na.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: cena do fil­me Girimunho.

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