Groupie meteorológica

Correspondência

21.04.12

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JP,

Entendo per­fei­ta­men­te a tua afli­ção. Já visi­tei esse lugar “do meio” de que você fala, e sei o quan­to pode ser enlou­que­ce­dor estar aí. Se ser­ve de con­so­lo, pos­so te lem­brar que a posi­ção tem suas con­tra­par­ti­das. O que é escre­ver, no fim das con­tas, senão se colo­car nes­sa peque­na bre­cha entre a inter­lo­cu­ção e o silên­cio? (Desconfio que isso fale menos da nobre­za da nos­sa ocu­pa­ção do que de sua insa­lu­bri­da­de, mas vamos dei­xar isso pra lá.) Respira fun­do, enfim, e mete bron­ca nes­se roman­ce.

Outra coi­sa. Faz pelo menos cin­co anos que escu­to você se quei­xan­do do Rio, dizen­do que não aguen­ta mais, que pre­ci­sa ir embo­ra. Tenho que per­gun­tar: por que você não vai? Se tudo te cau­sa tan­ta repug­nân­cia, qual o empe­ci­lho de fechar a loji­nha? Não estou suge­rin­do um adeus defi­ni­ti­vo, mas uma pau­sa estra­té­gi­ca, des­sas que reno­vam a nos­sa fé nas coi­sas e apa­gam um pou­co do ran­ço acu­mu­la­do pelo, diga­mos, exces­so de con­vi­vên­cia. Já tive esse momen­to com São Paulo, e foi bom fugir ? e melhor ain­da vol­tar.

Aqui em Chicago o calor deu um alô rápi­do, mas logo vol­tou pro covil. Dá pra ver na cara das pes­so­as a ansi­e­da­de pela pri­ma­ve­ra. Depois de um inver­no tão lon­go, é difí­cil não se trans­for­mar numa espé­cie de grou­pie mete­o­ro­ló­gi­ca, sol­tan­do gri­ti­nhos a cada vez que o termô­me­tro pas­sa dos quin­ze graus. Basta bater nos dez, aliás, e já tem malu­co des­fi­lan­do de rega­ta. Num ras­go de empol­ga­ção, os vizi­nhos de bai­xo liga­ram o ven­ti­la­dor de teto sema­na retra­sa­da e não des­li­ga­ram nun­ca mais, e ago­ra meu quar­to intei­ro vibra como uma tor­ra­dei­ra com defei­to.

Pelo menos as árvo­res já come­ça­ram a flo­res­cer. Nos Estados Unidos até as plan­tas obe­de­cem à lei.

Lendo tua car­ta, me lem­brei de um docu­men­tá­rio que assis­ti outro dia sobre o Bill Cunningham, o fotó­gra­fo de moda do New York Times. Você já viu? O sujei­to tem 84 anos e até um ano atrás mora­va num estú­dio minús­cu­lo den­tro do Carnegie Hall, de onde aca­bou desa­lo­ja­do pela pre­fei­tu­ra ? a con­tra­gos­to, teve que se mudar pra um apar­ta­men­to mai­or. No estú­dio, que não tinha banhei­ro nem cozi­nha, ele dor­mia num col­cho­ne­te enfi­a­do no meio de uma mon­ta­nha de arqui­vos e cai­xas de fotos.

O coti­di­a­no do cara é de uma sim­pli­ci­da­de extra­or­di­ná­ria. Vestindo o mes­mo casa­co azul, todas as manhãs ele mon­ta numa bici­cle­ta e sai pela cida­de atrás de fotos de anô­ni­mos, que reú­ne e publi­ca numa seção do jor­nal. Por tam­bém fazer a colu­na soci­al, vive sen­do alvo de con­vi­tes e soli­ci­ta­ções, além de ofer­tas infi­ni­tas de mimos e jabás. Ele não acei­ta nada. Depois de tirar as fotos, vol­ta sozi­nho pra casa e vai jan­tar numa deli cain­do aos peda­ços. Na úni­ca vez que acei­tou rece­ber um prê­mio, fez um dis­cur­so rápi­do sobre o pró­prio tra­ba­lho e, ao final, com a voz embar­ga­da, dis­se que o segre­do da vida con­ti­nua o mes­mo: aque­le que pro­cu­ra a bele­za vai aca­bar encon­tran­do ? e então desa­tou a cho­rar.

Saber da exis­tên­cia do des­se sujei­to me fez um bem estra­nho, como se a minha cabe­ça tives­se ganha­do um novo anti­cor­po con­tra os fan­tas­mas que insis­tem em me ator­men­tar. É bom pen­sar nele. Dá uma cer­ta ver­go­nha de viver que­ren­do e sofren­do tan­to. Desconfio que isso tenha algu­ma coi­sa a ver com o Monastério de Po Lin.

Abraço,

Chico

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: o fotó­gra­fo Bill Cunningham.

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