Lima Barreto e a Missa Campal

Literatura

17.05.15

A Lei Áurea, assi­na­da em 1888 e garan­tin­do o fim da escra­vi­dão no Brasil, foi cele­bra­da com uma Missa Campal com a pre­sen­ça da Princesa Isabel. Recentemente, a Brasiliana Fotográfica ana­li­sou a foto­gra­fia mais conhe­ci­da do even­to, de auto­ria de Antonio Luiz Ferreira, e des­co­briu a pre­sen­ça de Machado de Assis na ima­gem.

Machado não foi o úni­co escri­tor a estar pre­sen­te naque­le dia. Lima Barreto escre­veu uma crô­ni­ca na Gazeta da Tarde (de 4 de maio de 1911) a res­pei­to do momen­to his­tó­ri­co, a quer com­pa­re­ceu com 7 anos, leva­do pelo pai. O Blog do IMS repu­bli­ca abai­xo o tex­to: 

Estamos em maio, o mês das flo­res, o mês sagra­do pela poe­sia. Não é sem emo­ção que o vejo entrar. Há em minha alma um reno­va­men­to; as ambi­ções desa­bro­cham de novo e, de novo, me che­gam revo­a­das de sonhos. Nasci sob o seu sig­no, a tre­ze, e creio que em sex­ta-fei­ra; e, por isso, tam­bém à emo­ção que o mês sagra­do me traz se mis­tu­ram recor­da­ções da minha meni­ni­ce.

Agora mes­mo estou a lem­brar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai che­gou em casa e dis­se-me: a lei da abo­li­ção vai pas­sar no dia de teus anos. E de fato pas­sou; e nós fomos espe­rar a assi­na­tu­ra no Largo do Paço.

Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”. Antonio Luiz Ferreira, 1888.

Na minha lem­bran­ça des­ses acon­te­ci­men­tos, o edi­fí­cio do anti­go paço, hoje repar­ti­ção dos Telégrafos, fica mui­to alto, um sky-scra­per; e lá de uma das jane­las eu vejo um homem que ace­na para o povo.

Não me recor­do bem se ele falou e não sou capaz de afir­mar se era mes­mo o gran­de Patrocínio.

Havia uma imen­sa mul­ti­dão ansi­o­sa, com o olhar pre­so às jane­las do velho casa­rão. Afinal a lei foi assi­na­da e, num segun­do, todos aque­les mi­lhares de pes­so­as o sou­be­ram. A prin­ce­sa veio à jane­la. Foi uma ova­ção: pal­mas, ace­nos com len­ço, vivas…

Fazia sol e o dia esta­va cla­ro. Jamais, na minha vida, vi tan­ta ale­gria. Era geral, era total; e os dias que se segui­ram, dias de fol­gan­ças e satis­fa­ção, deram-me uma visão da vida intei­ra­men­te fes­ta e har­mo­nia.

Houve mis­sa cam­pal no Campo de São Cristóvão. Eu fui tam­bém com meu pai; mas pou­co me recor­do dela, a não ser lem­brar-me que, ao assis­ti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tives­se sido des­co­ber­to outra vez… Houve o baru­lho de ban­das de músi­ca, de bom­bas e girân­do­las, indis­pen­sá­vel aos nos­sos rego­zi­jos; e hou­ve tam­bém prés­ti­tos cívi­cos. Anjos des­pe­da­çan­do gri­lhões, ale­go­ri­as tos­cas pas­sa­ram len­ta­men­te pelas ruas. Construíram-se estra­dos para bai­les popu­la­res; hou­ve des­fi­le de bata­lhões esco­la­res e eu me lem­bro que vi a prin­ce­sa impe­ri­al, na por­ta da atu­al Prefeitura, cer­ca­da de filhos, assis­tin­do àque­la fiei­ra de nume­ro­sos sol­da­dos des­fi­ar deva­gar. Devia ser de tar­de, ao anoi­te­cer.

Ela me pare­cia lou­ra, mui­to lou­ra, mater­nal, com um olhar doce e apie­dado. Nunca mais a vi e o impe­ra­dor nun­ca vi, mas me lem­bro dos seus car­ros, aque­les enor­mes car­ros dou­ra­dos, puxa­dos por qua­tro cava­los, com cochei­ros mon­ta­dos e um cri­a­do à tra­sei­ra.

Eu tinha então sete anos e o cati­vei­ro não me impres­si­o­na­va. Não lhe ima­gi­na­va o hor­ror; não conhe­cia a sua injus­ti­ça. Eu me recor­do, nun­ca co­nheci uma pes­soa escra­va. Criado no Rio de Janeiro, na cida­de, onde já os es­cravos rare­a­vam, fal­ta­va-me o conhe­ci­men­to dire­to da vexa­tó­ria ins­ti­tui­ção, para lhe sen­tir bem os aspec­tos hedi­on­dos.

Era bom saber se a ale­gria que trou­xe à cida­de a lei da abo­li­ção foi geral pelo país. Havia de ser, por­que já tinha entra­do na cons­ci­ên­cia de todos a in­justiça ori­gi­ná­ria da escra­vi­dão.

Quando fui para o colé­gio, um colé­gio públi­co, à Rua do Resende, a ale­gria entre a cri­an­ça­da era gran­de. Nós não sabía­mos o alcan­ce da lei, mas a ale­gria ambi­en­te nos tinha toma­do.

A pro­fes­so­ra, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senho­ra mui­to inte­li­gen­te, a quem mui­to deve o meu espí­ri­to, creio que nos expli­cou a sig­ni­fi­ca­ção da coi­sa; mas com aque­le fei­tio men­tal de cri­an­ça, só uma coi­sa me ficou: livre! livre!

Julgava que podía­mos fazer tudo que qui­sés­se­mos; que dali em dian­te não havia mais limi­ta­ção aos pro­pó­si­tos da nos­sa fan­ta­sia.

Parece que essa con­vic­ção era geral na meni­na­da, por­quan­to um cole­ga meu, depois de um cas­ti­go, me dis­se: “Vou dizer a papai que não que­ro vol­tar mais ao colé­gio. Não somos todos livres?”

Mas como ain­da esta­mos lon­ge de ser livres! Como ain­da nos enle­a­mos nas tei­as dos pre­cei­tos, das regras e das leis!

Dos jor­nais e folhe­tos dis­tri­buí­dos por aque­la oca­sião, eu me lem­bro de um peque­no jor­nal, publi­ca­do pelos tipó­gra­fos da Casa Lombaerts. Estava bem-impres­so, tinha umas vinhe­tas elze­vi­ri­a­nas, peque­nos arti­gos e sone­tos. Desses, dois eram dedi­ca­dos a José do Patrocínio e o outro à prin­ce­sa. Eu me lem­bro, foi a minha pri­mei­ra emo­ção poé­ti­ca a lei­tu­ra dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ain­da tenho de memó­ria um dos ver­sos:

Houve um tem­po, senho­ra, há mui­to já pas­sa­do…

São boas essas recor­da­ções; elas têm um per­fu­me de sau­da­de e fazem com que sin­ta­mos a eter­ni­da­de do tem­po.

Oh! O tem­po! O infle­xí­vel tem­po, que como o Amor, é tam­bém irmão da Morte, vai cei­fan­do aspi­ra­ções, tiran­do pre­sun­ções, tra­zen­do desa­len­tos, e só nos dei­xa na alma essa sau­da­de do pas­sa­do às vezes com­pos­ta de coi­sas fúteis, cujo relem­brar, porém, traz sem­pre pra­zer.

Quanta ambi­ção ele não mata! Primeiro são os sonhos de posi­ção: com os dias e as horas e, a pou­co e pou­co, a gen­te vai des­cen­do de minis­tro a ama­nuense; depois são os do Amor — oh! como se des­ce nes­ses! Os de saber, de eru­di­ção, vão cain­do até fica­rem redu­zi­dos ao bon­do­so Larousse. Viagens… Oh! As via­gens! Ficamos a fazê-las nos nos­sos pobres quar­tos, com auxí­lio do Baedecker e outros livros com­pla­cen­tes.

Obras, satis­fa­ções, gló­ri­as, tudo se esvai e se esba­te. Pelos trin­ta anos, a gen­te que se jul­ga­va Shakespeare, está cren­te que não pas­sa de um “Mal das Vinhas” qual­quer; tenaz­men­te, porém, fica­mos a viver, espe­ran­do, esperan­do… o quê? O impre­vis­to, o que pode acon­te­cer ama­nhã ou depois. Espe­rando os mila­gres do tem­po e olhan­do o céu vazio de Deus ou deu­ses, mas sem­pre olhan­do para ele, como o filó­so­fo Guyau.

Esperando, quem sabe se a sor­te gran­de ou um tesou­ro ocul­to no quin­tal?

E maio vol­ta… Há pelo ar blan­dí­ci­as e afa­gos; as coi­sas ligei­ras têm mais poe­sia; os pás­sa­ros como que can­tam melhor; o ver­de das encos­tas é mais ma­cio; um for­te flux de vida per­cor­re e ani­ma tudo…

O mês augus­to e sagra­do pela poe­sia e pela arte, jun­gi­do eter­na­men­te à mar­cha da Terra, vol­ta; e os galhos da nos­sa alma que tinham sido ampu­ta­dos – os sonhos, enchem-se de bro­tos mui­to ver­des, de um cla­ro e macio ver­de de pelú­cia, rever­de­cem mais uma vez, para de novo per­de­rem as folhas, seca­rem, antes mes­mo de che­gar o tór­ri­do dezem­bro.

E assim se faz a vida, com desa­len­tos e espe­ran­ças, com recor­da­ções e sau­da­des, com toli­ces e coi­sas sen­sa­tas, com bai­xe­zas e gran­de­zas, à espe­ra da mor­te, da doce mor­te, padro­ei­ra dos afli­tos e deses­pe­ra­dos…

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