Love, ponto de atrito entre amor e sexo

No cinema

18.09.15

Em algum momen­to da his­tó­ria huma­na Eros cin­diu-se em dois: de um lado o amor român­ti­co, de outro o amor car­nal ou, mais sucin­ta­men­te, o sexo. Na Idade Média cris­tã essa cisão apro­fun­dou-se, virou dila­ce­ra­men­to. A car­ne pre­ci­sa­va ser nega­da em prol do “espí­ri­to”. Love, de Gaspar Noé, bus­ca de algum modo rea­pro­xi­mar as meta­des sepa­ra­das. Não é o pri­mei­ro nem será o últi­mo nes­sa ten­ta­ti­va, que pare­ce fada­da ao fra­cas­so, mas nem por isso dei­xa de pro­du­zir fru­tos inte­res­san­tes e, even­tu­al­men­te, belos.

 

Desde a pri­mei­ra ima­gem – um homem e uma mulher nus na cama, mas­tur­ban­do-se mutu­a­men­te, vis­tos do alto – é de cor­pos que se tra­ta aqui. Da pre­sen­ça e da ausên­cia deles. Mais impor­tan­te que o recur­so ao 3-D, a meu ver, é a manei­ra como Noé arti­cu­la essa dia­lé­ti­ca.

O pre­sen­te nar­ra­ti­vo do fil­me resu­me-se a um dia na vida do pro­ta­go­nis­ta, o nor­te-ame­ri­ca­no aspi­ran­te a cine­as­ta Murphy (Karl Glusman), que vive em Paris com sua jovem mulher, Omi (Klara Kistin), e o filho de colo dos dois. Ele rece­be no celu­lar, de madru­ga­da, um reca­do da mãe de uma ex-namo­ra­da sua, Electra (Aomi Muyock), pre­o­cu­pa­da com o desa­pa­re­ci­men­to des­ta. A liga­ção desen­ca­deia em Murphy lem­bran­ças de sua his­tó­ria de amor com Electra e pas­sa­mos então a acom­pa­nhar flash­backs des­sa his­tó­ria entre­me­a­dos com as ten­ta­ti­vas do pro­ta­go­nis­ta de loca­li­zar a ex-namo­ra­da enquan­to toca sua vidi­nha de casa­do.

Intercâmbio de cor­pos

Uma estru­tu­ra sim­ples e bas­tan­te man­ja­da, por­tan­to. O que me pare­ce ori­gi­nal e esti­mu­lan­te é a manei­ra como o fil­me con­ca­te­na pas­sa­do e pre­sen­te, real e ima­gi­ná­rio, ausên­cia e pre­sen­ça.

Um pro­ce­di­men­to recor­ren­te da mon­ta­gem é cor­tar de uma ima­gem para o mes­mo enqua­dra­men­to, só que em outro momen­to e com (ou sem) outra per­so­na­gem além do pro­ta­go­nis­ta, de tal manei­ra que uma pes­soa – em geral a ex-namo­ra­da, mas não sem­pre – “apa­re­ce” ou “some” da cena abrup­ta­men­te, como que con­vo­ca­da pelo dese­jo ou pela memó­ria de Murphy. Em gran­de medi­da, o fil­me se pas­sa na cabe­ça dele.

É com esse dis­po­si­ti­vo que a nar­ra­ti­va se cons­ti­tui: Murphy, não por aca­so um cine­as­ta, “pro­je­ta” no espa­ço real (em 3-D ain­da por cima) o pro­du­to de sua memó­ria afe­ti­va. No inter­câm­bio de per­so­na­gens, ou melhor de cor­pos, que con­tra­ce­nam com Murphy há toda uma dis­cus­são silen­ci­o­sa sobre a dura­ção do amor, sua trans­mu­ta­ção em outros sen­ti­men­tos, sua migra­ção de um ser a outro. Um exem­plo: numa cena cru­ci­al, ao mes­mo tem­po dra­má­ti­ca e autoirô­ni­ca, o pro­ta­go­nis­ta abra­ça o filho na banhei­ra, ambos aos pran­tos, e sen­ti­mos que o que se dá ali é uma trans­fe­rên­cia de afe­to, com o meni­no ser­vin­do como recep­tá­cu­lo do amor des­ti­na­do a outra pes­soa.

Cena de Love (2015), de Gaspar Noé

A fron­tei­ra entre ero­tis­mo e por­no­gra­fia, às vezes tão tênue e emba­ça­da, é explo­ra­da argu­ta­men­te, a meu ver, na sequên­cia em que Murphy e Electra vão a um clu­be de orgi­as. Eles fler­tam com a por­no­gra­fia, isto é, o lugar em que os cor­pos não têm nome, nem ros­to, nem “dono”, mas não con­se­guem imer­gir total­men­te nela. Murphy, em espe­ci­al, vê suas limi­ta­ções, con­tra­di­ções e fra­gi­li­da­des aflo­ra­rem com ain­da mais for­ça.

Reação crí­ti­ca

Falou-se mui­to sobre a supos­ta super­fi­ci­a­li­da­de dos diá­lo­gos, como se a den­si­da­de de uma obra cine­ma­to­grá­fi­ca deves­se ser bus­ca­da na “pro­fun­di­da­de” das falas. (Um fil­me que se pas­sas­se numa sala de pós-gra­du­a­ção em filo­so­fia na Sorbonne seria, assim, o supras­su­mo do “pro­fun­do”.) Com isso esque­ceu-se de aten­tar para as ima­gens e sua orga­ni­za­ção.

Aliás, tão inte­res­san­tes quan­to o fil­me pro­pri­a­men­te dito tal­vez sejam as rea­ções a ele. Boa par­te dos crí­ti­cos e dos espec­ta­do­res vem se divi­din­do entre duas res­pos­tas, ambas nega­ti­vas. Uns, dizen­do que Love não con­se­gue escan­da­li­zar; outros, quei­xan­do-se de que ele não cau­sa exci­ta­ção, “não dá tesão”, para usar a expres­são mais cor­ren­te e chu­la.

Depreende-se des­sas rea­ções que exis­te uma ideia arrai­ga­da, ain­da que não expli­ci­ta­da, de que fil­mar o sexo é algo que tem neces­sa­ri­a­men­te inten­ção de escân­da­lo e/ou que deve exci­tar a libi­do. Pelo menos des­de O últi­mo tan­go em Paris, pas­san­do por O impé­rio dos sen­ti­dos, é pos­sí­vel obser­var, qua­se com as mes­mas pala­vras, rea­ções semelhantes.Repressão e voyeu­ris­mo, duas faces da mes­ma moe­da.

Tudo soma­do, Love levan­ta ou atu­a­li­za algu­mas ques­tões: é pos­sí­vel falar de amor nos dias de hoje sem cair na pie­gui­ce ou na auto­a­ju­da? É pos­sí­vel fil­mar o sexo sem res­va­lar na cru­e­za vul­gar ou, no extre­mo opos­to, na este­ti­za­ção publi­ci­tá­ria dos “cin­quen­ta tons de cin­za”? Gaspar Noé resol­veu pegar esses dois tou­ros à unha, ao mes­mo tem­po. Mas seu fil­me aca­ba por sus­ci­tar uma outra per­gun­ta: é pos­sí­vel ver nos dias de hoje um fil­me de amor e sexo sem ten­tar enqua­drá-lo nos parâ­me­tros estrei­tos e des­fo­ca­dos de meio sécu­lo atrás?

 

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