Os cineastas Melissa Dullius e Gustavo Jahn

Os cineastas Melissa Dullius e Gustavo Jahn

Mundo em ruínas, cinema vivo

No cinema

26.05.17

Mesmo num mer­ca­do exi­bi­dor estran­gu­la­do como o nos­so, o cine­ma bra­si­lei­ro às vezes encon­tra bre­chas para nos reve­lar boas sur­pre­sas. É o caso de três fil­mes de dire­to­res estre­an­tes em lon­gas-metra­gens que estão em car­taz no país. São bem dife­ren­tes entre si em temá­ti­ca, lin­gua­gem nar­ra­ti­va e tama­nho de pro­du­ção, mas, cada um à sua manei­ra, tra­zem um novo alen­to para os ciné­fi­los.

Comecemos pelo mais vis­to­so deles, O ras­tro, de João Caetano Feyer, que em uma sema­na de exi­bi­ção já atraiu qua­se 50.000 espec­ta­do­res. Esse peque­no furor se jus­ti­fi­ca. A des­pei­to de seus even­tu­ais exces­sos, é uma incur­são bri­lhan­te no ter­ri­tó­rio difí­cil do sus­pen­se e do ter­ror.

Desde as pri­mei­ras ima­gens – ou mes­mo antes delas, com a tri­lha de ruí­dos inva­din­do já as vinhe­tas das com­pa­nhi­as pro­du­to­ras – o fil­me cons­trói uma atmos­fe­ra de mis­té­rio e ame­a­ça. Uma câme­ra avan­ça qua­se cola­da a uma pare­de, mos­tran­do suas ranhu­ras e dese­nhos, e desem­bo­ca num cômo­do mal ilu­mi­na­do de um pré­dio em ruí­nas, atu­lha­do de escom­bros e pom­bos, sob uma malha sono­ra de gemi­dos, arru­lhos, mur­mú­ri­os e músi­ca cli­má­ti­ca. É, em prin­cí­pio, ape­nas um pesa­de­lo. Corta para uma rea­li­da­de mui­to con­cre­ta e dolo­ro­sa­men­te atu­al: um hos­pi­tal públi­co do Rio de Janeiro que está sen­do fecha­do por fal­ta de ver­bas.

Pesadelo real

Todo o res­tan­te da nar­ra­ti­va será uma ten­ta­ti­va bem-suce­di­da de imbri­car as duas coi­sas, o pesa­de­lo e o “real”, ou, mais pre­ci­sa­men­te, de extrair do real todo o seu poten­ci­al de pesa­de­lo, com o que este com­por­ta de absur­do e hor­ror.

Uma sinop­se pos­sí­vel, sem estra­gar as sur­pre­sas: João (Rafael Cardoso), um jovem médi­co que tra­ba­lha para a Secretaria da Saúde, é encar­re­ga­do de trans­fe­rir para outros locais os últi­mos paci­en­tes do hos­pi­tal que será fecha­do. Nesse pro­ces­so, ele des­co­bre o intri­gan­te desa­pa­re­ci­men­to de uma paci­en­te, uma meni­na que mora num orfa­na­to. Prestes a tor­nar-se pai, João resol­ve inves­ti­gar o mis­té­rio até o fim, embre­nhan­do-se cada vez mais nas entra­nhas do hos­pi­tal já semi­de­sa­ti­va­do e par­ci­al­men­te em ruí­nas.

Essa via­gem ao fun­do do hor­ror é cons­truí­da com um agu­do sen­ti­do do rit­mo e uma sofis­ti­ca­ção visu­al que bei­ra o pre­ci­o­sis­mo: um con­tro­le abso­lu­to da luz, do foco e da com­po­si­ção de modo a con­fi­gu­rar um mun­do ame­a­ça­dor, mal­são, impre­vi­sí­vel. Os enqua­dra­men­tos qua­se nun­ca são fron­tais, con­ven­ci­o­nais, a luz nun­ca é uni­for­me, qua­se sem­pre as bor­das do qua­dro estão nas tre­vas. Ainda que o sen­ti­do seja sem­pre o de apro­fun­dar o infer­no vivi­do pelos per­so­na­gens, há um evi­den­te delei­te na cons­tru­ção visu­al, que ora lem­bra o expres­si­o­nis­mo de um David Lynch, ora reme­te ao bar­ro­quis­mo de um Dario Argento (os super­clo­ses de olhos, de gotas de suor ou de san­gue, a defor­ma­ção do espa­ço medi­an­te o uso de deter­mi­na­das len­tes, a rever­são do movi­men­to).

Mergulho nas tre­vas

Dois pla­nos, ambos na mes­ma sequên­cia, des­ta­cam-se por sua inven­ção visu­al. No pri­mei­ro, em câme­ra sub­je­ti­va, o pro­ta­go­nis­ta avan­ça pelo cor­re­dor mal ilu­mi­na­do de um andar desa­ti­va­do e cheio de entu­lho do hos­pi­tal, abrin­do cor­ti­nas de plás­ti­co trans­pa­ren­te sujo. É como se aden­tras­se a cada vez num cír­cu­lo mais pro­fun­do do hor­ror. No outro pla­no, um tra­vel­ling de recuo, o per­so­na­gem anda de cos­tas em dire­ção à câme­ra por um cor­re­dor ilu­mi­na­do ape­nas pela luz que entra pelas jane­las. À medi­da que ele recua, as jane­las vão se fechan­do à sua pas­sa­gem, blo­que­an­do a luz, aden­san­do as tre­vas, até que no final do per­cur­so ele se encon­tra na escu­ri­dão com­ple­ta.

Todo esse apu­ro visu­al não impli­ca des­cui­do da dra­ma­tur­gia. A dire­ção de ato­res obtém uma atu­a­ção coe­sa de um elen­co hete­ro­gê­neo, do “tele­vi­si­vo” Rafael Cardoso ao vete­ra­no Jonas Bloch, com des­ta­que para a sem­pre óti­ma Leandra Leal, no papel da espo­sa grá­vi­da do pro­ta­go­nis­ta, e uma das últi­mas par­ti­ci­pa­ções de Domingos Montagner, a quem o fil­me é dedi­ca­do.

Se há um pos­sí­vel repa­ro a ser fei­to é quan­to ao uso exces­si­vo do som como mule­ta para a cri­a­ção do sus­pen­se. A toda hora assus­ta-se o espec­ta­dor com o estron­do de por­tas que batem ou obje­tos que tom­bam no chão, além dos gemi­dos e sus­sur­ros qua­se oni­pre­sen­tes e da músi­ca enfá­ti­ca. Um pou­co mais de con­ten­ção na uti­li­za­ção des­ses recur­sos pode­ria, a meu ver, inten­si­fi­car ain­da mais o efei­to ater­ro­ri­zan­te.

Comeback

Se O ras­tro faz uma home­na­gem pós­tu­ma a Montagner, Comeback: um mata­dor nun­ca se apo­sen­ta, de Erico Rassi, é a des­pe­di­da cine­ma­to­grá­fi­ca do gran­de Nelson Xavier, mor­to recen­te­men­te. Aqui, o vete­ra­no ator encar­na Amador, um pis­to­lei­ro pro­fis­si­o­nal deca­den­te do empo­ei­ra­do inte­ri­or de Goiás. Hoje tra­ba­lhan­do como ven­de­dor de máqui­nas caça-níqueis para bares de últi­ma cate­go­ria, ele é inci­ta­do a vol­tar à ati­va ao ser pro­cu­ra­do por dois cine­as­tas inte­res­sa­dos em fazer um fil­me sobre seus tem­pos de gló­ria.

Há algo de paté­ti­co nes­sa ten­ta­ti­va de retor­no, pois o mata­dor já não é o mes­mo e os tem­pos são outros. O méri­to mai­or do fil­me é con­cen­trar seu foco jus­ta­men­te nes­se des­com­pas­so, base­an­do-se na atu­a­ção con­ti­da e pre­ci­sa de Xavier para expres­sar o sen­ti­men­to de melan­co­lia pela pas­sa­gem do tem­po. É qua­se como um faro­es­te cre­pus­cu­lar de Sam Peckinpah, sem a espe­ta­cu­la­ri­za­ção da vio­lên­cia.

Muito român­ti­co

Já o lon­ga-metra­gem de estreia da dupla Melissa Dullius e Gustavo Jahn, Muito român­ti­co, tra­fe­ga por uma via cine­ma­to­grá­fi­ca com­ple­ta­men­te dife­ren­te. É um curi­o­so exem­plar do que hoje se cos­tu­ma cha­mar de auto­fic­ção e, ao mes­mo tem­po, uma refle­xão sobre o pró­prio cine­ma como meio de apre­en­der o mun­do exte­ri­or e de expres­sar o ima­gi­ná­rio de quem o pro­duz.

Misturando regis­tros, supor­tes e tex­tu­ras dife­ren­tes (super-8 e digi­tal, home movie e ence­na­ções fic­ci­o­nais, mate­ri­al de arqui­vo e locu­ção em off), é um fil­me na pri­mei­ra pes­soa do plu­ral, nar­ran­do frag­men­ta­ri­a­men­te a expe­ri­ên­cia do casal de rea­li­za­do­res em sua migra­ção para Berlim, sua inte­ra­ção com a cida­de e seus mora­do­res. Um casal em per­ma­nen­te construção/desconstrução, como a pró­pria capi­tal ale­mã. Nesse trân­si­to entre o ínti­mo e o soci­al Muito român­ti­co cons­trói um espa­ço que é puro cine­ma.

  • Muito român­ti­co está em car­taz no cine­ma do IMS-RJ até 31/5. Confira datas e horá­ri­os de exi­bi­ção aqui.

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