O amor acaba, mesmo quando nem começa

Correspondência

31.01.13

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Meu bom cama­ra­da Joaquim,

Talvez não exis­ta mes­mo amor em SP, como diz o Criolo, tal­vez exis­ta mas este­ja fal­tan­do, pelo menos para mim, ami­go, que pisei na bola qual um beque de roça, que não ouvi direi­to a bati­da daque­la por­ta, que me fiz de galo e can­tei de vés­pe­ra, que  me ilu­di fei­to um pati­nho de João Gilberto, que man­ti­ve ace­so — no cla­ro e no escu­ro — o Fiat Lux do enga­no, que te rabis­co ago­ra estas linhas tor­tas, tal­vez um plá­gio dos mais epis­to­la­res bole­ros, vida noves fora zero.

Meu bom Joaquim, a gos­to­sa já era, lique­fei­ta escor­re com o vera­neio das chu­vas pelos buei­ros das pro­mes­sas, o tal amor líqui­do que não dá sam­ba e ain­da vira filo­so­fia de cai­xi­nha de fós­fo­ro, o tal do amor, sola­van­co na sin­ta­xe, pon­to. Bem fazes tu em guar­dar os segre­dos de um amor dis­cre­to, sem batu­que na pra­ça,  me ensi­nas o tru­que, o dim-dom dos amo­res pos­sí­veis, ensi­na-me a viver, como num fil­me tris­te.

Com licen­ça da pala­vra, que não cabe na epís­to­la de uma madre supe­ri­o­ra, mas, te digo, ami­go, foi foda. A nega me jogou do des­pe­nha­dei­ro, de uma tor­re da Paulista, essa coi­sa de não haver rede de pro­te­ção ou guar­da-chu­va para o amor, sacas? Eu sei que man­jas do ris­ca-faca amo­ro­so. Desse salão, em Sófia ou Madureira, nin­guém sai vivo. Bem fazes tu, ô Joaquim, de amar um pou­co em silên­cio, só no sapa­ti­nho da Cinderela.

Não con­si­go, ami­go, lem­bras? Um dos meus mai­o­res amo­res aca­bei, aca­ba­mos, na tua fren­te, era domin­go e o cro­nis­ta da segun­da-fei­ra como tes­te­mu­nha em um dia sem sol no Rio de Janeiro. Lágrimas de Ray-ban escor­re­ram no café-da-manhã cola­di­nho ali na Livraria Ponte de Tábuas, no Jardim Botânico, a rua seria a J.J. Seabra? O nome da aben­ço­a­da era Antonia. O A de amor do alfa­be­to des­te cego de nas­cen­ça.

A por­ta, nos­so eter­no tema, cadê a por­ta em um amor que  aca­ba a céu aber­to, como o que tes­te­mu­nhas­te? Havia a por­ta. Eu pro­vo. Não há amor que aca­be sem o tea­tro dela, a por­ta. Havia a por­ta dese­nha­da no asfal­to, tipo Dogville, aque­le fil­me-cabe­ça do cara sem juí­zo. Discreto, lem­bro que esta­vas lá, caro Joaquim, com uma moça boni­ta.

Amar em silên­cio é para os mes­tres. Eu alar­deio fei­to um galo — o úni­co ani­mal que can­ta depois que goza e ain­da avi­sa para toda  gen­te da vizi­nhan­ça. Eu pre­ci­so apren­der a fumar o king size do aban­do­no. Eu pre­ci­so de uma doma­do­ra para o meu deses­pe­ro, ami­go, chi­co­te na mão, ves­tes sado-maso­chs. Pelo menos uma ami­za­de colo­ri­da, jamais tons de cin­za.

Falar em deses­pe­ro, Joaquim, não sei mes­mo amar e mui­to menos sofrer em silên­cio. Sofro publi­ca­men­te, duas ou três coi­sas que apren­di com Lupicínio e o cine­ma ame­ri­ca­no. Sou tris­te e espa­lha­fa­to­so, como o velho com­po­si­tor bai­a­no já dizia.

No que ela, a gos­to­sa, ami­go, me acu­sa. Unha ver­me­lha em ris­te, em um fio-ter­ra moral nun­ca dan­tes: “Só que­res o meu amor para escre­ver essas coi­sas, não para a gen­te pen­sar no futu­ro”.

Lembrei ime­di­a­ta­men­te, Joaquim, daque­le sam­ba do Gilson, “Poxa”, lem­bras?, o Zeca Pagodinho tam­bém can­ta. “Por que você não pára pra pen­sar um pouco?/ Não vê que é moti­vo de um poe­ta louco/ Que quer o teu amor pra te fazer can­ção…”

Lararirará.

Poxa, como foi baca­na, que mer­da.

Ela não vê mais como é gos­to­so a gen­te ficar jun­tos, meu caro.  Prometi até levá-la para um final de sema­na no Rio de Janeiro, tomar umas no bote­quim Vinte e Oito, sabe quan­do a gen­te enche a cara mes­mo com um amor­zim novo joia rara, tomar aque­le por­re de feli­ci­da­de?

Pensei todo o rotei­ro, que ago­ra é ape­nas um fil­me tris­te na minha cabe­ça: depois Motel Batuta, ali na Gamboa mes­mo, pas­sa­ría­mos na fren­te da fune­rá­ria e não diría­mos nada, embo­ra eu pen­sas­se algo do tipo mor­te e gozo têm o mes­mo CEP, moram jun­tos, ô Mr. Postman.

Nosso ami­go Plínio, tam­bém conhe­ci­do anti­ga­men­te como “Meu Moreno Fez Bobagem”, te encon­trou, Joaquim, outro dia, nes­sa mes­ma geo­gra­fia afe­ti­va que me ser­ve hoje de sonho e bole­ro, sabe aque­le futu­ro do pre­té­ri­to do qual abu­sam os jor­nais sem pro­vas? Seria, faria, teria, ama­ria, via­ja­ria com ela para o Rio…

Minha gos­to­sa, meu velho, embo­ra mui­to rica, não pas­sou de uma ale­gria de pobre. A man­tei­ga bei­jou o taco mui­to antes do pri­mei­ro tan­go. Sou um desal­ma­do Alain Delon sem aque­le chi­cle­ti­nho que ele mas­cou na varan­da pari­si­en­se.

Como vês, Joaquim, minha ale­gria é tris­te. Não que­ria encher o saco do ami­go com este rosá­rio de quei­xas. Paro. Vem aí o Carnaval e a gen­te nun­ca sabe como serão as manhãs.

Perdido, no mato sem cachor­ro, sem mulher e sem GPS, me des­pe­ço, cari­nho­sa­men­te, Francisco.

* Na ima­gem que ilus­tra a home do post: o dis­co Pôxa, de Gilson de Souza, cita­do na car­ta de Xico Sá.

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