O Brasil visto por Landseer — quatro perguntas a Leslie Bethell

Quatro perguntas

12.05.11

Até o pró­xi­mo dia 10 de julho, o Centro Cultural do IMS em São Paulo apre­sen­ta a expo­si­ção Charles Landseer: dese­nhos e aqua­re­las de Portugal e do Brasil — 1825–1826. É a mai­or expo­si­ção indi­vi­du­al das ima­gens fei­tas por Landseer, con­si­de­ra­do um dos mais impor­tan­tes artis­tas que visi­ta­ram o Brasil nas duas déca­das pos­te­ri­o­res a 1808. Com cura­do­ria de Leslie Bethell, pro­fes­sor emé­ri­to de his­tó­ria lati­no-ame­ri­ca­na na Universidade de Londres, a expo­si­ção reú­ne 90 dese­nhos e aqua­re­las e mais dois óle­os, estes últi­mos fei­tos pelo artis­ta anos após a mis­são, base­an­do-se nos regis­tros fei­tos em Brasil e Portugal. Bethell res­pon­deu a qua­tro per­gun­tas fei­tas pelo Blog do IMS sobre a expo­si­ção.

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Corcovado vis­to da baía de Botafogo, Rio de Janeiro, 1825–1826
Aquarela real­ça­da com bran­co

Em que con­tex­to his­tó­ri­co acon­te­ceu a visi­ta de Charles Landseer ao Brasil?

Landseer foi o artis­ta ofi­ci­al de uma mis­são diplo­má­ti­ca ao Lisboa e Rio de Janeiro em 1825 che­fi­a­da por sir Charles Stuart, vete­ra­no diplo­ma­ta bri­tâ­ni­co. Em nome de Portugal e da Grã-Bretanha, Stuart nego­ci­ou os ter­mos do reco­nhe­ci­men­to da inde­pen­dên­cia do Brasil. No dia 29 de agos­to, no Rio, um tra­ta­do entre Portugal e o Brasil foi assi­na­do, sen­do rati­fi­ca­do ime­di­a­ta­men­te pelo impe­ra­dor dom Pedro e, no dia 15 de novem­bro, pelo rei dom João VI em Lisboa. Stuart tam­bém nego­ci­ou e assi­nou dois tra­ta­dos soli­ci­ta­dos pelo gover­no bri­tâ­ni­co como o pre­ço do seu apoio ao novo Império, um comer­ci­al e outro pela abo­li­ção do trá­fi­co negrei­ro, o que equi­va­le­ria ao reco­nhe­ci­men­to pela Grã-Bretanha.

O Álbum de Highcliffe, com­pos­to por obras que retra­tam o Brasil pelos olhos de artis­tas con­sa­gra­dos como Debret, John Burchell e Charles Landseer, man­te­ve-se por mui­to tem­po fora do país. Como se deu a aqui­si­ção das obras de Landseer pelo Instituto Moreira Salles?

Mais de noven­ta por cen­to dos 340 dese­nhos e aqua­re­las do sket­ch­bo­ok (cader­no) de Landseer são com­pos­tos por obras de Landseer mes­mo. Ninguém sabe como algu­mas obras atri­buí­das a Debret e Burchell che­ga­ram ao cader­no que Stuart con­fis­cou de vol­ta à Inglaterra. O cader­no per­ma­ne­ceu nas mãos da famí­lia Stuart no cas­te­lo de Highcliffe (por isso foi cha­ma­do mais tar­de de o álbum de Highcliffe) por qua­se um sécu­lo. Somente em 1926 o álbum seria adqui­ri­do pelo empre­sá­rio e cole­ci­o­na­dor cari­o­ca Guilherme Guinle. Antes de mor­rer, em 1960, Guinle deu o álbum ao seu sobri­nho, o ban­quei­ro Cândido Guinle de Paula Machado. Em 1999, lei­lo­a­da na casa Christie’s em Londres, o álbum foi arre­ma­ta­do pelo Instituto Moreira Salles.

Segundo o pes­qui­sa­dor Alberto Rangel, que loca­li­zou as obras de Landseer em 1924, dos seus tra­ba­lhos no Brasil “flo­res­cem os pre­li­mi­na­res de uma arte, que se tor­nou mais com­ple­ta, refor­ça­da e sole­ne”. Ele che­gou a ter con­ta­to com artis­tas  bra­si­lei­ros da épo­ca que por­ven­tu­ra tenham refor­ça­do essa evo­lu­ção?

Ninguém sabe se Landseer teve con­ta­to com artis­tas bra­si­lei­ros ou estran­gei­ros no Brasil. Ele não dei­xou diá­ri­os nem cor­res­pon­dên­cia. Mas mais pro­va­vel­men­te ele conhe­ceu o artis­ta fran­cês Jean-Baptiste Debret, que vivia no Rio des­de 1816 e evi­den­te­men­te influ­en­ci­ou algu­mas ima­gens de escra­vi­dão urba­na rea­li­za­das pelo Landseer.

Ao retor­nar à Inglaterra, Landseer se dedi­cou à pin­tu­ra de gêne­ro e his­tó­ri­ca. É pos­sí­vel afir­mar que o Brasil foi deter­mi­nan­te nes­sa esco­lha ou no país ele ape­nas a refor­çou?

Após expor cin­co óle­os base­a­dos nos dese­nhos e aqua­re­las de Portugal e o Brasil em Londres em 1827 e 1828, Landseer nun­ca mais reto­mou os temas por­tu­gue­ses e bra­si­lei­ros. O seu cader­no de 1825–26 esta­va nas mãos da famí­lia Stuart, e ele nun­ca vol­tou ao Brasil. Landseer pas­sou os 50 anos seguin­tes pin­tan­do cenas da lite­ra­tu­ra e da his­tó­ria ingle­sas, che­gan­do a expor mais de 120 obras, a mai­or par­te delas na Academia Real, antes de seu fale­ci­men­to em 1879.

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