O futebol de resultados de Campanella

No cinema

29.11.13
Um time bom de bola (Juan José Campanella)

Um time show de bola (Juan José Campanella)

Em meio à bate­la­da de fil­mes — vári­os deles bra­si­lei­ros — que entram em car­taz hoje (29 de novem­bro), há que des­ta­car alguns, já que seria impos­sí­vel falar de todos.

Uma estreia incon­tor­ná­vel é a de Um time show de bola, ani­ma­ção argen­ti­na em 3-D diri­gi­da por Juan José Campanella, o mes­mo de O segre­do dos seus olhos e O filho da noi­va. O fil­me é um fenô­me­no: mais de dois milhões de ingres­sos ven­di­dos na Argentina, um país que, vale lem­brar, tem um quin­to da popu­la­ção bra­si­lei­ra.

http://www.youtube.com/watch?v=kycGtgh7yUE

Tamanho êxi­to se deve, a meu ver, a uma con­jun­ção de fato­res. Campanella é um hábil mani­pu­la­dor, que sabe con­ju­gar temas de inte­res­se geral com o domí­nio de fór­mu­las nar­ra­ti­vas de efi­cá­cia com­pro­va­da. Antes de veri­fi­car esse hipó­te­se, vamos a um resu­mo da his­tó­ria, base­a­da num con­to do escri­tor e car­tu­nis­ta Roberto Fontanarossa.

Numa cida­de­zi­nha do inte­ri­or da Argentina, um garo­to magre­lo e intro­ver­ti­do, Amadeo, um pro­dí­gio do pebo­lim (tam­bém cha­ma­do de totó e fute­bol de mesa), é desa­fi­a­do para uma par­ti­da pelo bad boy local, Colosso, e dá um bai­le no arro­gan­te adver­sá­rio. Colosso, que é bom no fute­bol de cam­po, jura vin­gan­ça. Anos depois, já con­sa­gra­do como um cra­que mili­o­ná­rio do fute­bol inter­na­ci­o­nal, vol­ta à cida­de para cons­truir ali o mai­or está­dio do mun­do, domi­nar a polí­ti­ca e con­quis­tar a namo­ra­da de Amadeo. Tudo será deci­di­do num con­fron­to final entre a sele­ção de astros de Colosso e o time de desa­jus­ta­dos e der­ro­ta­dos locais reu­ni­dos por Amadeo.

O uni­ver­so temá­ti­co, por­tan­to, é o do fute­bol con­tem­po­râ­neo, com tudo aqui­lo que o cer­ca: inte­res­ses econô­mi­cos, publi­ci­da­de, mar­ke­ting, cul­to às cele­bri­da­des. A estru­tu­ra dra­má­ti­ca, por sua vez, fun­de diver­sas matri­zes antiquís­si­mas, da len­da de Davi e Golias à fábu­la do pati­nho feio, pas­san­do pelo tópos da comu­ni­da­de ver­sus o poder polí­ti­co e econô­mi­co, ou “povo ver­sus tira­no”.

Toy story requen­ta­do

Acrescente-se a isso a ani­ma­ção tec­ni­ca­men­te efi­caz, que bebe na fon­te da Pixar, em par­ti­cu­lar em Toy story, do qual “rou­bou” a ideia dos brin­que­dos que ganham vida. Aqui, são os joga­do­res de pebo­lim que se liber­tam das bar­ras da mesa de jogo para aju­dar o herói em sua mis­são.

O humor do fil­me vem, em par­te, da ina­de­qua­ção — dos bone­qui­nhos ao mun­do gigan­te dos huma­nos; dos humi­lha­dos e ofen­di­dos da cida­de­zi­nha ao mun­do do fute­bol com­pe­ti­ti­vo — e em par­te da sáti­ra ao cir­co do fute­bol glo­ba­li­za­do, em espe­ci­al ao cul­to nar­cí­si­co dos astros (Colosso faz pen­sar ine­vi­ta­vel­men­te em Cristiano Ronaldo).

Em suma: Toy story + fute­bol (às vés­pe­ras da Copa do Mundo no Brasil) + melo­dra­ma da revan­che dos opri­mi­dos + argú­cia nar­ra­ti­va de Campanella = resul­ta­do garan­ti­do, ao menos em ter­mos de bilhe­te­ria. Esperar mais que isso seria inge­nui­da­de. Afinal, o “cine­ma de autor”, assim como o “fute­bol-arte”, tal­vez seja uma ati­vi­da­de em extin­ção.

Estreias bra­si­lei­ras

Estreiam tam­bém três comé­di­as bra­si­lei­ras, duas delas de Domingos Oliveira (Primeiro dia de um ano qual­quer e Paixão e aca­so) e a outra de Bruno Barreto (Crô: o fil­me). Confesso que não vi este últi­mo. Dizem que é base­a­do num per­so­na­gem de suces­so de uma nove­la de suces­so da emis­so­ra de suces­so, um mor­do­mo gay vivi­do por Marcelo Serrado. Está entran­do em 420 salas. Boa sor­te para quem for assis­tir.

Num núme­ro ver­ti­gi­no­sa­men­te menor de cine­mas e de ses­sões, entram os fil­mes de Domingos Oliveira. Vale a pena ver os dois, pelas razões que ten­tei expli­car quan­do foram exi­bi­dos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano pas­sa­do.

Aqui o trai­ler do Primeiro dia de um ano qual­quer, encan­ta­dor con­cer­to agri­do­ce do dire­tor de Todas as mulhe­res do mun­do:

http://www.youtube.com/watch?v=oaHaGEhU_kE

Entram tam­bém em car­taz pelo menos dois outros naci­o­nais dig­nos de nota: o docu­men­tá­rio Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos, sobre a espi­nho­sa con­vi­vên­cia entre os poli­ci­ais de uma UPP e a popu­la­ção da fave­la cari­o­ca onde ela foi ins­ta­la­da; e o sur­pre­en­den­te dra­ma A flo­res­ta de Jonathas, de Sergio Andrade, que gira em tor­no de jovens que vivem na Amazônia, entre a flo­res­ta inson­dá­vel e a não menos inson­dá­vel moder­ni­da­de urba­na glo­ba­li­za­da.

http://www.youtube.com/watch?v=OwHJS5ZGspM

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