O homem e suas certezas

Literatura

23.07.14

Fotografia de Daniela Nader

O mun­do se divi­de entre os que con­cor­dam comi­go e os equi­vo­ca­dos”, cos­tu­ma­va dizer Ariano Suassuna, meio de brin­ca­dei­ra, meio a sério. A fra­se era a cara dele, sem­pre gene­ro­so e auto­ri­tá­rio, aco­lhe­dor e duro em cada con­ver­sa, em cada ges­to, em cada pales­tra. Era um per­so­na­gem de si mes­mo, cons­ci­en­te dis­so e, por isso, jamais cari­ca­to. O homem Ariano Suassuna, que se emo­ci­o­na­va ao lem­brar o pai e emo­ci­o­na­va quan­do fala­va de tea­tro, cri­ou o escri­tor Ariano Suassuna, naci­o­na­lis­ta radi­cal e defen­sor intran­si­gen­te do que via como a cul­tu­ra popu­lar autên­ti­ca. Juntos, mili­ta­vam nas filei­ras do exér­ci­to, hoje bran­ca­leô­ni­co, dos que não supor­ta­vam a cre­ti­ni­ce do mun­do.

Há dez anos, coor­de­nan­do a refor­ma edi­to­ri­al da Agir, pos­te­ri­or­men­te rede­mo­li­da, via­jei ao Recife para encon­trá-lo. Auto da Compadecida era uma das joi­as da coroa do anti­go catá­lo­go da edi­to­ra e deve­ria ser man­ti­do. No acor­do a que che­ga­mos, faría­mos uma edi­ção con­ven­ci­o­nal e outra de luxo. Tenso, che­guei à belís­si­ma casa dele no iní­cio da tar­de e fui rece­bi­do pelo per­so­na­gem Ariano, cal­ça e pale­tó de linho bran­co e san­dá­li­as.

Eu me apre­sen­tei, ele me ouviu cala­do de uma cadei­ra impo­nen­te e, com sua pro­ver­bi­al obje­ti­vi­da­de, man­dou: “Eu não que­ro saber des­se negó­cio de luxo, não. Se o sujei­to pode pagar mais bara­to, por que vai pagar mais caro?”

Estava e não esta­va sen­do sin­ce­ro. Achava, de fato, ruim o pre­ço alto, ine­vi­tá­vel, mas tam­bém inves­ti­ga­va se tudo seria de seu jei­to, se não iría­mos impor padrões alhei­os a seu estri­to câno­ne esté­ti­co. Felizmente, eu já esta­va arma­do de mui­ta infor­ma­ção e garan­ti que o livro seria, como de fato foi, como ele pen­sa­va. Aí entra o homem, gene­ro­so, e esten­de um espi­ral que eu não espe­ra­va: era uma cópia xerox do Auto total­men­te revi­sa­da, com mui­tos cor­tes e alguns acrés­ci­mos, mexi­do pela pri­mei­ra vez des­de que havia sido publi­ca­do, em 1957. E foi impos­sí­vel não se como­ver com aque­le homem abso­lu­ta­men­te geni­al expli­can­do algu­mas mudan­ças, sem­pre vee­men­te.

Quando a edi­to­ra foi relan­ça­da, con­vi­dei-o a uma fes­ta no Rio, achan­do impro­vá­vel que vies­se. Mas ele acei­tou o con­vi­te, exten­si­vo, é cla­ro, à sua famí­lia ado­rá­vel, em que se des­ta­ca­va “Alexandre meu gen­ro” – assim ele se refe­ria a Alexandre Nóbrega, que cui­da­va de sua agen­da, e assim pas­sei a brin­car com ele, Alexandre. Tramamos tudo para que ele se sen­tis­se bem, toca­mos músi­ca armo­ri­al em sua che­ga­da, e ele, em tra­jes de gala (ter­no pre­to e cami­sa ver­me­lha), dis­cur­sou com sua per­fei­ta noção de pal­co (eu ia digi­tar timing, mas esta era a pior home­na­gem que pode­ria fazer a ele) e se man­dou quan­do come­çou a fes­ta pra valer: “Vou embo­ra que essa músi­ca é coi­sa de malu­co!”.

Um ano depois, livros lan­ça­dos, nos reen­con­tra­mos na Flip e, em Paraty, ele era puro char­me. Nos bas­ti­do­res da ten­da api­nha­da, per­gun­tou sobre o públi­co. Ao saber da mul­ti­dão, brin­cou: “Mas que mau gos­to tem essa gen­te!”. No pal­co, sozi­nho, fez uma das “aulas-espe­tá­cu­lo”, uma con­ver­sa apa­ren­te­men­te ale­a­tó­ria  em que expu­nha, com per­fei­ção retó­ri­ca, seus prin­cí­pi­os de tea­tro e cul­tu­ra. Imitava uma grã-fina, zom­ba­va do sota­que nor­des­ti­no cri­a­do pelas tele­no­ve­las da TV Globo e, em ple­na Flip, ven­do-se na capa de uma revis­ta de cul­tu­ra, fez a pla­teia gar­ga­lhar: “Mas como escri­tor é feio!”.

A autoi­ro­nia era sua espe­ci­a­li­da­de, como quan­do dizia que cobra­va tan­tos reais para via­jar para uma pales­tra e paga­va o dobro para não sair de casa. Ou con­ta­va que, numa via­gem de avião (que ele detes­ta­va), simu­lou um mal-estar. Diante da aero­mo­ça que per­gun­ta­va se ele esta­va sen­tin­do fal­ta de ar, teria dito: “Eu tô é com fal­ta de ter­ra, minha filha!”.

Ariano Suassuna, o per­so­na­gem, foi, pre­vi­si­vel­men­te, um fer­re­nho crí­ti­co do man­gue beat, opos­to em tudo, a par­tir do nome, ao movi­men­to armo­ri­al. Dizia a Chico Science que subi­ria com ele num pal­co se tro­cas­se o nome para Chico Ciência e, entre uma rus­ga e outra, ter­mi­nou se apro­xi­man­do do líder do Nação Zumbi, que o cha­ma­va de “mes­tre”. Na trá­gi­ca mor­te de Chico, em 1997, as lágri­mas de Ariano jun­to ao cai­xão não eram cena, não eram do per­so­na­gem, mas do homem, inte­li­gen­te e sofis­ti­ca­dís­si­mo, que sabia estar dian­te de um par, de um artis­ta tão deci­si­vo para a cul­tu­ra de seu tem­po.

Só res­ta a nós, mui­tas vezes equi­vo­ca­dos para os valo­res de Ariano, lamen­tar mais uma deser­ção na bri­ga­da anti­cre­ti­ni­ce. Rabugento num mun­do de “fofos”, radi­cal em meio a defen­so­res anó­di­nos de con­sen­so, Ariano Suassuna foi fun­da­men­tal por seus incon­tá­veis e imen­sos acer­tos e, de for­ma tão impor­tan­te, por seus pró­pri­os e vee­men­tes equí­vo­cos. 

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