O país das domésticas

No cinema

03.05.13

"Doméstica", de Gabriel Mascaro

Doméstica, docu­men­tá­rio de Gabriel Mascaro, é a con­cre­ti­za­ção de um pro­je­to apa­ren­te­men­te sim­ples: regis­trar a vida coti­di­a­na de empre­ga­das domés­ti­cas pelo Brasil afo­ra. O que o tor­na ori­gi­nal e pro­ble­má­ti­co — no sen­ti­do posi­ti­vo da pala­vra, de sus­ci­tar pro­ble­mas — é o seu “dis­po­si­ti­vo” ou modo de pro­du­ção: a câme­ra é con­fi­a­da a sete ado­les­cen­tes de dife­ren­tes cida­des, cada um deles com a tare­fa de docu­men­tar suas pró­pri­as empre­ga­das.

http://www.youtube.com/watch?v=NVl1wptZdS4

Resulta dis­so um fil­me hete­ro­gê­neo, irre­gu­lar, mas de uma rique­za ímpar naqui­lo que reve­la da for­ma­ção da soci­e­da­de bra­si­lei­ra e, ao mes­mo tem­po, da imen­sa plu­ra­li­da­de de expe­ri­ên­ci­as huma­nas pos­sí­veis den­tro des­sa soci­e­da­de. Vemos na tela his­tó­ri­as mui­to diver­sas, ain­da que algu­mas matri­zes se repi­tam e um que­bra-cabe­ças se for­me aos pou­cos sem que haja a inter­ven­ção de uma nar­ra­ção expli­ca­ti­va ou uni­fi­ca­do­ra.

Algumas cone­xões sub­ter­râ­ne­as entre essas tra­je­tó­ri­as são evi­den­tes. Por exem­plo: em pelo menos dois casos as domés­ti­cas retra­ta­das são tidas como “pes­so­as da famí­lia” por terem sido cri­a­das na roça com suas patro­as, pois suas pró­pri­as mães e avós eram ser­vi­çais dos ante­pas­sa­dos dos patrões. Seria pos­sí­vel tra­çar retros­pec­ti­va­men­te essas árvo­res gene­a­ló­gi­cas até a épo­ca da escra­vi­dão.

O “agre­ga­do”

Aí resi­de tal­vez o cer­ne do fil­me, ou do com­ple­xo fenô­me­no soci­al que nele aflo­ra. A figu­ra do agre­ga­do, tão bem obser­va­da por Machado de Assis e tão típi­ca da for­ma­ção naci­o­nal, tem sua ver­são con­tem­po­râ­nea na  empre­ga­da domés­ti­ca em gran­de par­te dos lares da eli­te e da clas­se média: alguém que “é da casa”, mas vive no quar­ti­nho dos fun­dos e não com­par­ti­lha dos pri­vi­lé­gi­os de clas­se dos patrões. Uma rela­ção ambí­gua, em que o afe­to e a rela­ção de explo­ra­ção estão imbri­ca­dos de modo qua­se inex­tri­cá­vel.

Essa ambi­gui­da­de — que apa­re­ce sutil­men­te em fil­mes de fic­ção como O som ao redor, Bendito fru­to e Trabalhar can­sa - está pre­sen­te a todo momen­to no docu­men­tá­rio de Gabriel Mascaro e se expres­sa como que a con­tra­pe­lo no dis­cur­so de patrões e empre­ga­dos. Por exem­plo, quan­do uma das ado­les­cen­tes-cine­as­tas mos­tra o que ela cha­ma iro­ni­ca­men­te de “suí­te mas­ter” da empre­ga­da: uma cama, duas pra­te­lei­ras em que se encai­xa a duras penas uma tevê por­tá­til, o espa­ço exí­guo entre uma coi­sa e outra.

"Doméstica", de Gabriel Mascaro

Ao con­trá­rio do que dis­se­ram alguns, não há nada de pan­fle­tá­rio nes­se fil­me, que recu­sa uma mani­pu­la­ção das ima­gens e falas que pode­ria ridi­cu­la­ri­zar o dis­cur­so dos patrões. A con­si­de­ra­ção e o afe­to expos­tos são genuí­nos, ain­da que evi­den­te­men­te cada um dos retra­ta­dos cons­trua sua pró­pria ima­gem com um tan­to de rea­li­da­de e outro tan­to de auto­en­ga­no e fan­ta­sia. O ima­gi­ná­rio, como sabe­mos, tam­bém faz par­te da rea­li­da­de. Além do mais, dado o dis­po­si­ti­vo ado­ta­do de ante­mão, não se tra­ta pro­pri­a­men­te de um fil­me sobre as domés­ti­cas, mas sobre sua rela­ção com quem as vê — no caso, seus jovens patrões, os sinho­zi­nhos e sinha­zi­nhas de nos­sa épo­ca.

Existe humor, exis­te ter­nu­ra nes­sas rela­ções, mas o que impe­de o fil­me de edul­co­rá-las, de apre­sen­tá-las como mera­men­te leves e riso­nhas, é o subs­tra­to trá­gi­co que emer­ge quan­do menos se espe­ra. E aqui entra outro caso de cone­xão sub­ter­râ­nea entre as his­tó­ri­as. Numa delas, num bar­ra­co de fave­la, uma mulher tra­ba­lha como domés­ti­ca, cui­dan­do da casa e dos filhos de outra domés­ti­ca, que pres­ta ser­vi­ço numa casa bur­gue­sa. Em outra cida­de, uma das empre­ga­das mais diver­ti­das do docu­men­tá­rio, uma bai­a­na gor­do­na que gos­ta de can­tar e dan­çar, cai de repen­te em pran­tos ao con­tar que seu úni­co filho mor­reu duran­te um perío­do em que ela esta­va na casa dos patrões. Uma his­tó­ria é o con­tra­pla­no da outra, ain­da que ocor­ram em esta­dos dife­ren­tes.

Doméstica x Domésticas

Essas mulhe­res que dei­xam os pró­pri­os filhos para cui­dar dos filhos dos outros são, de cer­ta for­ma, a atu­a­li­za­ção da “mãe pre­ta”, da ama de lei­te dos tem­pos da escra­vi­dão. Não sur­pre­en­de que essa per­cep­ção sur­ja cla­ra­men­te no fil­me de um dire­tor per­nam­bu­ca­no. Aparentemente, os artis­tas e inte­lec­tu­ais de Pernambuco bebe­ram Gilberto Freyre jun­to com o lei­te mater­no — não impor­ta se o da mãe bio­ló­gi­ca ou o da “mãe pre­ta”.

Doméstica, de cer­ta for­ma, é o opos­to simé­tri­co de Domésticas (2001), de Fernando Meirelles e Nando Olival, que entre­la­ça vári­as his­tó­ri­as de empre­ga­das. Ficção supos­ta­men­te ins­pi­ra­da em depoi­men­tos de domés­ti­cas “reais”, o fil­me de Meirelles e Olival é um exem­plo aca­ba­do de cons­tru­ção ide­o­ló­gi­ca, em que a ence­na­ção, a mon­ta­gem e até a pro­só­dia das atri­zes ser­vem para refor­çar este­reó­ti­pos e fol­clo­ri­zar a cate­go­ria soci­al que se pre­ten­de retra­tar. Aqui, para efei­to de cote­ja­men­to, uma cena par­ti­cu­lar­men­te reve­la­do­ra de Domésticas:

http://www.youtube.com/watch?v=0p_PhSKCAco

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