Mark Hamill como Luke Skywalker

Mark Hamill como Luke Skywalker

Escória rebelde

No cinema

15.12.17

Nada como um block­buster de primeira lin­ha (e de primeira hora, se pen­sar­mos na origem da série) para ter­mi­nar um ano que não foi lá dos mais ani­madores em matéria de cin­e­ma. Estou falan­do, é claro, de Os últi­mos jedi, o mais novo episó­dio da saga Star Wars.

É o oita­vo exem­plar da série, e um dos mel­hores. Alguns de seus ele­men­tos e car­ac­terís­ti­cas talvez aju­dem a enten­der o ape­lo duradouro dessa fan­ta­sia cri­a­da por George Lucas e apre­sen­ta­da ao mun­do pela primeira vez há quarenta anos.

Em primeiro lugar, há a ambigu­idade pro­fun­da dos per­son­agens, que talvez nun­ca ten­ha sido explo­ra­da de modo tão sis­temáti­co como em Os últi­mos jedi.

Maniqueís­mo e ambigu­idade

Enten­da-se: há um maniqueís­mo man­i­festo em Star Wars, já que des­de o iní­cio estão definidas as forças antagôni­cas do bem e do mal, ou antes, o lado lumi­noso e o lado som­brio da “Força”. Mas esse maniqueís­mo de princí­pio, essa polar­iza­ção moral bási­ca, não impli­ca a cri­ação de per­son­agens eter­na e imu­tavel­mente bons, ou eter­na e imu­tavel­mente maus. Pelo con­trário: des­de o vilão Darth Vad­er, ini­cial­mente o “escol­hi­do” para ser o jedi que traria equi­líbrio à Força, pas­san­do pelo mar­gin­al tor­na­do herói Han Solo, há uma oscilação entre luz e trevas, ou mes­mo uma trans­mu­tação de uma coisa na out­ra, no inte­ri­or de cada per­son­agem impor­tante.

Em Os últi­mos jedi essa ambivalên­cia intrínse­ca ator­men­ta evi­den­te­mente o jovem Kylo Ren (Adam Dri­ver), o fil­ho de Han Solo e da prince­sa Leia (Car­rie Fish­er) coop­ta­do pelo lado negro, mas está pre­sente tam­bém no jedi tor­na­do eremi­ta Luke Sky­walk­er (Mark Hamill), na sua dis­cípu­la Rey (Daisy Rid­ley) e até em per­son­agens secundários.

Con­sciente da ânsia do espec­ta­dor em fil­iar cada ente na tela (pes­soa, ani­mal ou máquina antropo­mor­fiza­da) a um dos times em com­bate, o dire­tor e roteirista Rian John­son joga com essa expec­ta­ti­va: o mer­cenário malan­dro DJ (Beni­cio del Toro) se rev­e­lará um novo Han Solo, servin­do ao bem? A vice-almi­rante Hol­do (Lau­ra Dern) colo­cará tudo a perder com seu autori­taris­mo arro­gante ou se sac­ri­fi­cará pela causa? O “tema do traidor e do herói”, que Borges con­sagrou num con­to mem­o­ráv­el, rever­bera aqui de modo recor­rente.

Assim como George Lucas, Rian John­son sabe que o que garante o enga­ja­men­to do espec­ta­dor não é o espetácu­lo pirotéc­ni­co dos com­bat­es espa­ci­ais, mas a empa­tia (ou antipa­tia) com as criat­uras na tela. O ver­dadeiro con­fli­to se dá entre indi­ví­du­os, e às vezes no inte­ri­or de cada um deles. Por isso há sem­pre um momen­to em que a máquina da guer­ra se par­al­isa e silen­cia para dar lugar a um due­lo de espíri­tos, de ener­gias psíquicas e morais, geral­mente con­cretiza­do numa luta de sabres de luz (essa invenção mar­avil­hosa de nos­sa era).

Out­ro trun­fo da saga, em seus mel­hores momen­tos, é a hábil mis­tu­ra de refer­ên­cias mitológ­i­cas e icono­grá­fi­cas, já comen­ta­da à exaustão por críti­cos e estu­diosos: do west­ern às filosofias ori­en­tais, dos cav­aleiros da távola redon­da às histórias em quadrin­hos, das lendas da antigu­idade aos videogames, Star Wars parece um com­pên­dio da cul­tura de nos­sa época sat­u­ra­da de ima­gens e cacos de out­ras eras. Para quem não embar­ca na fan­ta­sia, tudo não pas­sa de uma mixór­dia de esti­los e apro­pri­ações, um estri­dente sam­ba do crioulo doi­do, uma ale­go­ria arbi­trária de esco­la de sam­ba com sofisti­cação tec­nológ­i­ca, emoldu­ra­da em sen­ti­men­tal­is­mo pie­gas e estéti­ca kitsch. Mas essa ati­tude pedante de rejeição em blo­co cer­ta­mente não é a mel­hor maneira de enten­der o que se pas­sa na tela e fora dela.

A chave do taman­ho

Do pon­to de vista da for­ma cin­e­matográ­fi­ca, o que chama a atenção na série, e neste novo filme em espe­cial, é, por um lado, o jogo entre os ambi­entes fecha­dos (naves, gru­tas, salas de con­t­role) e os aber­tos (espaço sider­al, deser­tos, mon­tan­ha, mar), entre o mun­do fab­ri­ca­do e o mun­do nat­ur­al. Por out­ro lado, há o recur­so fre­quente às ver­tig­i­nosas mudanças de escala. Esta­mos numa peque­na nave em que cabem duas pes­soas (ou uma pes­soa e um droid) e de repente o quadro se abre e essa nave é com um inse­to minús­cu­lo entran­do numa gigan­tesca estação espa­cial ou coisa que o val­ha. O efeito sen­so­r­i­al é fasci­nante.

Em Os últi­mos jedi há uma cena que brin­ca com essa “chave do taman­ho”: vemos o que parece ser uma nave ater­ris­sar acio­nan­do jatos de calor, mas no segun­do seguinte esse apara­to se rev­ela um pro­saico fer­ro de pas­sar roupas pou­san­do sobre uma jaque­ta.

Essa pas­sagem evi­den­cia tam­bém out­ro traço con­stante da saga: o humor, usa­do não ape­nas como alívio cômi­co dos momen­tos de ten­são, mas tam­bém como sig­no de iro­nia, de saudáv­el dis­tan­ci­a­men­to, como que dizen­do ao espec­ta­dor: “Ei, não leve tudo tão a sério, esta­mos aqui para nos diver­tir”.

Para se diver­tir com Os últi­mos jedi é pre­ciso vencer os primeiros dez ou quinze min­u­tos de pura ação béli­ca, explosões em pro­fusão, mon­tagem frenéti­ca e músi­ca altisso­nante. É como se, nes­sa sequên­cia ini­cial, os real­izadores fizessem um agra­do aos afi­ciona­dos da estéti­ca de videogame, pagan­do pedá­gio ao “gênero” para poder depois dedicar-se ao que inter­es­sa.

E o que inter­es­sa, no caso, é o que fica na sen­si­bil­i­dade e na memória: o espíri­to da revol­ta dos mar­gin­al­iza­dos e oprim­i­dos (não por aca­so rep­re­sen­ta­dos por uma fil­ha de sucateiros, um negro, um lati­no, uma ori­en­tal) con­tra o poder despóti­co da riqueza e das armas. “Escória”, diz com despre­zo o ari­ano do dark side ao negro Finn (John Boye­ga). Este responde alti­va­mente: “Escória rebelde”. E as ima­gens que apon­tam para o futuro (sem que isto sig­nifique spoil­er) são as de um meni­no sujo e explo­rado, quase um Oliv­er Twist redi­vi­vo, aper­tan­do na mão o sím­bo­lo da Força e olhan­do com esper­ança uma astron­ave que pas­sa riscan­do o céu. No mun­do cru­el e opres­si­vo de Trump e con­gêneres, não deixa de ser um alen­to.

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