O que as palavras dizem das coisas

Colunistas

19.04.16

Talvez não seja pos­sí­vel pre­ci­sar exa­ta­men­te quan­do come­çou, mas em um cer­to momen­to come­ça­mos a achar nor­mal a inva­são, no idi­o­ma, de ter­mos como “inves­ti­men­to afe­ti­vo” ou “rela­ção cus­to-bene­fí­cio”. Fidelizar, dis­po­ni­bi­li­zar, agre­gar valor, siner­gia, reen­ge­nha­ria, empre­en­de­do­ris­mo e outras tan­tas expres­sões intru­sas, angli­cis­mos cafo­nas, qua­se tão cafo­nas quan­to os depu­ta­dos e seus dis­cur­sos esdrú­xu­los na Câmara, foram apa­re­cen­do na fala nos­sa de cada dia. De modo qua­se imper­cep­tí­vel, a lin­gua­gem – que nun­ca é neu­tra – , foi sen­do toma­da de assal­to por essas pala­vras que em mui­tos casos não dizem nada, e por isso mes­mo dizem tan­to sobre si mes­mas. Esta per­cep­ção do estra­nha­men­to com as pala­vras já me acom­pa­nha há mui­tos anos me vol­tou à memó­ria na lei­tu­ra de A nova razão do mun­do – ensaio sobre a soci­e­da­de neo­li­be­ral (Boitempo, tra­du­ção de Mariana Echalar), de Pierre Dardot e Christian Laval. Os auto­res defen­dem uma nova idéia para o neo­li­be­ra­lis­mo, con­cei­to gas­to e cor­roí­do pela mul­ti­pli­ci­da­de do jogo de for­ças que pre­ten­de defi­ni-la. Para os soció­lo­gos fran­ce­ses, neo­li­be­ra­lis­mo “é pre­ci­sa­men­te o desen­vol­vi­men­to da lógi­ca do mer­ca­do como lógi­ca nor­ma­ti­va gene­ra­li­za­da, des­de o Estado até o mais ínti­mo da sub­je­ti­vi­da­de”.

Neste pon­to – a mais ínti­ma sub­je­ti­vi­da­de – está a minha hipó­te­se de arti­cu­lar o livro com a inva­são des­ses sig­ni­fi­can­tes estra­nhos, capa­zes de migrar do uni­ver­so econô­mi­co para a as rela­ções soci­ais de modo mais geral. Afetos, esco­lhas, ami­za­des, famí­lia, reli­gião e polí­ti­ca aca­bam impreg­na­das des­sa lógi­ca de mer­ca­do que esta­be­le­ce nor­mas de con­du­ta a par­tir de padrões inal­can­çá­veis de efi­ci­ên­cia e per­for­man­ce. Neste diag­nós­ti­co do neo­li­be­ra­lis­mo como a impo­si­ção de um modo de vida está uma impor­tan­te dife­ren­ça entre os auto­res de “A nova razão do mun­do” e outros crí­ti­cos do capi­ta­lis­mo con­tem­po­râ­neo, como o inglês David Harvey e os fran­ce­ses Luc Boltanski e Ève Chiapello.

Christian Laval e Pierre Dardot, auto­res de A nova razão do mun­do

Do pri­mei­ro, os auto­res citam dife­ren­tes obras para diver­gir num aspec­to fun­da­men­tal. Enquanto para Harvey o está­gio atu­al do capi­ta­lis­mo é uma exa­cer­ba­ção do diag­nós­ti­co mar­xis­ta de que tudo é mer­ca­do­ria, para Dardot e Laval o neo­li­be­ra­lis­mo é aqui­lo mes­mo que o nome quer dizer, uma nova for­ma de libe­ra­lis­mo que não pode ser pen­sa­da como mera con­ti­nui­da­de das ante­ri­o­res. Uma das novi­da­des é a pior pos­sí­vel: a lógi­ca geren­ci­al se espa­lha do cam­po econô­mi­co para a soci­e­da­de e a polí­ti­ca e traz com ela aque­las pala­vras a que me refe­ri ini­ci­al­men­te.

Nisso, Dardot e Laval se pare­cem mais com o exaus­ti­vo tra­ba­lho de pes­qui­sa dos soció­lo­gos Luc Bolstanki e Ève Chiapello, auto­res de O novo espí­ri­to do capi­ta­lis­mo (WMF Martins Fontes, tra­du­ção de Ivone Benedetti). São pági­nas e pági­nas de lei­tu­ras de manu­ais de ges­tão empre­sa­ri­al, escri­tos prin­ci­pal­men­te a par­tir dos anos 1980, quan­do o mode­lo de negó­ci­os vai ganhan­do con­fi­gu­ra­ções capa­zes de enfren­tar e esva­zi­ar as crí­ti­cas ao modo de vida capi­ta­lis­ta e suas ins­ti­tui­ções. Publicado na França em 1999, o livro iden­ti­fi­ca no uso do ter­mo “rede” (ope­rar em rede, envol­ver equi­pes, cri­ar times de tra­ba­lho, des­ver­ti­ca­li­zar, hori­zon­ta­li­zar) o modo como  as gran­des cor­po­ra­ções se apro­pri­a­ram das crí­ti­cas vin­das dos pro­tes­tos de maio de 1968 con­tra tudo que se pre­ten­dia um “pon­to fixo”, como Estado, famí­lia, tra­di­ções e ins­ti­tui­ções em geral. Hierarquias deram lugar a outra pala­vras que pre­ten­di­am evo­car liber­da­de, como mobi­li­da­de, flui­dez, liqui­dez e vola­ti­li­da­de, mas aca­ba­ram usa­das tam­bém pelos sis­te­mas de opres­são.

As novi­da­des na for­ma, no entan­to, não pare­cem sufi­ci­en­tes aos auto­res de A nova razão do mun­do. Para eles, o impor­tan­te é mos­trar como, no neo­li­be­ra­lis­mo, a con­cor­rên­cia, méto­do capi­ta­lis­ta por exce­lên­cia, des­pre­za qual­quer regu­la­ção de tro­cas e des­ti­tui o Estado do papel de con­ter o mer­ca­do a par­tir de regras do direi­to públi­co. A supre­ma­cia da ges­tão pri­va­da se expan­de das empre­sas para a vida e para a “arte neo­li­be­ral de gover­nar os indi­ví­du­os”.

Amplamente ins­pi­ra­dos na filo­so­fia de Michel Foucault, os auto­res dis­cu­tem como arti­cu­lar a sub­je­ti­va­ção à resis­tên­cia ao poder. Resistir, se é pos­sí­vel, pas­sa tam­bém, pen­so eu, por recu­sar um voca­bu­lá­rio do capi­tal que refor­ça a for­ma­ção de um “sujei­to neo­li­be­ral”, sub­me­ti­do a nor­mas apre­sen­ta­das como novas for­mas de auto­no­mia e liber­da­de – ou a tão pro­me­ti­da liber­da­de do capi­tal. Resistir pode ser ten­tar expres­sar outras coi­sas por outros mei­os, seguin­do aqui argu­men­to do filó­so­fo Cláudio Oliveira sobre o vigor do pen­sa­men­to artís­ti­co bra­si­lei­ro. Resistir pode ser, seguin­do a bela tese de Julia Naidin sobre Foucault, viver aten­to à nor­ma­ti­vi­da­de do novo, seguir por uma “vida outra”,  onde as sin­gu­la­ri­da­des dos sujei­tos abrem espa­ço para outras pala­vras e outras coi­sas.

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