Pânico em aeroporto

Correspondência

21.11.11

 

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Grande Guru,

As razões para eu ter medo de aero­por­to são bem menos sabo­ro­sas do que as razões para você ter pau­ra de avião. Apenas a cha­te­a­ção habi­tu­al. Filas, extra­vio de malas, demo­ras, atra­sos, can­ce­la­men­tos. Certa vez, por cau­sa de uma tem­pes­ta­de de matar gen­te, pas­sei oito horas no Aeroporto de Congonhas, espe­ran­do a pon­te aérea ser desobs­truí­da. Já esta­va len­do as eti­que­tas das minhas rou­pas para fazer pas­sar o tem­po.

Em feve­rei­ro últi­mo, porém, des­co­bri um aero­por­to que não me cau­sou aver­são. Tinha de ser do outro lado do mun­do. Narita, no Japão. Na che­ga­da, a impres­são já tinha sido mui­to boa. Rápida e sim­pá­ti­ca pas­sa­gem pela imi­gra­ção (des­de que se tenha o vis­to ade­qua­do, cla­ro), malas rapi­da­men­te na estei­ra, rápi­do desem­ba­ra­ço na Alfândega. Tudo no Japão é rapi­dez. Logo encon­tra­mos nos­sos anfi­triões. Consta que hou­ve um ter­re­mo­to de cin­co pon­tos e tal enquan­to está­va­mos na auto­es­tra­da para Tóquio. Ninguém no car­ro notou. Na hora do almo­ço, o Roberto Kovalick, da Rede Globo, nos dis­se que fazia a bar­ba e sen­tiu uma bati­di­nha na jane­la do banhei­ro na hora em que a ter­ra tre­meu. Só. No mês seguin­te, quan­do já está­va­mos de vol­ta ao Brasil, é que veio a tri­pla tra­gé­dia, ter­re­mo­to-tsu­na­mi-vaza­men­to nucle­ar. Deu-me von­ta­de de vol­tar cor­ren­do para aju­dar o Japão. Como? Não sei. Ajudar.

Na par­ti­da, ain­da em feve­rei­ro, pega­mos um ôni­bus que cata via­jan­tes pelos prin­ci­pais hotéis de Tóquio e leva a Narita. Do lado de fora do aero­por­to, uma bar­rei­ra poli­ci­al vis­to­ria os pas­sa­por­tes. À moda japo­ne­sa. Dois ou três sujei­tos entram no ôni­bus, fazem uma reve­rên­cia, sor­ri­em, veri­fi­cam os papéis dos pas­sa­gei­ros, sor­ri­em, fazem uma reve­rên­cia e saem do ôni­bus. Dura dois minu­tos, no máxi­mo. Uma vez no aero­por­to, era hora do des­pa­char as malas. Tinham me dito que em voos domés­ti­cos, nos quais não se exi­ge qual­quer docu­men­to, por ser ini­ma­gi­ná­vel que alguém, por qual­quer moti­vo, quei­ra embar­car com uma pas­sa­gem em nome de outra pes­soa, os fun­ci­o­ná­ri­os das com­pa­nhi­as aére­as eram trei­na­dos para fazer o check-in em 30 segun­dos. Duvidava que fizes­sem o mes­mo em voos inter­na­ci­o­nais. Aha, não fazem! Demoram 45 segun­dos.

De que­bra, ain­da ganha­mos um upgra­de na clas­se exe­cu­ti­va até Paris. O avião — aque­le Airbus A380, saca, o de dois anda­res de pas­sa­gei­ros — per­mi­te que se veja o mun­do exte­ri­or por meio de três câme­ras, além das jane­li­nhas. Uma câme­ra fica no bico, outra no ven­tre, a ter­cei­ra na cau­da. Imagino que este seja um dos seus pio­res pesa­de­los, mes­tre, olhar para fora. Mas como não é o meu, entre uma taça e outra de vinho, eu espi­a­va as este­pes con­ge­la­das 12 mil metros abai­xo enquan­to sobre­voá­va­mos a Rússia. Dá para enten­der, até lá de cima, por que Napoleão e Hitler per­de­ram as guer­ras, por que o Montgomery dizia que a regra de ouro da his­tó­ria mili­tar é “não inva­da a Rússia”. É mui­to chão, é mui­to ar. Uma bala­lai­ca plan­gia den­tro do meu pei­to.

Tensão mes­mo eu pas­sei foi no aero­por­to de Istambul. Tinha ido a tra­ba­lho, numa excur­são de jor­na­lis­tas e agen­tes de via­gem pro­mo­vi­da por uma óti­ma agên­cia ita­li­a­na que ope­ra tam­bém no Brasil. Assim que o avião supe­rou em sen­ti­do des­cen­den­te a cama­da de nuvens, a pri­mei­ra sur­pre­sa: neva­va. Nunca tinha me pas­sa­do pela cabe­ça que nevas­se na Turquia, ain­da menos às mar­gens do Bósforo. Nunca tinha vis­to neve na vida, só na TV e no cine­ma. Não deu tem­po de me mara­vi­lhar mui­to por­que tinha de pas­sar pelos poli­ci­ais no con­tro­le de pas­sa­por­tes. E eu já sua­va mais frio que a neve, reme­mo­ran­do O expres­so da meia-noi­te, a vida do Lawrence da Árabia e o gos­to tur­co por sodo­mi­zar pri­si­o­nei­ros. Eu nem tra­zia dro­ga algu­ma nem insu­fla­va a rebe­lião ára­be con­tra o Império Otomano. Contudo, pelo sim, pelo não, o meu eu tra­zia na mão.

Passei sem pro­ble­mas, intac­to. Estava a me recu­pe­rar do leve ata­que de pâni­co, “rela­xan­do” à espe­ra da mala, quan­do um sujei­to bai­xi­nho e sotur­no se apro­xi­mou de mim. “Jornalista?”, dis­se ele, em inglês. Gelei. Achei melhor não men­tir. “Sim, como você sabe?”, bal­bu­ci­ei. “Um jor­na­lis­ta sem­pre reco­nhe­ce o outro”, sor­riu o estra­nho. “Mifu”, pen­sei. “É ver­da­de”, res­pon­di. Será que o pes­so­al da excur­são daria pela minha fal­ta? Será que o Alan Parker ou o David Lean algum dia fil­ma­ri­am minha tris­te his­tó­ria? Será que um dia encon­tra­ri­am minha car­ca­ça num banho tur­co?

Apelei para o míni­mo deno­mi­na­dor comum de qual­quer con­ver­sa­ção, em qual­quer tem­po ou cir­cuns­tân­cia. “Está nevan­do há mui­tos dias?”, arris­quei. “Não, faz só uma sema­na”, retru­cou ele. “Blá blá?”, acho que dis­se. “Blá blá”, acho que ouvi. A ideia era ganhar tem­po até alguém da excur­são vir me res­ga­tar. Felizmente fui sal­vo pela estei­ra. A mala apa­re­ceu, me des­pe­di do sujei­to e cor­ri para me jun­tar aos cole­gui­nhas e agen­tes de via­gem, tor­cen­do para o frio aba­far o chei­ro ruim que ema­na­va da minha alma.

Grande abra­ço,

Arthur

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