Poesia obscena no acervo Tinhorão

Literatura

03.08.12

Pouquíssimas pes­so­as já ouvi­ram falar em Laurindo Rabelo, mas é pro­vá­vel que mui­tas conhe­çam os ver­sos: “No cume da minha serra/ Eu plan­tei uma roseira,/ Quanto mais as rosas brotam/ Tanto mais o cume chei­ra.” Essa sin­ge­la qua­dri­nha abre o famo­so poe­ma esca­to­ló­gi­co “As rosas do cume”, que fez suces­so nos saraus lite­rá­ri­os do sécu­lo XIX e foi atri­buí­do ao poe­ta flu­mi­nen­se Laurindo José da Silva Rabelo (1826–1864). Falcão, rei da músi­ca bre­ga con­tem­po­râ­nea, gra­vou uma ver­são do poe­ma no álbum Do peni­co à bom­ba atô­mi­ca (2000), com o títu­lo “No cume”, cuja auto­ria é atri­buí­da erro­ne­a­men­te ao pró­prio intér­pre­te e a Plautus Cunha.

Personalidade polê­mi­ca, Laurindo se cele­bri­zou com sua poe­sia de ten­dên­cia ultrar­ro­mân­ti­ca e com os desa­fe­tos que cole­ci­o­nou na soci­e­da­de da épo­ca. Os cro­nis­tas de sua vida dizem que foi expul­so do Seminário São José e da Escola Militar, na Praia Vermelha; que foi deti­do na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, por insu­bor­di­na­ção, quan­do inte­gra­va as for­ças arma­das como segun­do cirur­gião do cor­po de saú­de do exér­ci­to; e que zom­ba­va de pode­ro­sos como Manuel Felizardo, minis­tro da Guerra, e como o Dr. Rego Macedo, che­fe do Hospital Militar do Morro do Castelo. À par­te as len­das bio­grá­fi­cas, na mai­o­ria das vezes exa­ge­ros de crí­ti­cos impres­si­o­nis­tas, Laurindo escre­veu poe­mas com dic­ções vari­a­das, des­de o sone­to metri­ca­men­te per­fei­to — que levou o par­na­si­a­no Alberto de Oliveira a incluí-lo entre os auto­res d’Os cem melho­res sone­tos bra­si­lei­ros — à tro­va esca­bro­sa, de temá­ti­ca e lin­gua­gem obs­ce­nas.

As rosas do cume” e outros poe­mas obs­ce­nos de Laurindo foram publi­ca­dos em Poesias livres (1882), opús­cu­lo de enca­der­na­ção e papel bara­tos que se tor­nou rari­da­de. Atualmente, conhe­ço ape­nas qua­tro acer­vos que pos­su­em exem­pla­res des­se livro: a Biblioteca José de Alencar, da Faculdade de Letras (UFRJ); as cole­ções par­ti­cu­la­res de Antonio Carlos Secchin — poe­ta, pro­fes­sor e mem­bro da Academia Brasileira de Letras (ABL) — e de Israel Souza Lima, bió­gra­fo dos patro­nos da ABL; e o acer­vo José Ramos Tinhorão, do Instituto Moreira Salles.

Na ver­da­de, não fos­sem os (des)caminhos que os livros tam­bém tri­lham, um quin­to acer­vo teria Poesias livres. Em 1931, Constâncio Alves doou um exem­plar do livro à bibli­o­te­ca aca­dê­mi­ca Lúcio de Mendonça (ABL). Apesar do ges­to do fun­da­dor da cadei­ra 26, cujo patro­no é Laurindo, a obra se extra­vi­ou das estan­tes e, hoje em dia, o que se encon­tra dis­po­ní­vel para con­sul­ta é um fac-sími­le fei­to a par­tir do exem­plar de Israel Souza Lima. Nos arqui­vos da ABL, não há infor­ma­ções que auxi­li­em a des­ven­dar o mis­te­ri­o­so sumi­ço. Sabe-se ape­nas que já em 1958 tinha desa­pa­re­ci­do:

Apesar da sole­ni­da­de da entre­ga do volu­me que repre­sen­ta o ato da acei­ta­ção pela Academia das poe­si­as cômi­cas e fes­ce­ni­nas de Laurindo Rabelo, hoje em dia não há a menor notí­cia da exis­tên­cia daque­la pre­ci­o­si­da­de que Constâncio Alves dese­jou pre­ser­var do esque­ci­men­to e da clan­des­ti­ni­da­de”. (ASSUNÇÃO: 1958, 10)

Mas, não fos­se a rari­da­de bibli­o­grá­fi­ca, que impor­tân­cia teria esse livri­nho de um poe­ta esque­ci­do pela mai­o­ria dos estu­di­o­sos de lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra? Apesar de séri­os pro­ble­mas tipo­grá­fi­cos e tex­tu­ais, o que não con­vém aqui dis­cu­tir, Poesias livres é um dos pou­cos tes­te­mu­nhos da poe­sia obs­ce­na do nos­so oito­cen­tos, ao lado das edi­ções de Elixir do pajé e da Origem do mêns­truo, do tam­bém român­ti­co Bernardo Guimarães. E o que se vê nes­ses poe­mas obs­ce­nos de Laurindo, para além do gra­ce­jo com pala­vras de bai­xo calão e situ­a­ções gro­tes­cas, é uma crí­ti­ca em que o enfren­ta­men­to entre “eu poé­ti­co” e soci­e­da­de assu­me a for­ma de zom­ba­ria e se põe em rele­vo o ridí­cu­lo de con­ven­ções soci­ais e lite­rá­ri­as.

Há, assim, a crí­ti­ca ao fal­so mora­lis­mo da jovem que não per­mi­te o rapaz con­cluir a rela­ção sexu­al, embo­ra acei­te as carí­ci­as pre­li­mi­na­res e demons­tre, inclu­si­ve, cer­ta habi­li­da­de; a crí­ti­ca ao con­ven­ci­o­na­lis­mo lite­rá­rio, em que o “eu poé­ti­co”, super­va­lo­ri­za­do pelo Romantismo, debo­cha de si pró­prio, de sua fra­gi­li­da­de e impo­tên­cia; e, enfim, a crí­ti­ca polí­ti­ca, na sáti­ra “Ao rego”, tal­vez um dos poe­mas mais diver­ti­dos e, ao mes­mo tem­po, con­tun­den­tes do livro.

Ainda sobre “As rosas do cume”, além de sua publi­ca­ção em Poesias livres, há um his­tó­ri­co regis­tro fono­grá­fi­co do poe­ma. Trata-se da gra­va­ção fei­ta no iní­cio do sécu­lo XX pelo ator e can­ço­ne­tis­ta por­tu­guês Franco d’Almeida, que a equi­pe da Coordenadoria de Música do IMS digi­ta­li­zou a par­tir de um dis­co 76 rpm, per­ten­cen­te tam­bém ao acer­vo José Ramos Tinhorão, dis­po­ní­vel para audi­ção aqui no blog do IMS.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: o poe­ta Laurindo Rabelo.

* Fabio Frohwein de Salles Moniz é pes­qui­sa­dor na área de Literatura do Instituto Moreira Salles.

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