Raskolnikov vai à universidade

No cinema

04.09.15

 Woody Allen tem uma das fil­mo­gra­fi­as mais curi­o­sas do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no. Começou fazen­do comé­di­as ras­ga­das, for­mal­men­te um tan­to tos­cas, depu­rou-as numa espé­cie de ver­são moder­na, psi­ca­na­li­sa­da, da comé­dia român­ti­ca (Annie Hall, Manhattan), fler­tou com o dra­ma exis­ten­ci­al à manei­ra de Bergman (Interiores, Setembro), fez turis­mo cul­tu­ral na Europa (Vicky Christina Barcelona, À meia-noi­te em Paris, Para Roma, com amor),mas acer­tou mes­mo a mão, a meu ver, com seus dra­mas morais tem­pe­ra­dos de humor: Crimes e peca­dos, Maridos e espo­sas, Match point. Seu novo fil­me, Homem irra­ci­o­nal, per­ten­ce, evi­den­te­men­te, a este últi­mo filão, que ele nun­ca dei­xou de alter­nar com os outros.

Trata-se, aqui, da cri­se de meia-ida­de de um pro­fes­sor de filo­so­fia (Joaquin Phoenix) céti­co e ico­no­clas­ta, que já não encon­tra auten­ti­ci­da­de nas idei­as e nem inten­si­da­de nas emo­ções. Seu char­me con­sis­te na pos­tu­ra um tan­to bla­sé de quem expe­ri­men­tou de tudo na vida (amo­res, dro­gas, guer­ras, filo­so­fi­as) e não se entu­si­as­ma mais por coi­sa algu­ma. Entrega-se ao álco­ol e cul­ti­va uma bar­ri­gui­nha. Claro que uma alu­na bri­lhan­te e ima­gi­na­ti­va (Emma Stone) vai se apai­xo­nar por ele.

A saga­ci­da­de de Allen (e de Phoenix) está em situ­ar o pro­ta­go­nis­ta na linha tênue entre o autên­ti­co e o fake, entre a genuí­na bus­ca inte­lec­tu­al e a mis­ti­fi­ca­ção. É esse per­so­na­gem ambí­guo e osci­lan­te, acos­sa­do pelo desâ­ni­mo e pela impo­tên­cia sexu­al, que terá de enfren­tar um dos dile­mas morais mais anti­gos da huma­ni­da­de, aque­le que gira em tor­no do assas­si­na­to e de suas pos­sí­veis jus­ti­fi­ca­ti­vas.

Joaquin Phoenix e Emma Stone em cena de Homem irracional

Crime e cas­ti­go

Matar alguém, em suma, pode ser jus­ti­fi­cá­vel em cer­tas cir­cuns­tân­ci­as? Ou o bíbli­co “Não mata­rás” segue sen­do o nor­te essen­ci­al da con­du­ta huma­na? Com extre­mo enge­nho nar­ra­ti­vo, o dire­tor con­duz o espec­ta­dor a se posi­ci­o­nar ora de um lado, ora de outro da ques­tão, pon­do em cho­que even­tu­al­men­te o inte­lec­to e a emo­ção de cada um.

A refe­rên­cia recor­ren­te a Crime e cas­ti­go não é casu­al e mui­to menos afe­ta­da. Sempre que se quer, moder­na­men­te, dis­cu­tir a mora­li­da­de do homi­cí­dio, o fan­tas­ma de Raskolnikov vol­ta a ron­dar.

O pro­je­to esté­ti­co de Woody Allen, nes­sa sua ver­ten­te, pare­ce ser a ambi­ção, obvi­a­men­te inal­can­çá­vel, de con­ci­li­ar a den­si­da­de de Dostoiévski com a leve­za (enga­no­sa, cla­ro) de Tchekov. São pará­bo­las sem coro­lá­rio ou sen­ten­ça, tra­gé­di­as sem páthos, em que a catar­se foi subs­ti­tuí­da pela der­ri­são ou pela iro­nia.

Mise-en-scè­ne  sim­pli­fi­ca­da

Mais escri­tor do que pro­pri­a­men­te um cri­a­dor de ima­gens (como foram, por exem­plo, Murnau, Hitchcock, Kubrick), Allen pare­ce ter sim­pli­fi­ca­do ao máxi­mo sua mise-en-scè­ne de modo a alcan­çar uma cla­re­za qua­se trans­pa­ren­te de expo­si­ção. Esse pro­ces­so de depu­ra­ção é faci­li­ta­do aqui pela ambi­en­ta­ção da his­tó­ria num cam­pus uni­ver­si­tá­rio pro­te­gi­do da dis­per­são (e da feiu­ra) do mun­do urba­no con­tem­po­râ­neo.

Tudo é mui­to sim­ples e obje­ti­vo no modo de fil­mar, o que não sig­ni­fi­ca des­lei­xo ou fal­ta de ins­pi­ra­ção. Pelo con­trá­rio: uma cena cru­ci­al, jun­to ao poço vazio de um ele­va­dor, mos­tra a habi­li­da­de do cine­as­ta em cons­truir – no rit­mo, nos diá­lo­gos, na dire­ção de ato­res – um momen­to ao mes­mo tem­po trá­gi­co e cômi­co. Dostoiévski e Tchekov enfim reu­ni­dos, ain­da que na mor­te.

 

   

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