Salve 2015! (2)

Fim de ano

28.12.15

A (des)premiação da poe­sia, o pre­con­cei­to trans­for­ma­do em orgu­lho, a Nouvelle Vague no cen­tro da ima­gi­na­ção, as peque­nas vir­tu­des nas rela­ções huma­nas – isso aqui não é, como já foi dito no pri­mei­ro capí­tu­lo da série “Salve 2015!” – nem lis­ta dos melho­res, nem retros­pec­ti­va. É um jei­to menos abor­re­ci­do – e sem fal­sas ale­gri­as – de se des­pe­dir do ano. Tchau!

 

A (des)premiação do ano

Eucanaã Ferraz

Em 2015, a Academia Brasileira de Letras fez saber que não pre­mi­a­ria nenhum livro de poe­sia publi­ca­do em 2014. Procurado pelo jor­nal O Globo para que me pro­nun­ci­as­se sobre o assun­to, con­sig­nei meu res­pei­to e minha admi­ra­ção pelos três jura­dos da ABL, falei de minha sur­pre­sa com aque­la deci­são e citei alguns livros que con­si­de­ra­va dig­nos de serem obser­va­dos com aten­ção e, tal­vez, pre­mi­a­dos.

A escri­ta de poe­sia no Brasil tem sido um exer­cí­cio cons­tan­te de expe­ri­men­ta­ção, de uso ple­no de seus ins­tru­men­tos, de aten­ção à tra­di­ção, não fal­tan­do a tudo isso um boca­do de iro­nia. Para que ser­vem poe­mas? O que escre­ver? Como? Para quem? Dizer qual­quer coi­sa ou não dizer nada? Um sem-núme­ro de dúvi­das nun­ca sai de cena no peque­no e con­tur­ba­do mun­do da poe­sia – está tudo lá nos ver­sos, implí­ci­ta ou expli­ci­ta­men­te –, dan­do a ver um mis­to de inse­gu­ran­ça e luci­dez, ris­co e auto­ne­ga­ção que está no cen­tro de seu exer­cí­cio e garan­te mui­to de sua ine­gá­vel for­ça. Tal qua­dro (de cri­se, pode-se dizer) não é atri­bu­to dos poe­tas bra­si­lei­ros de hoje nem mes­mo se limi­ta ao Brasil, já que pelo menos des­de o sécu­lo XIX, ganhan­do for­ça des­co­mu­nal com as van­guar­das his­tó­ri­cas do sécu­lo seguin­te, a poe­sia oci­den­tal per­gun­ta-se inin­ter­rup­ta­men­te acer­ca de seu alcan­ce e de sua inser­ção na soci­e­da­de. Tudo isso este­ve pre­sen­te nos títu­los publi­ca­dos em 2014, em 2015 e decer­to não será dife­ren­te no pró­xi­mo ano e nos outros.

Longe das gran­des ven­das e ape­nas apa­re­cen­do aqui e ali gra­ças ao empe­nho de um públi­co míni­mo mas dedi­ca­do e exi­gen­te, a poe­sia no Brasil é a ins­tân­cia da vida artís­ti­ca e inte­lec­tu­al mais livre e mais com­pro­me­ti­da com uma pro­cu­ra de valo­res (sei que o ter­mo é vago) que che­ga à obses­são. Poetas não escre­vem para pre­mi­a­ções e agre­mi­a­ções, que são con­sequên­ci­as impre­vis­tas e raras (sim, há exce­ções). Nenhum lau­rel pode­rá pre­mi­ar sufi­ci­en­te­men­te bem o tra­ba­lho de fazer a poe­sia andar para a fren­te num qua­dro que pare­ce todo fei­to con­tra ela.

Eucanaã Ferraz é poe­ta, con­sul­tor de lite­ra­tu­ra do IMS e pro­fes­sor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Orgulho ou pre­con­cei­to

Carla Rodrigues

Quando era peque­na, inú­me­ras vezes vi minha pri­ma, já ado­les­cen­te, esti­car o cabe­lo a fer­ro. Ela dei­ta­va a cabe­ça na tábua de pas­sar rou­pa e sua mãe aju­da­va no ritu­al de ali­sa­men­to dos seus lon­gos fios, incom­pre­en­sí­vel aos olhos de uma cri­an­ça de oito anos. Pelo que pude apren­der, antes de che­gar ao sacri­fí­cio do fer­ro era pre­ci­so fazer uma tou­ca e depois “virá-la”, até que o cabe­lo ficas­se o mais liso pos­sí­vel. Ter “cabe­lo ruim” era um tipo de cas­ti­go, des­ti­no ingra­to e pas­sí­vel de con­de­na­ção à eter­na sol­tei­ri­ce. Porque nas­ci de cabe­los lisos, nun­ca enten­di direi­to qual era o pro­ble­ma de tê-los enca­ra­co­la­dos. E, ultra­je máxi­mo, sem­pre achei os cabe­los cache­a­dos lin­dos, e de uma cafo­ni­ce extre­ma as ten­ta­ti­vas de tor­ná-los lisos a qual­quer cus­to.

Cena da Marcha do Orgulho Crespo

A cena de infân­cia sem­pre me vol­ta à lem­bran­ça quan­do pen­so sobre o racis­mo bra­si­lei­ro. Por isso, para mim, a Marcha do Orgulho Crespo foi uma des­sas demons­tra­ções ines­que­cí­veis de que ser mulher negra no Brasil é ter cada fio de cabe­lo esqua­dri­nha­do pela lógi­ca do poder bran­co. Cada mulher que ocu­pou a Avenida Paulista em junho para mos­trar que se orgu­lha do seu cabe­lo lem­bra a cada um de nós como a sub­mis­são dos cor­pos à lógi­ca do poder nos con­fi­gu­ra, nos con­for­ma, nos des­for­ma.

A polí­ti­ca de “mis­tu­ra de raças” dei­xou um lega­do sobre os cor­pos: o ide­al de nariz fino para os bran­cos foi cons­truí­do para se dife­ren­ci­ar do “nariz gros­so”, a bun­da empi­na­da da mula­ta ses­tro­sa de sexu­a­li­da­de quen­te se con­tra­põe à bur­gue­sa bran­ca e magra. O lábio gros­so, a cor da pal­ma da mão e da sola do pé, o tipo de pelos púbi­cos somam-se aos inú­me­ros indi­ca­do­res de negri­tu­de com os quais o racis­mo bra­si­lei­ro mar­ca os cor­pos. Antes, escra­vos eram esco­lhi­dos pela cir­cun­fe­rên­cia da cane­la. Ainda hoje, mulhe­res são dis­cri­mi­na­das – inclu­si­ve e prin­ci­pal­men­te por outras mulhe­res – por exi­bi­rem seus cabe­los cres­pos. Transformar pre­con­cei­to em orgu­lho, aí está a mai­or das vitó­ri­as.

Carla Rodrigues é jor­na­lis­ta e pro­fes­so­ra de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ.

 

Nouvelle Vague

José Geraldo Couto

Num ano de rela­ti­va­men­te pou­cos lan­ça­men­tos extra­or­di­ná­ri­os no cir­cui­to comer­ci­al de cine­ma, dois gran­des even­tos reco­lo­ca­ram a Nouvelle Vague no cen­tro da ima­gi­na­ção e da sen­si­bi­li­da­de dos ciné­fi­los: a mega­ex­po­si­ção Truffaut: um cine­as­ta apai­xo­na­do e a retros­pec­ti­va com­ple­ta da obra de Godard.

A pri­mei­ra, que ficou de julho a outu­bro no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, foi con­ce­bi­da ori­gi­nal­men­te pela Cinemateca Francesa, onde ficou em car­taz de outu­bro de 2014 a feve­rei­ro des­te ano. Incluiu uma mos­tra qua­se com­ple­ta dos fil­mes do dire­tor de Jules e Jim.

Credencial de François Truffaut expos­ta na mos­tra no MIS

Já a monu­men­tal retros­pec­ti­va Godard, com 125 fil­mes – entre lon­gas, cur­tas, víde­os, pro­gra­mas de TV e docu­men­tá­ri­os –, ocu­pou em outu­bro e novem­bro as uni­da­des do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, Rio e Brasília, além do CineSesc pau­lis­ta­no.

Por iro­nia do des­ti­no, a mos­tra Godard come­çou em São Paulo um dia depois do fim da expo­si­ção Truffaut, como se os dois ex-ami­gos e ex-com­pa­nhei­ros de trin­chei­ra cine­ma­to­grá­fi­ca não pudes­sem estar ao mes­mo tem­po na mes­ma cida­de.

Claro que a Nouvelle Vague não se resu­me aos dois: há Chabrol, Rohmer, Rivette, só para citar os que esta­vam na linha de fren­te. Mas sem a inven­ti­vi­da­de explo­si­va de Godard e o liris­mo pro­fun­do de Truffaut o movi­men­to que revo­lu­ci­o­nou o cine­ma fran­cês e mun­di­al não exis­ti­ria, ou seria total­men­te dis­tin­to.

Um docu­men­tá­rio admi­rá­vel (lan­ça­do em DVD pela Imovision) regis­tra e dis­cu­te essa fecun­da rela­ção de amor e ódio: Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, de Emmanuel Laurent. Depois des­se encon­tro ou coli­são, o cine­ma nun­ca mais seria o mes­mo.

José Geraldo Couto é crí­ti­co de cine­ma, jor­na­lis­ta e tra­du­tor. Escreve regu­lar­men­te sobre cine­ma para a revis­ta Carta Capital.

 

As peque­nas vir­tu­des, Natalia Ginzburg

Alice Sant’Anna

No ensaio “As rela­ções huma­nas”, do peque­no gran­de As peque­nas vir­tu­des, Natalia Ginzburg escre­ve sobre a sur­pre­sa que é se tor­nar adul­to e notar que cres­cer não é nada daqui­lo que se ima­gi­na­va: “não a segu­ran­ça de si, nem a pos­se sere­na de todas as coi­sas da ter­ra”. Ela lem­bra de quan­do era cri­an­ça, tris­to­nha, sozi­nha no quar­to, fan­ta­si­an­do sobre a pró­pria soli­dão. A mãe abria a por­ta e, com pena, con­vi­da­va-a para sair, assis­tir a um fil­me, tomar sor­ve­te. A meni­na acei­ta­va e toma­va o sor­ve­te “em minús­cu­las colhe­ra­das”. Talvez sejam essas as tais peque­nas vir­tu­des, as minús­cu­las colhe­ra­das.

No tex­to seguin­te, homô­ni­mo ao títu­lo do livro, Natalia fala sobre como edu­car os filhos: “pen­so que se deva ensi­nar a eles não as peque­nas vir­tu­des, mas as gran­des”. Explica: em vez de ensi­nar a pou­pan­ça, deve-se ensi­nar a gene­ro­si­da­de e a indi­fe­ren­ça ao dinhei­ro. No lugar da pru­dên­cia, a cora­gem e o des­dém pelo peri­go. E assim por dian­te. É uma ver­da­dei­ra aula sobre a inti­mi­da­de, a rela­ção entre pais e filhos, um deli­ca­do equi­lí­brio entre silên­cio e espa­ço.

As peque­nas vir­tu­des, publi­ca­do pela Cosac Naify, reú­ne onze ensai­os escri­tos entre 1944 e 1962, tra­du­zi­dos por Maurício Santana Dias. Os temas tra­ta­dos pela auto­ra de Léxico fami­li­ar e Caro Michele são abran­gen­tes: o ami­go Cesare Pavese, a idi­os­sin­cra­sia dos ingle­ses com a comi­da, o ofí­cio da escri­ta, entre outros. A pro­sa é lím­pi­da, sábia, em tex­tos cur­tos que esmiú­çam com cla­re­za e abso­lu­ta luci­dez o pro­ces­so de apren­di­za­do (que não ter­mi­na nun­ca). São enor­mes lições.

Alice Sant’Anna é poe­ta e tra­ba­lha na  ser­ro­te, revis­ta de ensai­os do IMS.

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