Shakespeare atrás das grades

No cinema

08.03.13

Roubei o títu­lo aci­ma do docu­men­tá­rio Shakespeare behind bars (Hank Rogerson, 2005), que retra­ta­va uma mon­ta­gem da peça A tem­pes­ta­de por vin­te deten­tos de uma pri­são no Kentucky. Uma expe­ri­ên­cia aná­lo­ga é o que fazem os irmãos Paolo e Vittorio Taviani no pun­gen­te César deve mor­rer, atu­al­men­te em car­taz (inclu­si­ve no IMS).

No fil­me dos Taviani, a peça de Shakespeare é Julio César e o pal­co é uma pri­são roma­na de segu­ran­ça máxi­ma. Os ato­res são pre­si­diá­ri­os con­de­na­dos a lon­gos perío­dos ou à pri­são per­pé­tua. No mais das vezes, tra­fi­can­tes e homi­ci­das liga­dos às diver­sas máfi­as que asso­lam a Itália.

http://www.youtube.com/watch?v=MXx9mO6Ut6s

Mas César deve mor­rer não é um docu­men­tá­rio em sen­ti­do estri­to, pois mes­mo as ima­gens que simu­lam um regis­tro docu­men­tal — os tes­tes de ato­res, os ensai­os, as ati­vi­da­des coti­di­a­nas no pre­sí­dio — são ence­na­das. Ainda que repi­tam o que fize­ram ou dis­se­ram na “vida real”, os detentos/atores têm cons­ci­ên­cia de que des­ta vez estão atu­an­do dian­te das câme­ras. De res­to, como demons­trou nos­so mai­or docu­men­ta­ris­ta, Eduardo Coutinho, tudo o que se pas­sa dian­te de uma câme­ra tem, em algu­ma medi­da, o cará­ter de fic­ção, de rees­cri­ta do real.

Nobres e bru­tos

Pois bem. É nes­se ter­re­no difu­so, entre o docu­men­to e a fic­ção, que tra­fe­ga o fil­me dos irmãos Taviani. O extra­or­di­ná­rio é o modo como se entre­la­çam “natu­ral­men­te” o mun­do dos pre­sos e o da tra­gé­dia sha­kes­pe­a­ri­a­na. Em Julio César, peça sobre os meca­nis­mos do poder, per­so­na­gens nobres se embru­te­cem por for­ça de suas ambi­ções, seus medos, seus res­sen­ti­men­tos, seus inte­res­ses mes­qui­nhos ou sua sede de vin­gan­ça. Na mon­ta­gem pre­si­diá­ria, ocor­re uma espé­cie de inver­são, em que seres bru­tos são eno­bre­ci­dos pela esti­li­za­ção, pela depu­ra­ção artís­ti­ca des­sas emo­ções huma­nas pro­fun­das.

César viveu há dois mil anos, Shakespeare escre­veu sobre ele há mais de qua­tro­cen­tos, mas seu dra­ma moral e polí­ti­co con­ti­nua vivo e poten­te no dia a dia daque­les sici­li­a­nos, cala­bre­ses e roma­nos encar­ce­ra­dos entre mura­lhas. É evi­den­te a iden­ti­fi­ca­ção deles com os temas da trai­ção, das intri­gas, da vin­gan­ça, do remor­so e da cul­pa.

A ence­na­ção na pri­são refor­ça essa iden­ti­da­de por meio de alguns acha­dos, como o de per­mi­tir que cada ator pro­nun­cie as falas sha­kes­pe­a­ri­a­nas em seu pró­prio dia­le­to, mas bus­can­do uma dic­ção nobre, não vul­gar. O resul­ta­do é não ape­nas uma mai­or vera­ci­da­de, mas tam­bém, por para­do­xal que pare­ça, uma uni­ver­sa­li­da­de ain­da mais notá­vel.

Teatro essen­ci­al

O pre­to e bran­co, que ten­de a “essen­ci­a­li­zar” os ambi­en­tes e ações, livran­do-os ao menos em par­te da sujei­ra, da feiu­ra e do ruí­do daqui­lo que é con­tin­gen­te e cir­cuns­tan­ci­al, aju­da nes­sa trans­po­si­ção do coti­di­a­no car­ce­rá­rio ao páthos sha­kes­pe­a­ri­a­no. Quando a peça é apre­sen­ta­da ao públi­co, no audi­tó­rio do pre­sí­dio, as cores vibran­tes e rea­lis­tas são mati­za­das por uma ilu­mi­na­ção som­bria, qua­se expres­si­o­nis­ta — outro modo de esca­par do “aqui e ago­ra” rumo à dimen­são do dra­ma.

No mais, a tra­ves­sia cons­tan­te da bar­rei­ra entre o den­tro e o fora da repre­sen­ta­ção lem­bra ao menos dois outros fil­mes memo­rá­veis em que ocor­re algo pare­ci­do: Tio Vânia em Nova York (1994), de Louis Malle, e Moscou (2009), de Eduardo Coutinho, ambos ins­pi­ra­dos em tex­tos de Tchekov. Nos três casos, pre­sen­ci­a­mos esse mila­gre de um tea­tro, diga­mos, de essên­cia, que con­se­gue nos trans­por­tar a outro tem­po e espa­ço sem a neces­si­da­de de cená­ri­os e figu­ri­nos ilu­si­o­nis­tas, base­an­do-se ape­nas no tex­to e no ator.

Algumas deci­sões de ence­na­ção e mon­ta­gem, pró­pri­as do fil­me, reve­lam-se mui­to feli­zes, como a de situ­ar no pátio exter­no deser­to a cena em que Marco Antônio (Antonio Frasca, con­de­na­do a 26 anos) faz seu céle­bre dis­cur­so sobre o cadá­ver de César (Giovanni Arcuri, con­de­na­do a 17 anos), com os outros pre­sos ven­do e ouvin­do (e urran­do) atra­vés das gra­des das jane­las. As pala­vras de Shakespeare, pode­ro­sas como pou­cas já escri­tas, adqui­rem uma for­ça e uma res­so­nân­cia ain­da mai­o­res. É ver para crer.

Aqui, para quem tiver curi­o­si­da­de, o trai­ler do docu­men­tá­rio nor­te-ame­ri­ca­no cita­do no iní­cio des­te tex­to: 

http://www.youtube.com/watch?v=S2kr5wV_AiQ

, ,