Thomas Bernhard: repetição e aniquilação

Literatura

05.08.13

Thomas Bernhard

Entre os lei­to­res de Thomas Bernhard, o escri­tor aus­tría­co nas­ci­do em 1931 e mor­to em 1989, que pro­du­ziu uma quan­ti­da­de con­si­de­rá­vel de roman­ces, con­tos, nove­las, memó­ri­as e peças, e é con­si­de­ra­do um dos mais influ­en­tes auto­res da lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea, é mui­to comum encon­trar alguns que sofrem de casos agu­dos do Mal de Bernhard. A enfer­mi­da­de leva a pes­soa ao deses­pe­ro, pois ela sim­ples­men­te não con­se­gue parar de ler o autor, emen­dan­do um roman­ce atrás do outro, e assim segue até a ine­vi­tá­vel cri­se, no qual joga­rá os livros ao alto e dirá que Bernhard só escre­veu um úni­co livro, e que todos os outros são mera repe­ti­ção des­sa mes­ma obra.

Até mes­mo sua auto­bi­o­gra­fia, Origem, esban­ja pon­tos em comum com roman­ces da fase tar­dia, como Extinção - Thomas Bernhard gos­ta­va de con­fun­dir rea­li­da­de e fic­ção, inse­rir a si mes­mo nos roman­ces, e mui­tas de suas entre­vis­tas pare­cem cedi­das pelo per­so­na­gem Thomas Bernhard, e não pelo autor. Após a pri­mei­ra cri­se do Mal de Bernhard, o lei­tor trans­tor­na­do con­fun­de as obras e fica em dúvi­da se a fra­se “A foto­gra­fia é a mai­or des­gra­ça do sécu­lo XX” está em um con­to, um dis­cur­so de acei­ta­ção de prê­mio ou um tre­cho de uma memó­ria.

O lei­tor frus­tra­do, então, ten­ta ela­bo­rar uma fór­mu­la Bernhard que dê con­ta da fic­ção e da não fic­ção: dia­tri­be con­tra tudo e todos, espe­ci­al­men­te con­tra o país de ori­gem (Áustria), con­tra o povo que lá resi­de (os aus­tría­cos), con­tra os artis­tas (espe­ci­al­men­te os aus­tría­cos) e con­tra o naci­o­nal-soci­a­lis­mo (mui­to for­te na Áustria), e ele exe­cu­ta essa dia­tri­be em um só pará­gra­fo, sem tem­po de tomar fôle­go, usan­do como prin­ci­pal recur­so esti­lís­ti­co a repe­ti­ção obses­si­va, os itá­li­cos irô­ni­cos e os (ine­vi­tá­veis) parên­te­ses.

Caso o lei­tor sobre­vi­va a essa pri­mei­ra cri­se do Mal de Bernhard e insis­ta na lei­tu­ra, des­co­bri­rá que a obra do autor não é tão repe­ti­ti­va assim; ou melhor: ela é enga­no­sa­men­te pare­ci­da. Uma fra­se em um livro com­ple­men­ta­rá um pará­gra­fo no outro; um poe­ma ser­vi­rá de con­tra­pon­to para um tre­cho de sua auto­bi­o­gra­fia. E, obser­van­do os deta­lhes, con­fron­tan­do os pon­tos de con­ta­to e ana­li­san­do as dife­ren­ças sutis de cada repe­ti­ção (temá­ti­ca, esti­lís­ti­ca), a rique­za da obra ber­nhar­di­a­na se reve­la.

Thomas Bernhard

A obra mais famo­sa do autor fora de seu ter­ri­tó­rio de ori­gem é O náu­fra­go, pri­mei­ra par­te de uma tri­lo­gia sobre as artes. É foca­do na vida de três músi­cos, sen­do um deles o famo­so pia­nis­ta cana­den­se Glenn Gould; Árvores aba­ti­das, segun­da par­te da tri­lo­gia, expõe a arti­fi­ci­a­li­da­de do meio artís­ti­co cons­truí­do ao redor do tea­tro aus­tría­co; Alte Meister (na tra­du­ção para o inglês, Old mas­ters), o últi­mo, é sobre pin­tu­ra e ficou conhe­ci­do pelo tre­cho no qual o nar­ra­dor ata­ca a figu­ra de Heidegger com fero­ci­da­de.

O náu­fra­go pode ser um bom pon­to de par­ti­da para pen­sar as com­ple­xas tei­as de rela­ção tra­ça­das por Bernhard. Publicado em 1983, é um resu­mo per­fei­to dos temas do autor, e um livro que não cai em exces­sos nem se tor­na exaus­ti­vo. A pri­mei­ra pági­na do roman­ce já pare­ce demons­trar todas as suas mar­cas auto­rais.

A epí­gra­fe (“Um sui­cí­dio cal­cu­la­do com gran­de ante­ce­dên­cia, pen­sei, e não um ato espon­tâ­neo de deses­pe­ro”) adi­an­ta uma fra­se do pró­prio livro, e mos­tra o sui­cí­dio como é comu­men­te vis­to pelos nar­ra­do­res de Bernhard: uma ati­tu­de raci­o­nal, pen­sa­da com fri­e­za, com natu­ra­li­da­de. E já a par­tir da epí­gra­fe é pos­sí­vel pen­sar em rela­ções tra­ça­das com outros livros.

Em Korrektur (na tra­du­ção para o inglês, Correction), por exem­plo, o sui­cí­dio sur­ge como o ápi­ce da “cor­re­ção”. O per­so­na­gem cen­tral de Korrektur é uma figu­ra ausen­te (como Glenn Gould), que des­de a pri­mei­ra linha já está mor­to, mas se reve­la uma pre­sen­ça fan­tas­ma­gó­ri­ca duran­te todo o roman­ce. Obcecado por cons­truir um cone imen­so no meio de uma flo­res­ta, o pro­ta­go­nis­ta de Korrektur vai aper­fei­ço­an­do o seu pro­je­to meti­cu­lo­so, cor­ri­gin­do sem parar as pro­vas até alcan­çar o dese­nho per­fei­to, a sim­pli­ci­da­de que só a refle­xão com­ple­xa per­mi­te. Logo em segui­da come­te sui­cí­dio, pois este é a últi­ma eta­pa na cor­re­ção, a cor­re­ção final. Já na auto­bi­o­gra­fia Origem, Bernhard indi­ca as ida­des nas quais mais pen­sou em sui­cí­dio e comen­ta como é comum, na Áustria, falar de sui­cí­dio como um assun­to cor­ren­te, uma pos­si­bi­li­da­de ordi­ná­ria.

O tema do sui­cí­dio, por­tan­to, pode pare­cer ao lei­tor frus­tra­do com Bernhard como uma repe­ti­ção, mas cada sui­cí­dio ber­nhar­di­a­no é mar­ca­do por par­ti­cu­la­ri­da­des. O sui­cí­dio de Wertheimer em O náu­fra­go, por exem­plo, pode ser lido como uma obra de arte con­cei­tu­al, o mais pró­xi­mo que Wertheimer che­gou da arte, pois a ver­da­dei­ra ele nun­ca alcan­ça­ria, con­de­na­do pelo fato de ter escu­ta­do Glenn Gould tocar as vari­a­ções Goldberg.

A denún­cia do fra­cas­so e da impos­si­bi­li­da­de de uma solu­ção satis­fa­tó­ria tam­bém está pre­sen­te logo na pri­mei­ra pági­na de O náu­fra­go. Três músi­cos: o nar­ra­dor, Wertheimer (o náu­fra­go do títu­lo) e Glenn Gould. Os dois pri­mei­ros estão fada­dos a uma exis­tên­cia medío­cre por terem sido expos­tos à geni­a­li­da­de de Gould. O que ofen­de tan­to os dois músi­cos é o fato de que o talen­to de Gould é natu­ral, enquan­to eles estu­dam lou­ca­men­te, ten­tan­do em vão ser vir­tu­o­ses. A geni­a­li­da­de, no uni­ver­so de Bernhard, nada tem a ver com vir­tu­o­sis­mo. “Wertheimer tinha um con­cei­to de arte, Glenn não pre­ci­sa­va de con­cei­to nenhum”.

A bus­ca pela geni­a­li­da­de em O náu­fra­go (e em Árvores aba­ti­das, Korrektur e tan­tos outros exem­plos) escon­de, por­tan­to, uma bus­ca pela pure­za. E essa bus­ca pode ser ras­tre­a­da até o pri­mei­ro livro que Bernhard publi­cou, Frost. Ali já esta­vam alguns ele­men­tos essen­ci­ais do autor, embo­ra não fos­se nar­ra­do em um úni­co pará­gra­fo de tirar o fôle­go. A fri­e­za denun­ci­a­da pelo títu­lo está por toda par­te, e o roman­ce gira em tor­no de um pin­tor ermi­tão bas­tan­te dedi­ca­do a monó­lo­gos e dia­tri­bes con­tra a arte.

Quase todos os lei­to­res de Bernhard que conhe­ço come­ça­ram a ler o autor por O náu­fra­go. Teorias mira­bo­lan­tes sur­gem de como as repe­ti­ções obses­si­vas das fra­ses seri­am ecos das “Variações Goldberg” de Bach, onde fra­ses de pia­no pare­cem se repe­tir, cada uma apre­sen­tan­do peque­nas modi­fi­ca­ções. O gos­to pelas repe­ti­ções, no entan­to, está lon­ge de ser uma mar­ca exclu­si­va do roman­ce, e sua liga­ção com Bach e Gould pode ser vis­ta como mera­men­te aci­den­tal. Cada livro pos­sui uma expres­são repe­ti­da exaus­ti­va­men­te: em O náu­fra­go é “pen­sei ao entrar na pou­sa­da” (dan­do a impres­são de que o livro intei­ro trans­cor­re na cabe­ça do nar­ra­dor em um só ins­tan­te, o ins­tan­te da che­ga­da à pou­sa­da), e em Extinção é “como dis­se a Gambetti”.

Thomas Bernhard

Uma boa manei­ra de pen­sar no modo como os temas, mes­mo se repe­tin­do, pare­cem se com­ple­men­tar, é atra­vés da lei­tu­ra de Árvores aba­ti­das, con­ti­nu­a­ção de O náu­fra­go na tri­lo­gia sobre as artes. O nar­ra­dor é um homem que retor­na à Áustria e rece­be o con­vi­te para um jan­tar com velhos ami­gos, que não via há déca­das. Todos estão reu­ni­dos em um jan­tar chi­que para cele­brar um ator tea­tral famo­so que irá ao even­to após a peça, mas o ver­da­dei­ro “fun­do” da reu­nião é o sui­cí­dio (sem­pre ele) de uma ami­ga que fazia par­te do gru­po. A mai­or par­te do roman­ce se pas­sa na cabe­ça do nar­ra­dor, sen­ta­do em uma pol­tro­na late­ral duran­te o jan­tar, obser­van­do anfi­triões e con­vi­da­dos a quem se refe­ri­rá como “os mor­tos-vivos do mun­do das artes”. Todas as ati­tu­des serão vis­tas como arti­fi­ci­ais, afe­ta­das, impos­ta­das, e todos — crí­ti­cos, dra­ma­tur­gos, artis­tas — não pas­sam de far­san­tes. Assim como os músi­cos frus­tra­dos de O náu­fra­go, podem se dedi­car o quan­to qui­se­rem ao estu­do: no máxi­mo se tor­na­rão vir­tu­o­ses. A arte de ver­da­de exi­ge radi­ca­lis­mo e não par­ti­ci­pa de jan­ta­res ele­gan­tes.

Glenn Gould, na opi­nião de Bernhard (ou melhor, na opi­nião do nar­ra­dor de Bernhard — embo­ra essas con­fu­sões entre autor e per­so­na­gem sejam ine­vi­tá­veis), foi bri­lhan­te por ter eli­mi­na­do a dis­tân­cia entre o pia­no Steinway e Bach. “A vida intei­ra, Glenn quis ser o Steinway; ele odi­a­va a ideia de estar entre Bach e o Steinway, ape­nas como um inter­me­diá­rio de uma músi­ca”. Por mais curi­o­sa que essa opi­nião pos­sa pare­cer — afi­nal de con­tas, Gould é conhe­ci­do jus­ta­men­te pela inter­pre­ta­ção úni­ca — ela é sin­to­má­ti­ca dos nar­ra­do­res de Bernhard, que sen­tem náu­sea ao serem con­fron­ta­dos com a arti­fi­ci­a­li­da­de do mun­di­nho artís­ti­co, o puxa-saquis­mo e a levi­an­da­de. Há duas saí­das: a geni­a­li­da­de ou o fra­cas­so.

E no fra­cas­so, para esca­par da medi­o­cri­da­de, os nar­ra­do­res de Bernhard ten­tam o con­ta­to com as pes­so­as sim­ples. É o dis­cur­so do ator home­na­ge­a­do no jan­tar em Árvores aba­ti­das: deve­mos rejei­tar toda a arti­fi­ci­a­li­da­de e bus­car a pure­za do lenha­dor que aba­te árvo­res na flo­res­ta. Discurso que ecoa na men­te do nar­ra­dor de Árvores aba­ti­das no momen­to catár­ti­co ao final do livro. Nesse sen­ti­do, tor­na-se cla­ro como os temas, ape­sar de se repe­ti­rem, mui­tas vezes são expos­tos de for­ma con­tra­di­tó­ria. Voltando a O náu­fra­go, nos depa­ra­mos com uma cita­ção que mos­tra a falên­cia do pro­je­to insi­nu­a­do como pos­sí­vel em Árvores aba­ti­das:

O assim cha­ma­do inte­lec­tu­al odeia seu inte­lec­tu­a­lis­mo e acre­di­ta que vai encon­trar sua sal­va­ção entre os assim cha­ma­dos pobres e des­fa­vo­re­ci­dos (…) em vez de sua sal­va­ção, porém, o que ele encon­tra é a mes­ma cru­el­da­de, dis­se, pen­sei.

Não é o úni­co momen­to no qual O náu­fra­go con­tra­diz um tre­cho de Árvores aba­ti­das: bas­ta recor­dar a fala de Glenn Gould con­tra a natu­re­za, que soa como antí­po­da ao elo­gio ao lenha­dor.

Thomas Bernhard

Há um pon­to de con­tras­te ain­da mais for­te entre O náu­fra­go e Árvores aba­ti­das: o pri­mei­ro pare­ce irre­ver­si­vel­men­te sério; o segun­do, de tão exa­ge­ra­do, pare­ce cômi­co. O que leva a uma per­gun­ta: Thomas Bernhard é um autor engra­ça­do?

Os temas de Bernhard são sem­pre gra­ves: sui­cí­dio, arte, ide­o­lo­gia naci­o­nal-soci­a­lis­ta, fra­cas­so, e o esti­lo é mon­ta­do em cima de dia­tri­bes. No entan­to, há uma linha que cos­tu­ma ser cru­za­da por alguns de seus nar­ra­do­res, e a recla­ma­ção se tor­na tão exces­si­va que pare­ce cômi­ca. Vejamos, por exem­plo, o livro Meus prê­mi­os, que com­pi­la dis­cur­sos de acei­ta­ção de prê­mi­os onde um Bernhard trans­tor­na­do sobe ao pal­co e ofe­re­ce um dis­cur­so con­tra a Áustria, comen­tan­do como tudo é ridí­cu­lo e absur­do. Ou seja: tre­chos nos quais o autor se com­por­ta como um per­so­na­gem. Árvores aba­ti­das é reple­to de momen­tos exa­ge­ra­dos que bei­ram o cari­ca­to, como se o per­so­na­gem não pas­sas­se de um Dr. House aus­tría­co — afi­nal, como alguém pode sen­tir tan­ta repul­sa por uma din­ner party?

Caminhando na cor­da bam­ba entre a viru­lên­cia e o absur­do, Thomas Bernhard aca­bou cri­an­do o “méto­do Bernhard” de cri­ti­car. Frases cate­gó­ri­cas como “A foto­gra­fia é a mai­or des­gra­ça do sécu­lo XX” aju­da­ram a cimen­tar o esti­lo de Bernhard, que pode mui­to bem ser des­cri­to como a lin­gua­gem do ódio.

Prova cabal dis­so é Asco, roman­ce de Horacio Castellanos Moya lan­ça­do recen­te­men­te no Brasil. O livro, que tem o sub­tí­tu­lo de Thomas Bernhard em El Salvador, apre­sen­ta um homem dis­cur­san­do con­tra o país de ori­gem, El Salvador, e tudo que é sim­bó­li­co do lugar. Um tre­cho pin­ça­do ale­a­to­ri­a­men­te:

Não há nada que eu ache mais detes­tá­vel do que os espor­tes, Moya, nada me pare­ce mais ente­di­an­te e imbe­ci­li­zan­te do que os espor­tes, mas espe­ci­al­men­te o fute­bol naci­o­nal, Moya, não enten­do como o meu irmão pode dar sua vida à vin­te e dois sub­nu­tri­dos com facul­da­des men­tais limi­ta­das que cor­rem atrás de uma bola.

Sem iden­ti­fi­car a auto­ria, pare­ce Bernhard, pois Moya toma empres­ta­do seu esti­lo no roman­ce jus­ta­men­te por­que o “méto­do Bernhard” é per­fei­to para arti­cu­lar des­pre­zo, seja con­tra o cli­ma géli­do da Áustria, seja con­tra o fute­bol de El Salvador. Se Bernhard cor­re o ris­co de soar cômi­co, o emprés­ti­mo de Moya tem ares de paró­dia, tor­nan­do-se duas vezes mais engra­ça­do. Mais: Moya escan­ca­ra o quan­to de impos­tu­ra pode ter, em alguns casos, o des­pre­zo de Bernhard.

Um tre­cho de Origem nos dá, nes­se sen­ti­do, uma cha­ve pre­ci­o­sa de lei­tu­ra:

No entan­to, logo pen­sei, a sober­ba não é um meio apro­pri­a­do para lidar com as pes­so­as a nos­sa vol­ta que des­pre­za­mos e nos são por­tan­to insu­por­tá­veis. Mas se não tivés­se­mos a sober­ba, esta­ría­mos per­di­dos, afi­nal ela não é outra coi­sa senão uma arma con­tra um mun­do que, do con­trá­rio, e por­tan­to sem essa sober­ba, nos engo­li­ria sem mais nem menos.

E ain­da:

A sober­ba é um meio abso­lu­ta­men­te apro­pri­a­do para lidar com um ambi­en­te hos­til (…) ain­da que seja só uma sober­ba simu­la­da, como a minha.

Thomas Bernhard

Soberba simu­la­da e des­pre­zo como for­ma de enfren­tar um mun­do hos­til. Há mui­tos moti­vos para pen­sar em Bernhard como o pati­nho esqui­si­to das letras oci­den­tais da segun­da meta­de do sécu­lo XX. Suas obras mais conhe­ci­das foram escri­tas na déca­da de 1980. Em 1973 Thomas Pynchon publi­cou O arco-íris da gra­vi­da­de, mar­co do pós-moder­nis­mo em sua mes­cla de lin­gua­gens e fusão entre alta e bai­xa cul­tu­ra. A par­tir dos anos 1960, a filo­so­fia fran­ce­sa pas­sou por um gran­de boom, e lá esta­va Derrida falan­do de des­cons­tru­ção e relem­bran­do a alte­ri­da­de de Levinas, Foucault estu­dan­do os mean­dros dos pode­res nas esfe­ras míni­mas. Jorge Luis Borges era con­si­de­ra­do um pro­fe­ta com seus con­tos fan­tás­ti­cos e García Márquez ganhou um Nobel em 1982.

Como Thomas Bernhard se encai­xa nes­te cená­rio? Talvez não se encai­xe. A nega­ti­vi­da­de bru­tal de Bernhard pare­ce deri­var de Beckett; suas dia­tri­bes às vezes lem­bram a Viagem ao fim da noi­te, de Céline; seus poe­mas são com­pa­ra­dos aos de Paul Celan, espe­ci­al­men­te por terem sido escri­tos ten­do como pano de fun­do um pas­sa­do naci­o­nal-soci­a­lis­ta recen­te. Em suma, Bernhard tem mais em comum com os clas­si­fi­ca­dos como moder­nis­tas do que com outros nomes da lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea. Na sua obra não há espa­ço para a alte­ri­da­de, para a aber­tu­ra em dire­ção ao outro. A sua escri­ta se dá como for­ma de desem­pa­co­tar tudo, a guer­ra, a fal­ta de espe­ran­ça, o pior de si — como afir­ma em Origem. É uma expe­ri­ên­cia que só se mos­tra pos­sí­vel a par­tir da pro­xi­mi­da­de com a mor­te:

O artis­ta, em par­ti­cu­lar o escri­tor, que não pro­cu­ra­va um hos­pi­tal de tem­pos em tem­pos, ou seja. que não pro­cu­ra­va uma tal esfe­ra pro­pí­cia ao pen­sa­men­to, vital, deci­si­va e neces­sá­ria à exis­tên­cia, aca­ba­va se per­den­do na insig­ni­fi­cân­cia, se enre­dan­do na super­fi­ci­a­li­da­de.

Italo Calvino, ao apon­tar ten­dên­ci­as artís­ti­cas em Seis pro­pos­tas para o novo milê­nio, fala de leve­za como uma mar­ca da lite­ra­tu­ra do futu­ro. Não há espa­ço para leve­za nos sufo­can­tes monó­lo­gos de Bernhard.

E, ape­sar de tudo, Bernhard pode ser vis­to como um autor mui­to atu­al. Lars Iyer, em um ensaio que tri­an­gu­la Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas e Thomas Bernhard, suge­re que o autor aus­tría­co, ao abor­dar de fren­te o fim da lite­ra­tu­ra, aca­ba des­co­brin­do uma for­ma lite­rá­ria pos­sí­vel no cená­rio con­tem­po­râ­neo:

A iro­nia de Bernhard é que, enquan­to seus nar­ra­do­res fra­cas­sam cons­tan­te­men­te até para come­çar, o autor encon­trouuma for­ma e uma manei­ra de se expres­sar. Seus músi­cos podem ter aban­do­na­do a músi­ca, e seus espe­ci­a­lis­tas em músi­ca podem não con­se­guir escre­ver uma linha sequer sobre o tema, mas Bernhard compôs uma can­ção para si mes­mo.

Thomas Bernhard

Aniquilação com­ple­ta. Depois de ter­ra­pla­nar o país de ori­gem, seus pares artís­ti­cos, o cli­ma, a foto­gra­fia, Heidegger, a arqui­te­tu­ra, os vir­tu­o­ses de pia­no, o tea­tro, a polí­ti­ca e tan­tos outros temas que se tor­nam obje­tos de escár­nio, Bernhard pre­ci­sa virar-se con­tra si. Toda sua escri­ta é uma bus­ca pela extin­ção, e por isso tal­vez sejam tão subli­mes as pas­sa­gens onde sua pró­pria figu­ra entra em jogo, como no livro de memó­ri­as O sobri­nho de Wittgenstein:

A ver­da­de é que sem­pre detes­tei os cafés de Viena, pois lá sou con­fron­ta­do com pes­so­as como eu, e natu­ral­men­te não gos­to de ser sem­pre con­fron­ta­do com pes­so­as como eu, e com cer­te­za não em um café, onde vou para fugir de mim. E, no entan­to, é lá que me encon­tro con­fron­ta­do comi­go e com pes­so­as de minha estir­pe. Eu me con­si­de­ro insu­por­tá­vel e ain­da mais insu­por­tá­vel do que eu é toda uma hor­da de escri­to­res.

[Os excer­tos em por­tu­guês de livros de Thomas Bernhard foram reti­ra­dos das tra­du­ções de Sergio Telarolli para a Companhia das Letras, exce­to o tre­cho de O sobri­nho de Wittgenstein, tra­du­zi­do por Antônio Xerxenesky, que tam­bém é o tra­du­tor de Asco (ed. Rocco)].

* Antônio Xerxenesky é escri­tor.

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