Traduzir Bishop — Quatro perguntas a Paulo Henriques Britto

Quatro perguntas

27.08.12

O poe­ta, con­tis­ta e tra­du­tor Paulo Henriques Britto é res­pon­sá­vel por ver­ter ao por­tu­guês livros de gran­des auto­res de lín­gua ingle­sa, como Philip Roth e Don DeLillo, e enfren­tar o desa­fio de tra­du­zir os com­ple­xos roman­ces de Thomas Pynchon, como Contra o dia e Mason & Dixon - um livro escri­to em inglês arcai­co. Recentemente, a Companhia das Letras lan­çou uma edi­ção de poe­mas sele­ci­o­na­dos de Elizabeth Bishop. Paulo Henriques Britto foi res­pon­sá­vel pela sele­ção, tra­du­ção e pela escri­ta dos tex­tos intro­du­tó­ri­os acer­ca da auto­ra. O blog do IMS pre­pa­rou qua­tro per­gun­tas sobre a obra da poe­ta, que viveu mui­tos anos no Brasil, e a expe­ri­ên­cia de tra­du­ção des­te livro.

1) No pre­fá­cio, você cora­jo­sa­men­te admi­te que dei­xou um poe­ma de fora da sele­ção por não ter con­se­gui­do resol­ver satis­fa­to­ri­a­men­te um pro­ble­ma de tra­du­ção. Qual foi o pro­ble­ma?

O poe­ma em ques­tão ter­mi­na com um ver­so em que Bishop tra­duz a fala de um per­so­na­gem ao pé da letra. O que ele diz em por­tu­guês é pro­sai­co: “Hoje é meu ani­ver­sá­rio, dia de Reis” — mas na tra­du­ção lite­ral de Bishop a fra­se se trans­for­ma numa coi­sa estra­nha, poé­ti­ca, que fecha o poe­ma com cha­ve de ouro. Não vejo como repro­du­zir o efei­to em por­tu­guês.

2) Você acha que a visão por vezes nega­ti­va — e oca­si­o­nal­men­te pre­con­cei­tu­o­sa — que Bishop tinha do Brasil apa­re­ce em suas poe­si­as?

Sim, às vezes — por exem­plo, em “Manuelzinho” e “Ida à pada­ria”.

3) No poe­ma iné­di­to “É mara­vi­lho­so des­per­tar jun­tas…”, você trans­for­ma um ver­so em inglês “It is mar­vel­lous to wake up together”, que não tem mar­ca­ção de gêne­ro, em um ver­so que faz refe­rên­cia à homos­se­xu­a­li­da­de da auto­ra, um fato bio­grá­fi­co conhe­ci­do. Foi uma deci­são tra­du­tó­ria difí­cil de tomar?

Nem tão difí­cil assim, por­que sim­ples­men­te não há como dei­xar o adje­ti­vo neu­tro em por­tu­guês. Eu teria que só uti­li­zar adje­ti­vos e par­ti­cí­pi­os que não tives­sem mar­ca de gêne­ro, como “ale­gre” e “feliz”, e ao mes­mo tem­po tives­sem sig­ni­fi­ca­dos bem pró­xi­mos aos que Bishop empre­gou. Não me pare­ceu pos­sí­vel fazer tal coi­sa.

4) O que você acha das tra­du­ções que Elizabeth Bishop fez do por­tu­guês ao inglês de João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes?

As de Cabral não me pare­cem boas; as de Drummond são melho­res, mas têm alguns pro­ble­mas. Já a úni­ca tra­du­ção de Vinicius que ela fez é sim­ples­men­te bri­lhan­te, a meu ver.

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