Fundación Iberoamericana

O poeta chileno Nicanor Parra (1914-2018)

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O poeta chileno Nicanor Parra (1914-2018)

O poeta chileno Nicanor Parra (1914-2018)

Poesia para bagunçar a cabeça

Literatura

24.01.18

Poe­ta for­ma­do em mate­má­ti­ca, cos­mo­po­li­ta radi­ca­do num vila­re­jo, pen­sa­dor anár­qui­co que repu­di­a­va toda ide­o­lo­gia (inclu­si­ve o anar­quis­mo), Nica­nor Par­ra cau­sa­va um mis­to de espan­to e admi­ra­ção a quem quer que ten­tas­se deci­frá-lo. Sua mor­te no últi­mo dia 23, com assom­bro­sos 103 anos, encer­ra a aven­tu­ra sin­gu­lar do inven­tor da “anti­po­e­sia”, menos um gêne­ro lite­rá­rio do que uma pos­tu­ra de inde­pen­dên­cia radi­cal peran­te a lite­ra­tu­ra e a vida. “A con­tra­di­ção é um dos meus méto­dos de tra­ba­lho”, ele dizia, à gui­sa de anti­de­fi­ni­ção. “Sou um cená­rio no qual apa­re­ce toda sor­te de per­so­na­gens”.

Em oito déca­das de car­rei­ra, a par­tir da estreia em 1937, Par­ra se des­do­brou em inú­me­ros per­so­na­gens. Em seu livro mais céle­bre, Poe­mas e anti­po­e­mas (1954), foi um pro­fes­sor neu­ras­tê­ni­co que que­ria ris­car todo liris­mo da poe­sia para rees­cre­ver a his­tó­ria huma­na, mas falha­va, por­que, afi­nal, “a vida não tem sen­ti­do”. Em Ser­mões e pré­di­cas do Cris­to de Elqui (1977), foi um pro­fe­ta anda­ri­lho que vaga­va pelo Chi­le de Pino­chet inter­pe­lan­do o absur­do da dita­du­ra (“Aqui não se res­pei­ta nem a lei da sel­va!”). Foi uma esfin­ge polí­ti­ca, ata­ca­do ora pela direi­ta, por sua pro­xi­mi­da­de com União Sovié­ti­ca e Cuba, ora pela esquer­da, por se recu­sar a rom­per rela­ções com os EUA – e ata­cou capi­ta­lis­tas e comu­nis­tas com o mes­mo afin­co ao se tor­nar adep­to de pri­mei­ra hora do movi­men­to ambi­en­ta­lis­ta, ain­da nos anos 1970. Foi, aci­ma de tudo, o anti­po­e­ta, encar­na­ção mais impu­ra das con­tra­di­ções que ani­ma­vam sua obra: “sacer­do­te que não crê em nada”, “nar­ci­so que ama todo mun­do”, “bai­la­ri­no à bei­ra do abis­mo”, “vaga­bun­do que ri de tudo, até da velhi­ce e da mor­te”.

Em maio de 2014, encon­trei alguns des­ses per­so­na­gens quan­do entre­vis­tei Par­ra no vila­re­jo de Las Cru­ces, no lito­ral chi­le­no, a 100 km de San­ti­a­go, onde ele vivia há mais de uma déca­da, numa casa com a pala­vra “anti­po­e­sia” picha­da na por­ta. Às vés­pe­ras de com­ple­tar 100 anos, con­ser­va­va a memó­ria pro­di­gi­o­sa e a luci­dez irre­ve­ren­te. Depois de lon­gas tra­ta­ti­vas para a visi­ta, que envol­ve­ram uma desas­tra­da abor­da­gem por meio de bilhe­tes entre­gues à sua gen­til faxi­nei­ra, Par­ra me rece­beu decla­man­do Pes­soa, em bom por­tu­guês: “Todas as car­tas de amor são ridículas/ se não fos­sem ridí­cu­las, não seri­am car­tas de amor”. Para minha sur­pre­sa, emen­dou com a aber­tu­ra de “No meio do cami­nho”, de Drum­mond.

Eu havia sido adver­ti­do de que Par­ra detes­ta­va entre­vis­tas, mas gos­ta­va de con­ver­sar, e que o melhor a fazer, por­tan­to, era se dei­xar levar por seu raci­o­cí­nio ver­ti­gi­no­so. Quan­do fiz uma per­gun­ta mais dire­ta sobre sua rela­ção com a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra, qua­se fui pos­to fora da casa. Mas ele logo impôs seu rit­mo. Sen­ta­do no sofá, de fren­te para uma gran­de jane­la com vis­ta para o Oce­a­no Pací­fi­co, pas­se­ou por seus assun­tos pre­fe­ri­dos, seus vári­os per­so­na­gens. Mos­trou velhos livros de mate­má­ti­ca e relem­brou os tem­pos de pro­fes­sor. Con­tou que havia aban­do­na­do a poe­sia para se dedi­car a ano­tar fra­ses de cri­an­ças. Decla­mou Sha­kes­pe­a­re, de quem fez uma elo­gi­a­da tra­du­ção de Rei Lear com o par­ri­a­no títu­lo Lear, rei & men­di­go — mas a ver­são de Ham­let da qual falou com empol­ga­ção pare­ce ter fica­do ina­ca­ba­da. Colo­cou para tocar um dis­co de cue­ca, a músi­ca popu­lar chi­le­na que ele e a irmã, a can­to­ra e com­po­si­to­ra Vio­le­ta Par­ra, tan­to ama­vam (“é a músi­ca do sub­mun­do”, diver­tiu-se, “pros­ti­tu­tas e ladrões!”). Ani­ma­do, impro­vi­sou uma peque­na apre­sen­ta­ção, batu­can­do na mesa da sala, e me con­vi­dou a acom­pa­nhá-lo.

Esse tal­vez seja tam­bém um cami­nho para ler Par­ra: dei­xar-se levar por seu rit­mo des­con­cer­tan­te, sem exi­gir que as con­tra­di­ções se resol­vam. E tal­vez por isso sua figu­ra tenha cau­sa­do tan­ta con­tro­vér­sia duran­te a Guer­ra Fria, quan­do a pola­ri­za­ção polí­ti­ca não dei­xa­va espa­ço para o humor feroz e ico­no­clas­ta de seus poe­mas, como aque­le em que uma mul­ti­dão car­re­ga um car­taz com os dize­res “Esquer­da e direi­ta uni­das jamais serão ven­ci­das”. Nem para a iro­nia amar­ga dos ver­sos que escre­veu sobre o Chi­le, mas que são um epi­tá­fio para a his­tó­ria de vio­lên­cia e pilha­gem de toda a Amé­ri­ca Lati­na: “Acre­di­ta­mos ser um país/ e a ver­da­de é que somos ape­nas pai­sa­gem”. Não é músi­ca fácil de acom­pa­nhar. Mas, como dis­se Rober­to Bolaño, o escri­tor que mais se dedi­cou a segui-la, a obra de Par­ra sobre­vi­ve­rá, entre outros moti­vos, por sua dis­po­si­ção incan­sá­vel para colo­car em prá­ti­ca uma das máxi­mas aspi­ra­ções da poe­sia de todos os tem­pos: bagun­çar a cabe­ça do públi­co.

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