O cineasta João Pedro Rodrigues

O cineasta João Pedro Rodrigues

A terceira margem do rio

No cinema

31.03.17

O cine­ma por­tu­guês é um fenô­me­no. Mesmo com uma pro­du­ção rela­ti­va­men­te pou­co nume­ro­sa, con­ta hoje com pelo menos três dos cine­as­tas mais ori­gi­nais e poten­tes em ati­vi­da­de no mun­do: Miguel Gomes, Pedro Costa e João Pedro Rodrigues, cujo lon­ga-metra­gem mais recen­te, O orni­tó­lo­go, pre­mi­a­do em Locarno, está entran­do em car­taz em cer­ca de vin­te cida­des bra­si­lei­ras. Salvo enga­no, é o pri­mei­ro fil­me do dire­tor a ser exi­bi­do comer­ci­al­men­te no país.

Mais que isso: toda a rica fil­mo­gra­fia de cine­as­ta, incluin­do seus cur­tas e docu­men­tá­ri­os, pode ser con­fe­ri­da na retros­pec­ti­va João Pedro Rodrigues pro­mo­vi­da pelo Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro.

Liberdade de ima­gi­na­ção

O orni­tó­lo­go, de cer­to modo, é o ápi­ce e a suma des­sa obra, pois con­ju­ga num pata­mar ele­va­do vári­as de suas linhas de for­ça: o trân­si­to entre o real e o fan­tás­ti­co, a pri­ma­zia con­fe­ri­da ao cor­po (dos seres e das coi­sas), os des­lo­ca­men­tos e des­com­pas­sos cul­tu­rais, a relei­tu­ra da reli­gi­o­si­da­de (sobre­tu­do cris­tã), o equi­lí­brio entre a liber­da­de da ima­gi­na­ção e o rigor da for­ma.

Tudo come­ça na mais per­fei­ta, qua­se idí­li­ca, qui­e­tu­de. O orni­tó­lo­go Fernando (o ator fran­cês Paul Hamy) per­cor­re um tre­cho des­lum­bran­te do rio Douro, na fron­tei­ra entre Portugal e Espanha, foto­gra­fan­do aves e regis­tran­do num gra­va­dor infor­ma­ções sobre elas. Uma dis­tra­ção, uma cor­re­dei­ra ines­pe­ra­da, um cai­a­que vira­do – e Fernando entra numa via­gem de outra natu­re­za, e com ele o espec­ta­dor.

Não con­vém ante­ci­par aqui a aci­den­ta­da jor­na­da do pro­ta­go­nis­ta. Basta dizer que, entre outras coi­sas, ele cru­za com duas chi­ne­si­nhas devo­tas que se per­de­ram do cami­nho de Santiago, com um gru­po rui­do­so de care­tos (per­so­na­gens mas­ca­ra­dos do fol­clo­re por­tu­guês, seme­lhan­tes aos cló­vis ou bate-bolas do car­na­val cari­o­ca), com ama­zo­nas que falam latim e estão arma­das de fuzis, com um jovem pas­tor de cabras sur­do-mudo etc.

De Santo Antonio a Santiago

Por um lado, como fica­rá cla­ro ao lon­go da nar­ra­ti­va, o fil­me é uma glo­sa da his­tó­ria de Santo Antonio de Lisboa (cita­do em epí­gra­fe), o san­to fran­cis­ca­no tam­bém conhe­ci­do como Santo Antonio de Pádua, cujo nome de batis­mo era Fernando. Ali estão, trans­fi­gu­ra­dos, alguns epi­só­di­os da vida do san­to. É qua­se uma hagi­o­gra­fia às aves­sas.

Por outro lado, O orni­tó­lo­go dia­lo­ga com O estra­nho cami­nho de Santiago, de Luis Buñuel, que tam­bém é uma via­gem pela mito­lo­gia cris­tã, com um pé no pre­sen­te his­tó­ri­co e outro no ima­gi­ná­rio, diga­mos, atem­po­ral. Com o acrés­ci­mo, aqui, de um homo­e­ro­tis­mo difu­so, que se con­cre­ti­za numa bela cena de sexo numa praia de rio, fil­ma­da com câme­ra alta, recur­so de esti­lo caro ao rea­li­za­dor. Neste fil­me, Rodrigues tor­na aliás lite­ral a expres­são bird’s-eye view, usa­da para des­cre­ver as toma­das aére­as num ângu­lo ver­ti­cal ou qua­se. Há lin­das “câme­ras sub­je­ti­vas” do pon­to de vis­ta das aves.

Nesse uni­ver­so ambí­guo – eu qua­se diria anfí­bio, dados os atra­ves­sa­men­tos entre a ter­ra e a água – tudo ganha pos­si­bi­li­da­des ale­gó­ri­cas: uma pom­ba bran­ca de asa que­bra­da pode ou não ser o Espírito Santo, o rio pode ou não ser uma ver­são do Estige (rio infer­nal do Hades), alguns per­so­na­gens podem ou não ser encar­na­ções de seus homô­ni­mos his­tó­ri­co-míti­cos: Fernando/Antonio, Jesus, Tomé. Para emba­ra­lhar ain­da mais as coi­sas, o pró­prio dire­tor, João Pedro Rodrigues, apa­re­ce fugaz­men­te na pele de seu pro­ta­go­nis­ta.

Há, por fim, um humor poé­ti­co e insó­li­to, enun­ci­a­do em vári­as lín­guas: por­tu­guês, inglês, man­da­rim, gale­go, latim e até miran­dês (idi­o­ma da região de Miranda do Douro), sem con­tar a lin­gua­gem dos sinais.

No mais, é a pai­sa­gem sun­tu­o­sa do Douro, com suas falé­si­as, reman­sos, cor­re­dei­ras, prai­as e matas, fau­na e flo­ra cap­ta­das por uma foto­gra­fia níti­da e trans­lú­ci­da, espe­ta­cu­lar nas cenas notur­nas. Se é um fil­me que fala do espí­ri­to, é por uma cele­bra­ção da maté­ria viva que ele se expres­sa. É, sem dúvi­da, o fil­me mais belo de João Pedro Rodrigues até ago­ra – e um dos mais belos do ano.

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