Acima das nuvens, o mundo em movimento

No cinema

09.01.15

O ano ciné­fi­lo come­ça mui­to bem com Acima das nuvens, de Olivier Assayas, um fil­me tão den­so de suges­tões e sig­ni­fi­ca­dos que vamos nos limi­tar aqui a seguir ape­nas alguns fios de sua rica tape­ça­ria.

Há, no cen­tro de tudo, uma atriz madu­ra e con­sa­gra­da, Maria Enders (Juliette Binoche), son­da­da para atu­ar numa nova mon­ta­gem da peça tea­tral em que estre­ou vin­te anos antes, Maloja Snake. Só que ago­ra, em vez da jovem sedu­to­ra Sigrid, ela faria o papel da exe­cu­ti­va qua­ren­to­na que se apai­xo­na por ela e é des­truí­da na rela­ção.

Relação e movi­men­to

Relação” é uma das pala­vras que defi­nem o modo de cons­tru­ção de Acima das nuvens (e, de res­to, de todo o cine­ma de Assayas). São as con­tur­ba­das e ambí­guas cone­xões de Maria com os outros per­so­na­gens que con­du­zem a ação, cada uma delas ganhan­do o pri­mei­ro pla­no em algum momen­to.

Ora o vín­cu­lo des­ta­ca­do é o de Maria com sua assis­ten­te Valentine (Kristen Stewart), ora com seu velho cole­ga Henryk Wald (Hanns Zischler), ora com a jovem estre­la Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), que fará o papel de Sigrid na nova mon­ta­gem – isso sem falar de per­so­na­gens impor­tan­tes que nem sequer apa­re­cem, como o ex-mari­do de Maria e o dra­ma­tur­go Wilhelm Melquior, autor de Maloja Snake.

É essa teia de rela­ções que mol­da a per­so­na­gem e a situa no mun­do, ten­do como uma espé­cie de espe­lho inver­ti­do a pró­pria tra­ma da peça tea­tral, que fica­mos conhe­cen­do aos pou­cos ao lon­go do fil­me.

A outra pala­vra-cha­ve para defi­nir Acima das nuvens é “movi­men­to”. Todas as rela­ções cita­das estão em per­ma­nen­te pro­ces­so de trans­for­ma­ção, e apa­re­cem de uma nova for­ma depen­den­do do ângu­lo em que são mos­tra­das.

Não por aca­so, o fil­me já come­ça “em trân­si­to”, no trem que leva Maria e sua assis­ten­te para Zurique, onde o reclu­so escri­tor Melquior será home­na­ge­a­do in absen­tia. A atriz, sua velha ami­ga, deve rece­ber um prê­mio em seu nome e fazer um dis­cur­so de lou­vor. Ocorre que, duran­te a pró­pria via­gem, che­ga a notí­cia da mor­te súbi­ta de Melquior, o que dará um novo tom ao even­to e a todo o dra­ma.

Fundo e figu­ra

Essa sequên­cia ini­ci­al é exem­plar: de acor­do com o movi­men­to do trem, a ima­gem é osci­lan­te, trun­ca­da, com os per­so­na­gens sain­do oca­si­o­nal­men­te do qua­dro pelas bei­ra­das – o que con­diz ple­na­men­te com as entre­cor­ta­das con­ver­sas ao celu­lar de Maria e Valentine. Nesses pou­cos, agi­ta­dos e frag­men­ta­dos minu­tos, entram em cena todos os prin­ci­pais temas a ser desen­vol­vi­dos no par de horas seguin­te.

Que mais se pode dizer des­se fil­me admi­rá­vel? Que, a exem­plo do que fize­ra em Horas de verão, Assayas entre­la­ça aqui à tra­je­tó­ria dos per­so­na­gens um retra­to mui­to pre­ci­so e inci­si­vo dos tem­pos que vive­mos, com des­ta­que para as rela­ções nem sem­pre pací­fi­cas entre a velha cul­tu­ra euro­peia e a vora­ci­da­de das novas mídi­as, das novas for­mas de con­su­mo e espe­tá­cu­lo. Valentine é, para Maria, a pon­te entre esses dois mun­dos, o que cor­res­pon­de, na tri­lha sono­ra, ao trân­si­to entre o bar­ro­co de Pachelbel e o rock do Primal Scream.

Há humor, saga­ci­da­de e melan­co­lia nes­se retra­to em que fun­do e figu­ra não se des­co­lam em momen­to algum. Há tam­bém um diá­lo­go desen­vol­to com um reper­tó­rio lite­rá­rio e cine­ma­to­grá­fi­co que vai de A mal­va­da (de Mankiewicz) e As lágri­mas amar­gas de Petra von Kant (de Fassbinder) à recen­te saga Crepúsculo (que lan­çou Kristen Stewart ao estre­la­to).

Há sobre­tu­do uma visão dos indi­ví­du­os como seres em per­ma­nen­te cons­tru­ção, rea­fir­man­do a ideia do Riobaldo de Guimarães Rosa de que “as pes­so­as não estão sem­pre iguais, ain­da não foram ter­mi­na­das”. Para isso, aju­da con­tar com uma atriz esplên­di­da e cora­jo­sa como Juliette Binoche. Mas dian­te dela, é pre­ci­so reco­nhe­cer, a valen­te Kristen Stewart não se inti­mi­da e nem pas­sa ver­go­nha.

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