Amor e morte segundo Haneke

No cinema

18.01.13

Por oca­sião da recen­te mor­te de Nagisa Oshima (1932–2013), Inácio Araujo publi­cou na Folha de S. Paulo um lin­do arti­go sobre a rela­ção entre sexo e mor­te na obra do cine­as­ta japo­nês, apro­xi­man­do-o das idei­as de Georges Bataille sobre o ero­tis­mo.

No amor car­nal, a libi­do, liber­ta de todas as amar­ras e cons­tri­ções, só se sacia ple­na­men­te no ani­qui­la­men­to de si e do outro. Não por aca­so o orgas­mo é cha­ma­do de “peque­na mor­te”.

Mas há outra rela­ção, menos drás­ti­ca e espe­ta­cu­lar, mas não menos pun­gen­te, entre amor e mor­te. É a que se dá no coti­di­a­no dos casais de ido­sos que, já dis­tan­tes do furor sexu­al da juven­tu­de, viven­ci­am a decre­pi­tu­de e a pro­xi­mi­da­de do fim. É des­sa dolo­ro­sa tra­ves­sia que tra­ta Amor, o novo fil­me de Michael Haneke, ganha­dor da Palma de Ouro em Cannes e con­cor­ren­te ao Oscar em cin­co cate­go­ri­as.

http://www.youtube.com/watch?v=XrFIw_Trvyk

É, antes de tudo, um fil­me sobre a com­pai­xão, vale dizer, sobre a capa­ci­da­de huma­na de se iden­ti­fi­car com a dor do outro e, na medi­da do pos­sí­vel, ame­ni­zá-la.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), dois refi­na­dos músi­cos apo­sen­ta­dos, são o casal de octo­ge­ná­ri­os. Diga-se entre parên­te­ses: os dois ato­res, mons­tros sagra­dos do cine­ma fran­cês, por si sós vale­ri­am o fil­me. Casados há mais de meio sécu­lo, eles vivem sozi­nhos num amplo apar­ta­men­to pari­si­en­se e têm uma filha já madu­ra (Isabelle Huppert), casa­da com um inglês (William Shimell).

Mundo à par­te

O fil­me come­ça com uma ação brus­ca e obje­ti­va: bom­bei­ros arrom­bam a por­ta e inva­dem o apar­ta­men­to, onde encon­tram, pla­ci­da­men­te esten­di­do na cama, o cadá­ver de Anne, já em esta­do de decom­po­si­ção (infor­ma­ção que nos che­ga, clas­si­ca­men­te, pelos ges­tos de poli­ci­ais e bom­bei­ros se pro­te­gen­do do chei­ro).

Depois des­se pró­lo­go, diga­mos, “em ter­cei­ra pes­soa”, recu­a­mos alguns meses no tem­po, de modo que toda a nar­ra­ti­va res­tan­te é um lon­go flash­back. Passamos então a acom­pa­nhar de per­to o declí­nio físi­co e men­tal do casal, espe­ci­al­men­te de Anne, e essen­ci­al­men­te do pon­to de vis­ta de Georges.

O pro­dí­gio mai­or de Amor é des­cre­ver esse outo­no ine­xo­rá­vel de modo ao mes­mo tem­po deli­ca­do e impla­cá­vel. Não dou­ra a pílu­la — como fazem tan­tos fil­mes “fofos” sobre a velhi­ce -, mas tam­bém não dei­xa de lan­çar um olhar com­pas­si­vo sobre o des­ti­no de suas cri­a­tu­ras.

Haneke é soli­dá­rio com seus pro­ta­go­nis­tas ao cri­ar para eles uma espé­cie de ambi­en­te à par­te, em que as luzes da cida­de entram fil­tra­das pelas cor­ti­nas e os ruí­dos do mun­do che­gam amor­te­ci­dos, como ecos dis­tan­tes, sem che­gar a per­tur­bar a subli­me músi­ca de Schubert. Um ambi­en­te de cores esma­e­ci­das, som­bras e silên­ci­os.

Tragédia em sur­di­na

Mas que nin­guém se ilu­da: nes­se peque­no tea­tro se desen­ro­la a mais uni­ver­sal das tra­gé­di­as, a ero­são da car­ne e do inte­lec­to, a con­di­ção fini­ta e frá­gil da vida. À dife­ren­ça dos melo­dra­mas vul­ga­res, Haneke não enfren­ta essa bar­ra alter­nan­do agra­da­vel­men­te momen­tos de dra­ma e humor, de vio­lên­cia e ter­nu­ra. É tudo ao mes­mo tem­po, soma­do, entre­te­ci­do, depu­ra­do: o humor é dra­ma, a memó­ria é o pre­sen­te, o ges­to extre­mo de vio­lên­cia é tam­bém o do mais puro amor.

É curi­o­so que essa sutil peça de câma­ra tenha sido rea­li­za­da por um cine­as­ta que ficou conhe­ci­do mun­di­al­men­te como arau­to da vio­lên­cia explí­ci­ta e não raro gra­tui­ta. Mas, pelo menos de Caché (2005) em dian­te, seu cine­ma pode ser vis­to como um pro­ces­so de depu­ra­ção, em que a vio­lên­cia ten­de a ficar fora do qua­dro por obra da elip­se (A fita bran­ca) ou a se inte­ri­o­ri­zar nos per­so­na­gens. Se, em vári­as obras, Haneke se inter­ro­ga sobre a ori­gem e a natu­re­za do mal, em Amor o mal não tem ori­gem nem auto­ria, é a pró­pria con­di­ção huma­na, pre­cá­ria e fini­ta.

Em vári­os aspec­tos (entre eles a pre­sen­ça de Isabelle Huppert) o fil­me lem­bra o novo de Marco Bellocchio, A bela que dor­me, exi­bi­do na últi­ma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É irô­ni­co que, por cami­nhos tor­tu­o­sos, dois cine­as­tas tão diver­sos aca­bem por se apro­xi­mar na matu­ri­da­de.

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